Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.
Artrópodes articulando.

sábado, 10 de junho de 2017

o gestor público tem sempre o dever de atuar de forma impessoal e buscar o maior retorno social possível para cada real investido.

Zumbis da cracolândia 

Helio Schwartsman 




Você não internaria seu filho à força se ele estivesse vagando como um zumbi pela cracolândia? Recebi diversas mensagens com esse teor, depois de ter escrito um par de colunas contra o recolhimento compulsório de dependentes proposto pelo prefeito João Doria. A formulação, admito, produz um belo efeito retórico, mas receio que seja fraca como argumento.

Não estamos, afinal, discutindo o que cada um de nós faria numa situação que envolvesse a família, mas sim qual deve ser a política pública para a cracolândia. E nem tudo o que fazemos na vida privada deve se tornar uma política pública.
Um exemplo eloquente é o daquele primo não muito esperto que não deu para nada na vida. Se você é dono de uma empresa, pode perfeitamente contratá-lo para exercer uma função em que não atrapalhe muito. A família ficará grata e você ainda receberá elogios por ser uma pessoa solidária. Alguns diriam até que você tem o dever moral de ajudar o parente necessitado. Mas, se você for um gestor público e fizer a mesma coisa, estará violando a lei. Mais, se contratar os primos não muito espertos de todos os que os tiverem, estará dando um grande passo para promover a falência do serviço público.

Algo semelhante ocorre com as internações. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) para álcool e drogas são um dos inúmeros gargalos do Sistema Único de Saúde. Há um bom número de dependentes que preenche os critérios médicos para internação e a deseja, mas não consegue uma vaga. Não faz nenhum sentido preterir esse paciente em favor de um que se recusa a passar pelo tratamento, o qual terá, portanto, muito menores chances de sucesso.

Ao contrário do cidadão privado, que pode pautar suas ações por preferências e, se quiser, pode jogar seu dinheiro fora, o gestor público tem sempre o dever de atuar de forma impessoal e buscar o maior retorno social possível para cada real investido. 

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