Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

É aí que começa a diversão.

'Ideológico' e 'pessoal', mas imprescindível, gosto se discute


Sergio Rodrigues 


Um equívoco ronda e perturba há anos as discussões sobre língua, palavras, expressão oral e escrita, estilo -enfim, os temas que esta coluna gosta de abordar. Estou falando do papel que se atribui ao gosto.

Talvez por influência do clichê "gosto não se discute", nunca falta quem esteja pronto a denunciar como arbitrária a inclusão, nas discussões sobre a língua, da ideia de que o falante deve discernir entre uma opção elegante e uma deselegante, por exemplo.

O argumento é o seguinte: "Onde já se viu querer dar lição de bom gosto? Por acaso estamos falando de um manual de etiqueta? Ora, o gosto é subjetivo. Falar de gramática, tudo bem. De usos, certo. Mas de gosto, preferência pessoal? Faça-me o favor!"

Trata-se de um mal-entendido pernicioso. O gosto é um tema complexo e cheio de arapucas, mas, se não o levarmos em conta, de pouco vai adiantar escrever um texto gramaticalmente musculoso, sintaticamente definido, ortograficamente lustroso. Teremos perdido o controle sobre sua alma.

Qualquer pessoa que procure aprimorar de forma consciente sua expressão escrita ou oral vai se ver o tempo todo diante de encruzilhadas em que o gosto é o único GPS.

Reconhecer isso não significa pregar o conformismo ou a busca do equivalente textual à música de elevador. O objetivo pode ser contrariar o que o grupo aceita como "bom gosto", criar fricção, incomodar. Também para isso é preciso saber o que se faz.

Volto mais uma vez ao clássico "Como Escrever Bem", do jornalista americano William Zinsser, para quem "o bom gosto é uma qualidade tão intangível que não se consegue nem mesmo defini-lo. Mas nós sabemos quando estamos diante dele".

O "nós" de Zinsser, examinado de perto, é parte da complicação. Entendemos que o autor se refere a um grupo razoavelmente homogêneo, o dos leitores esclarecidos da boa não ficção produzida nos EUA no século passado.

Esse grupo tem bordas difusas, mas em geral compartilha um número suficiente de referências culturais e, em termos socioeconômicos, situa-se no espectro amplo da classe média americana. Tem um repertório comum.

Se nunca fez sentido descartar a questão como meramente "pessoal", o sociólogo francês Pierre Bourdieu tratou de enterrar de vez esse erro ao destrinchar os mecanismos sociais e educacionais que engendram o gosto –e que por sua vez, numa sociedade desigual, são perpetuados por ele.
Acontece que reconhecer seu caráter "ideológico" também não encerra o papo. Ao contrário, deveria ser o ponto de partida para quem, em luta consciente com seus meios de expressão, precisa fazer dúzias de escolhas linguísticas por minuto.

Convém adotar esse estrangeirismo ou seria melhor ficar com seu sinônimo castiço? Palavra crua ou circunlóquio cheio de dedos? Gíria adolescente ou substantivo ancião? Citação de Homero ou de Paulo Coelho? Lugar-comum ou silêncio?

Sem isso, nas palavras de um autor que passou a vida engalfinhado com o "bom gosto", o sujeito não consegue nem chupar um Chicabon. ("Citar Nelson Rodrigues pode, professor?")

Reconhecida a essência social –e antissocial– da questão, vamos descobrir no fim das contas que a liberdade individual tem, sim, um tremendo papel nessa história. É aí que começa a diversão. 

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