Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

minha mãe diria: que marmota é essa!

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A morte na balança

Os bons tempos em que só se morria de subnutrição 

Ruy Castro




Em “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, de 1938, uma família de retirantes nordestinos come o papagaio de estimação durante sua viagem para fugir da seca. Era o jeito, mas duvido que aquele papagaio, pouco maior que um galeto, bastasse para alimentar o marido, a mulher e as duas crianças. Passasse-se hoje a história, eles encontrariam, em meio à aridez da caatinga, uma filial do McDonald’s, do Bob’s ou do Burger King, e poderiam escolher entre as ofertas de hambúrgueres, de acordo com sua necessidade de calorias.

Segundo reportagem de Márcia De Chiara domingo último [10] no jornal O Estado de S. Paulo, o McDonald’s está servindo um sanduíche com hambúrguer de carne bovina de 120 g, dez fatias de bacon, alface, cebola, queijo derretido, tomate, maionese, ketchup e mostarda, num total de 695 calorias. É quase um sanduíche diet comparado ao do Bob’s, com seu robusto hambúrguer de 160 g e guarnições equivalentes, somando 865 calorias. Mas os dois empalidecem diante do sanduíche do Burger King, que ostenta tudo aquilo e quatro andares de hambúrgueres, com piramidais 2.320 calorias.

Dizem os nutricionistas que uma pessoa de idade, peso e altura médios se contenta com cerca de 2.000 calorias por dia, se isso equivaler às calorias que ela queima. Mas, por mais nutritivos que sejam aqueles hambúrgueres, ninguém se limita a eles. E as batatas fritas, a Coca-Cola, a pipoca, o milk-shake?

Isso explica por que, segundo Yuval Noah Harari, em “Homo Deus”, havia 850 milhões de pessoas subnutridas no mundo em 2014 e 2,1 bilhões de pessoas com excesso de peso. A subnutrição mata, mas a obesidade mata três vezes mais. Em 2012, as guerras mataram 120 mil pessoas, o crime, 500 mil, e a diabetes, 1,5 milhão. Ou seja, diz ele, o açúcar é mais perigoso que a pólvora —e a Coca-Cola, mais letal que a Al Qaeda.

Bons tempos aquele em que o velho Graça escreveu sua obra-prima.

Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues

007 em ação

Vocação para a picaretagem

Reportagens mostraram que o PSL lançou candidatas de fachada

Hélio Schwartsman



O PSL, legenda do presidente Jair Bolsonaro, vai se revelando um partido bem picareta. Reportagens da Folha mostraram que a sigla lançou candidatas de fachada para manipular dinheiro do fundo público de financiamento de campanhas reservado para mulheres.

O presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, sem ter como explicar as peculiaridades das operações, preferiu atacar a legislação, que estabelece uma cota mínima de 30% das candidaturas (e das verbas) para mulheres. Para Bivar, política é uma questão de vocação.

Cotas para Parlamentos funcionam? A literatura, como em tantos outros temas polêmicos, traz estudos que contentam a todas as freguesias. A comparação internacional é difícil, porque existem diferentes modelos de cotas. Há desde países, como Ruanda, que reservam cadeiras apenas para mulheres em eleições paralelas nas quais apenas mulheres podem votar, até nações como a Suécia, nas quais alguns partidos decidiram voluntariamente equilibrar melhor o gênero das candidaturas.

Para complicar mais as coisas, os efeitos de cada uma dessas alternativas variam conforme o sistema eleitoral. Uma cota partidária de candidatas significa uma coisa num modelo de listas abertas e outra, bem mais forte, num país que adota a lista fechada.

Se é lícito tirar uma lição geral dessa salada, acho que dá para afirmar que a adoção de algum tipo de cota tende a ampliar a participação das mulheres na política. Mas fazê-lo não é condição necessária para atingir um patamar elevado. Nos países escandinavos, mulheres já haviam superado a marca de 30% das cadeiras em 1990, antes da moda das cotas.

O Brasil está tão atrás na representação feminina (pouco mais de 10%, o que é menos da metade da média mundial) que eu penso que a utilização de uma cota “soft”, sem reserva de assentos, não nos fará mal. Ajudaria bastante se legendas como o PSL não pervertessem o sistema.

Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

Intelectuais criam comissão para monitorar direitos humanos sob JBozo

Grupo que relembra dom Paulo Evaristo Arns tem 5 ex-ministros de FHC e 1 de Lula 

Anna Virginia Balloussier


Vinte intelectuais com quilometragem na área dos direitos humanos se uniram para servir como rede de proteção numa época, para eles, de “graves violações” a minorias como indígenas, negros, LGBTQs e mulheres.

Eles pretendem oferecer sua expertise numa luta para a qual dedicaram décadas de suas vidas. Pois mais do que nunca é hora de agirem para garantir que nenhuma minoria seja deixada para trás, afirmam os membros da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos dom Paulo Evaristo Arns —ou só Comissão Arns.

São cinco ex-ministros do governo Fernando Henrique Cardoso (José Carlos Dias, José Gregori, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Paulo Sérgio Pinheiro e a colunista da Folha Claudia Costin) e um da era Lula (Paulo Vannuchi) no projeto, que será lançado na quarta-feira (20), na Faculdade de Direito da USP.

O núcleo não à toa leva o nome do arcebispo que criou em 1972 a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, que acolheu perseguidos pelo regime militar.

Três anos depois, em mais um ato visto como afrontoso à ditadura, Arns (1921-2016) conduziu ao lado do reverendo James Wright e do rabino Henry Sobel um ato ecumênico para Vladimir Herzog —jornalista que o governo dizia ter se suicidado na cela, versão que os religiosos não compraram.

A presidência da Comissão Arns é de Paulo Sérgio Pinheiro, 75, ex-secretário de Direitos Humanos de FHC e membro da Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2011 pela ex-guerrilheira e ex-presidente Dilma Rousseff (PT) para trazer à luz crimes praticados durante a ditadura.

“A comunidade de ativistas dos direitos humanos de certa maneira se dividiu após o impeachment da Dilma. Diante desse desafio, era muito importante refazer essa unidade”, afirma Pinheiro.

Por desafio entenda a eleição de Jair Bolsonaro, alguém que, para ele, em um mês de governo já deu sinais de retrocesso nesse campo.

Um exemplo, diz Pinheiro, foi a limitação da Lei de Acesso à Informação, com data de nascimento gêmea à da Comissão da Verdade: 18 de novembro de 2011.

A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, 72, vê um “papel pedagógico” na comissão. É preciso bater na tecla de que “direitos humanos são para todos os humanos, coisa que uma parcela da sociedade tem dificuldade em assimilar”, afirma ela.

Para Maria Hermínia, ela e os outros integrantes têm “tradição de luta pela democracia”, e daí vem “uma certa força moral” para “dialogar toda vez que identificarmos um problema na área dos direitos civis”.

A pasta de Direitos Humanos estar a cargo da pastora Damares Alves é um ponto que a preocupa. Para a professora —e aqui ela diz falar por si, e não em nome da comissão—, fica “a impressão, pelas declarações [da ministra], que existe uma percepção muito limitada do que seja o rol dos direitos assegurados pela Constituição de 1988”.

Não passa batido aos fundadores da Comissão Arns que falar em direitos humanos, hoje, pode desagradar um quinhão da sociedade que enquadra o tema à esquerda.

Professor emérito da USP, Fábio Konder Comparato afirma que “a caracterização dessa nossa iniciativa como ‘agenda esquerdista’ teve o evidente objetivo de desmoralizá-la como manobra política”.

Para o advogado Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, que foi secretário de Segurança do governo de Orestes Quércia (PMDB) nos anos 1990, “a sociedade brasileira, infelizmente, está mostrando às claras a sua face autoritária, discriminatória e intolerante. A sua noção de democracia é seletiva. Liberdade de opinião apenas para quem pense igual a ela”.

O diretor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, Oscar Vilhena, diz que a Comissão Arns, “formada por algumas personalidades que adquiriram enorme autoridade moral”, quer amparar “os próprios grupos que monitoram e denunciam as violações e que poderão ser atacados”.

A ideia é trabalhar em rede com organizações sociais e pessoas que, quando detectarem algum direito violado, tenham suporte para fazer a denúncia pública e encaminhá-las a órgãos do Judiciário e organismos internacionais, além de promover ações com a classe política e a sociedade.

Diz Vilhena: “O regime que se contrapõe aos diretos humanos é normalmente totalitário, de esquerda ou de direita. A ideia de que os direitos humanos devem ser reservados aos humanos direitos não faz nenhum sentido. Quem fala isso está na verdade buscando encobrir uma tentação autoritária de poder definir que religiões poderão ser professadas, que discursos poderão ser feitos, quem merecerá ser devidamente julgado”.

s/c

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é cada uma...

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Impagável editorial do Estadão.

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

uma boa notícia, finalmente.

Por Mauro Ferreira, G1

Cátia de França tem primeiro álbum, de 1979, revivido após 40 anos em LP, edição digital e show

O boom de vozes femininas irrompido na MPB em 1979 ajudou a dar projeção nacional a cantoras e/ou compositoras nordestinas que, em movimentos migratórios feitos ao longo da década de 1970 de forma quase sincronizada, foram para as cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) em busca de um lugar ao sol.

A cantora, compositora e multi-instrumentista paraibana Cátia de França foi uma artista que se deslocou nesse fluxo, conseguindo lançar naquele ano de 1979 o primeiro álbum, 20 palavras ao redor do sol, pelo selo Epic, da gravadora CBS.

Cultuado, esse disco trouxe no repertório autoral músicas como Kukukaya (Jogo da asa da bruxa), apresentada quase simultaneamente na voz então agreste de Elba Ramalho, outra paraibana que também lançava naquele ano de 1979 o primeiro álbum, Ave de prata, pelo mesmo selo.

Decorridos 40 anos da edição original do LP 20 palavras ao redor do sol, o álbum tem celebradas essas quatro décadas de existência que somente fizeram crescer a beleza e a importância do disco.

Além de ganhar a primeira edição digital, programada para chegar às plataformas de música em 22 de fevereiro juntamente com o segundo álbum de Cátia de França, Estilhaços (1980), 20 palavras ao redor do sol será futuramente relançado no formato de LP e será mote de show em que a artista tocará na íntegra o repertório do álbum.

Tanto 20 palavras ao redor do sol como Estilhaços foram remasterizados por Luigi Hoffer e Carlos Savalla por conta destes relançamentos. Ao longo desses 40 anos, Cátia de França lançou somente mais quatro álbuns de estúdio, construindo discografia espaçada (e fiel aos princípios musicais da artista) cujo último título é por ora o álbum Hóspede da natureza (2016).

Se o álbum 20 palavras ao redor do sol faz 40 anos, Cátia de França completou 72 anos de vida ontem, 13 de fevereiro de 2019.

A era da facilidade

Não é preciso pensar nem estudar, só propor clichês para cimentar consensos 

Contardo Calligaris




Gostaria de escrever um livro que, desde o título, condensasse, numa palavra só, quem somos e em que mundo vivemos —tipo Era da Turbulência, da Incerteza, dos Extremos etc.

A crítica mais banal do espírito de nossos tempos diz que estaríamos na ("escandalosa") era dos prazeres imediatos. Será que eu concordaria?

Certamente não, mas essa crítica é um bom exemplo, pois ela nunca é acompanhada de fatos que a justifiquem. Ela apenas pede que a gente comungue numa indignação comum.

No caso, os fatos dizem que nossa cultura é declaradamente contra os prazeres há 18 ou 17 séculos. Primeiro, os prazeres mandavam você para o inferno. Depois, os prazeres foram ruins para a saúde. Com o prazer, você perde a vida eterna ou, se não acreditar naquela, perde anos desta tua vida na Terra.

Mas os fatos não interessam. O que importa é a expectativa de que a afirmação (por exemplo, que nossa época seria hedonista) corresponda ao que muitos querem ouvir (no caso, para se indignar).

Essa procura de um consenso talvez seja o estilo que define nossa era.

Consequência, estamos na era da facilidade: não é preciso pensar nem estudar, devemos apenas propor clichês, que possam cimentar consensos.

Os clichês ganham cúmplices ou esbarram em inimigos. Em ambos os casos, eles são confirmados, quer seja pela adesão dos "nossos", quer seja pela recusa pelos outros.

Nada contra a facilidade: não acho que penar e se sacrificar nos ganhem mérito algum. Mas, infelizmente, a facilidade dos clichês empobrece o mundo e deixa só duas posições —"a favor" e "contra". E eu, entre "a favor" e "contra", sempre escolho um terceiro ou um quarto lugar, que não foram sequer mencionados.

Entende-se que o indivíduo da era da facilidade (o Homo Fácil) odeia os intelectuais, em geral. Não tanto porque eles teriam ideias opostas.

Com as ideias opostas o Homo Fácil sabe lidar: é clichê contra clichê —manda prender, quebra a cara, censura, grita mais alto etc. Intolerável para o Homo Fácil é o intelectual que quer discutir e para isso traz ideias diferentes, ou, pior ainda, fatos "novos" —ou seja, fatos que o Homo Fácil não tinha levado em consideração.

O intelectual detestado, em suma, é o chato que gostaria de nos obrigar a pensar e a estudar. Que saco: a gente está tão bem no conforto do nosso clichê coletivo.

Nas mídias sociais, o Homo Fácil se sente em casa: é uma arena de opiniões —pura ideologia, sem espaço nem tempo para fatos, pensamentos, estudo, reflexão ou diálogo.

Um exemplo perfeito de como funciona o Homo Fácil foi oferecido pela ministra Damares, que se atribui um mestrado em "estudos bíblicos" (ou seja um "mestrado" em ideologia) e o confunde com mestrados acadêmicos —que são em disciplinas, não em ideologias.

O Homo Fácil é preguiçoso? É só uma nova espécie, que não quer ler, estudar e pensar? Talvez, mas não só.

Desde os anos 1960, uma espécie de neoplatonismo tomou conta de nossa visão do que significa aprender. Aos poucos, fomos nos afastando dos ensinos de conteúdo e avançando na direção de uma pedagogia pela qual tudo já estaria lá, dentro do indivíduo. Quer aprender sem esforço? Só deixe seu íntimo se expressar.

Começamos assim a encorajar nossos rebentos a ter opiniões e a formulá-las, mesmo sobre tópicos que eles ignoram totalmente.

Uma mãe, ouvindo sua filha defender calorosamente uma opinião sobre assédio moral, que ela (a criança) não sabe o que é: "Ela já tem opiniões, não é maravilhoso?". Eu: "Não é maravilhoso; é idiota".

Talvez a era da facilidade seja filha de uma pedagogia (recente) que não valoriza os conteúdos e preza a opinião antes que formular uma opinião digna seja sequer possível.

Tem alguma esperança de nossa cultura voltar a pensar?

Elizabeth Anderson é uma ilustre professora de filosofia moral (em Ann Arbor, Michigan, EUA). Num recente perfil (na The New Yorker), aprendi que, recentemente, ela mudou os requisitos para seus estudantes de graduação.

Em vez de pedir ensaios opinativos, nos quais eles defenderiam suas ideias e sua posição, ela pede que cada estudante discuta sua posição com alguém que pensa muito diferente dele, relate esse debate e explique por que e como a discussão mudou, por pouco que seja, o que ele ou ela pensavam antes disso.

Talvez não seja tarde demais para introduzir no currículo um novo tipo de dissertação.

Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).

são coisinhas tão miúdas

Joice Hasselmann diz que 'bancada da lama' quer controlar CPI sobre Brumadinho

Mônica Bergamo


Parlamentares dizem que deputada quer transformar a comissão em palanque


A CPI que investigará o rompimento da barragem de Brumadinho detonou uma guerra entre parlamentares. A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), autora da proposta de criação da comissão, acusa o que ela chama de “bancada da lama” de querer controlar o colegiado para abafar as investigações.

LUGAR AO SOL 

Já parlamentares que disputam uma vaga na comissão dizem que Hasselmann quer transformá-la em palanque.

A FACA E O QUEIJO 

A temperatura subiu na quarta (13), quando a CPI foi anunciada. O deputado Fábio Ramalho (MDB-MG) afirmou a Joice que a presidência e a relatoria tinham que ficar com deputados mineiros.

ESQUECE! 

“Esquece, Fabinho”, respondeu a deputada. Em seguida, em um discurso, ela disse: “Eu não vou permitir que essa CPI seja usada para criar dificuldade e vender facilidade”. À coluna, acrescentou: “Por que a bancada da lama não quer que uma parlamentar totalmente independente como eu presida a CPI?”.

EM CASA 

Ramalho diz que ele e seu grupo não pretendem “tomar conta da CPI e sim colocar nela pessoas que estão ali (em Minas Gerais) no dia a dia e conhecem a mineração”. Para ele, a tragédia de Brumadinho é um assunto “íntimo, pessoal, que aconteceu dentro da casa da gente [mineiros]”.

BALANÇA 

O STF (Supremo Tribunal Federal) começou a discutir a criminalização da homofobia sem consenso entre os magistrados —embora a tendência seja a de aprovar a ideia.

DEIXA PRA LÁ 

Um grupo de ministros, no entanto, prefere deixar o assunto para o Congresso resolver, evitando, assim, mais um mal-estar com parte dos parlamentares.

TEMPO 

É esperado que um dos ministros peça vista, ou seja, um prazo maior para analisar as propostas.

PRIMEIRO VOTO 

A expectativa é que o ministro Celso de Mello abra o painel votando a favor da criminalização. Por ser o decano e um dos mais respeitados magistrados do STF, a posição dele poderia inibir movimentos para protelar a decisão sobre o assunto, esperam os defensores da ideia.

AO VIVO

O CEO da Microsoft, Satya Nadella (ao centro), e o criador do fundo 3G Capital Jorge Paulo Lemann (à dir.) visitaram a sede do projeto Gerando Falcões, em Poá (SP), na terça (12); a ONG foi fundada por Eduardo Lyra (à esq.)

PERGUNTA 

A votação da criminalização da homofobia no Supremo impulsionou a procura por explicações sobre o assunto.

RESPOSTA 

O Brasil foi o país com maior interesse de buscas no Google sobre homofobia e transfobia na terça (12) e na quarta (13). As pesquisas saltaram 153% no país no período. “O que é homofobia?” e “O que é ser homofóbico?” foram as principais perguntas feitas no buscador.

BLOQUEIO 

O STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que salários podem ser penhorados para o pagamento de honorários advocatícios —que foram reconhecidos como recursos de natureza alimentar.

BLOQUEIO 2 

Salários são considerados impenhoráveis, mas a lei já abria exceções, como no caso de bloqueio para o pagamento de pensão a ex-cônjuges ou filhos. O STJ começa agora a definir em que outros casos isso será permitido.

FOGO 

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estendeu até o dia 29 de março o prazo para a inscrição de projetos de segurança e prevenção de incêndio em instituições culturais. O valor total disponível é de até R$ 17,7 milhões.

CHAMADA 

A primeira etapa foi lançada em outubro de 2018, após o incêndio que destruiu o Museu Nacional, e selecionou projetos do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (R$ 3,3 milhões), e do Museu Histórico e Diplomático, localizado no Palácio Itamaraty, no Rio (R$ 4 milhões).

CHAMADA 2 

O BNDES identificou grande procura, mas os projetos não puderam ser enquadrados por falta de detalhamentos solicitados na seleção. Para contribuir com os novos interessados, o banco vai fazer uma oficina na internet na segunda (18) com orientações para gestores de museus e instituições.

CHORA SANFONA

O músico Mestrinho comandou um show em homenagem a Dominguinhos, na Casa Natura Musical, na terça (12). Os cantores Mariana Aydar, Tato e Liv Moraes, filha de Dominguinhos, participaram do espetáculo. A cantora Adriana Moreira passou por lá.


Mônica Bergamo
Jornalista e colunista.

A praga do amarelinho e a política: Trabalho em equipe não deve ser o forte ali.

Revelações sobre candidaturas de laranjas expõem a fragilidade do discurso ético do PSL 

Roberto Dias


A combinação de laranja e política já foi bem mais divertida. Tem lugar de honra no anedotário o debate de Mário Covas e Paulo Maluf sobre a então pouco popular praga do amarelinho, na campanha de 1998. A partir dali, o progresso tecnológico conteve a propagação da doença nos laranjais de SP.

Não há consenso sobre que caminho levou a palavra laranja a tomar outro sentido, bem menos saudável: o de batizar a pessoa que tem seu nome utilizado para alguma fraude. Mas é inequívoco que nenhum avanço legal parece estar sendo capaz de deter a incidência desse mal.

A última manifestação apareceu na Folha nos últimos dias. As revelações expõem a fragilidade do discurso ético do PSL, o partido do presidente. É interessante notar que a reação do bolsonarismo vai sendo diferente da de Jair no episódio Wal do Açaí e da de Flávio no caso Queiroz. Parece agora faltar coragem para sustentar que laranja não é laranja.

O enredo repete capítulos de outros escândalos de tal modo que dá desânimo. Recorrer a gráficas para fazer mutreta? Tem isso. Empresas de fachada? Estão lá. Dirigentes partidários que nada sabem e nada viram? Escalados. Usar a luta pela participação feminina na política para cometer desvio? Feito, e acrescido de misoginia aberta.

Após tudo o que houve em campanhas passadas, as mudanças do marco legal continuam longe, muito longe, de terem abafado o problema. Ministério Público e Judiciário deveriam fazer desse caso um processo exemplar, indo de verdade até o fim. E a ideia de que o que acontece na lei eleitoral fica na lei eleitoral, sem criminalizar os envolvidos, precisa ser combatida como a praga que é.

O primeiro teste de estresse político do governo Bolsonaro serviu também para demonstrar o que já se suspeitava: o grupo no poder é um ninho de cobras em que ninguém confia em ninguém. Trabalho em equipe não deve ser o forte ali.

marina morena marina se pinta para guerra.

A bem da verdade 
Rotulações caluniosas alimentam a intolerância 

Marina Silva



Muito me espantou o artigo (“Déjà-vu”) publicado nesta Folha, do professor Sandro de Souza, mencionando uma suposta defesa minha do criacionismo em substituição à teoria da evolução, repetindo uma inverdade que ele mesmo plantou em outro artigo há mais de uma década (fake news não são um fenômeno tão recente).

Em tempos em que o culto ao obscurantismo ascende ao poder, torna-se imperativo um debate sem rotulações e ancorado em investigações isentas, ou seja, um debate verdadeiramente científico. Rotulações caluniosas são a base da indústria da intolerância, que hoje polui o ambiente da democracia e só serve àqueles que buscam “construir por oposição” —no dizer popular, só se levantam derrubando o outro.

Atualmente, em todo o mundo, mais de 3 bilhões de pessoas têm a fé e a crença na transcendência como um componente essencial de suas vidas. São expressões diversas das formas de ser e estar no mundo que têm atravessado a história da espécie humana e que, certamente, merecem respeito.

A fé, a arte e a filosofia antecipam ideias que a ciência explora com seu rigor metodológico e, ainda que sejam de natureza completamente distintas, como disse Jean Ansaldi (2003), “podem se estimular mutuamente, se interpelar, se convidar a ir mais adiante e mais fundo nas suas respectivas direções”.

A fé não se submete à ciência, nem esta àquela. Há uma colaboração entre as diferentes áreas do pensamento humano na construção dos saberes. A história mostra como esses processos criativos e sinérgicos resultam em maior riqueza da atividade intelectual. Não vejo isso apenas nos livros, mas na minha vida: sou uma pessoa de fé e de ciência.

Sempre pautei minha atuação pública, como parlamentar, ministra ou ativista, valorizando o saber científico e em permanente contato com as instituições acadêmicas e a comunidade científica, sem deixar de valorizar o diálogo respeitoso entre os saberes. Não há em minha trajetória qualquer marca de instrumentalização das atribuições públicas para fins religiosos. Infelizmente, não é a primeira vez que alguém tece inverdades sobre minhas falas públicas —quando deveria ser fiel ao fato, como a ciência ensina.

Mais uma vez, vou repetir: o que defendi, de verdade, foi que nas escolas declaradamente confessionais, que transmitem os conteúdos do criacionismo, se ensinasse também o evolucionismo. Essa é a minha visão: a educação, em escola laica ou religiosa, deve se dar em ambiente de liberdade, promovendo o desenvolvimento de todos os potenciais da inteligência de um ser humano e respeitando suas características pessoais, sociais e culturais.

Não por acaso, foi o apóstolo Paulo, profundo estudioso das diferentes formas de conhecimentos disponíveis em seu tempo, que nos estimulou a “olhar de tudo e reter o bem”. E o bem, tanto na ciência como na fé, é a verdade não apenas como resultado mas como meio de busca e procura. Quem quiser discordar do que eu digo tem o meu total respeito, mas, por favor, faça-o sem distorcer a realidade.

Marina Silva
Ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2008, gestão Lula), ex-senadora (1995-2011) e candidata à Presidência da República pela Rede em 2018, pelo PSB em 2014 e pelo PV em 2010

O Executivo e as execuções

A língua registra as marcas que a banalidade da morte deixa em nossa alma

Sérgio Rodrigues



A palavra execução traz do latim clássico um ar marcante de frieza administrativa. Termo do vocabulário da Justiça e das leis, "exsecutionis" era arremate, conclusão, ato de dar andamento a processos ou cuidar da aplicação de sentenças.

Em português, o sentido original sobrevive inteiro na "execução penal", mas o alcance semântico da palavra se expandiu ­em diversas direções, sempre em torno de um núcleo: executar é fazer acontecer.

Certos desdobramentos ficam dentro do campo administrativo, como o que deu no valorizado "executivo", acepção nascida no século 20 para designar uma variedade de profissionais que ocupam cargos de direção em empresas.

Outro sinal do apreço que a cultura devota a "executivo" é o próprio nome do Poder da República, o mais saidinho da trinca. Dono da caneta e da chave do cofre, cabe ao Executivo levar a termo políticas públicas, obras, manutenção da máquina.

Contudo, ao lado desse perfil garboso, o verbo "executar" tem um lado escuro. É sinônimo dicionarizado de matar, assassinar —sobretudo matar com frieza e eficiência.

É fácil perceber como isso aconteceu. O "Houaiss" informa que desde o século 16, quando era um bebê de um século de vida, "executar" tem o sentido de "tirar a vida em nome da lei". Óbvio: já em seu berço o termo tratava de execução legal e penal, como vimos.

Ora, se enforcar um condenado sempre esteve no DNA da execução, a língua é inocente, certo? Não tão depressa. É uma idiossincrasia brasileira o sucesso epidêmico dessa palavra com o sentido que o "Houaiss" chama de informal e ao qual todo cidadão do país se expõe pesadamente há pelo menos um punhado de décadas: o de assassinar.

Atenção: em todas as línguas que adotaram filhotes de "exsecutionis", como inglês, francês e espanhol, existe o sentido de "matar em nome da lei". No entanto, os grandes dicionários desses idiomas que consultei não trazem "assassinar" entre as acepções de executar. Pelo menos no inglês contemporâneo, tal uso existe, mas parece marginal demais para os lexicógrafos. Estamos na frente.

Afinal, basta subtrair da equação a lei e pronto, o matador legal, o carrasco, vira assassino. Há duas formas de fazer isso: em desafio aberto à lei ou por sua deturpação nos moldes que Charles Bronson consagrou: "Eu sou a lei". No primeiro caso, quem executa é o bandido. No segundo, o policial.

Nada disso é novo, como não é novo o apoio que uma parcela significativa da sociedade brasileira dá a grupos de extermínio. Sendo vertiginosamente mais banal em nossa vida do que na de países mais civilizados, a morte violenta deixa pegadas na alma —e portanto na língua que falamos.

A novidade é uma só, e não é pequena: altos escalões do Executivo lançarem abertamente acenos simpáticos e incentivadores a agentes da lei que operam à margem dela, apostando na execução como política de segurança.

O tema desperta paixões, claro. E não é que mesmo assim a velha frieza latina da palavra se faz sentir, como na metonímia hedionda que transforma pessoas assassinadas em "CPFs cancelados"?

O primeiro consultório gramatical que assumi na vida, em 2002, no Jornal do Brasil (eu que nunca fui professor de português), era uma ideia maluca do grande Ricardo Boechat. Desejar que descanse em paz um sujeito tão incansável é até engraçado, mas ele merece como poucos.

Sérgio Rodrigues
Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

falava quando não devia, agora quer calar.

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essa é boa: "núcleo biruta e enrolado".

Governo tem de parar de enlouquecer
Núcleo mais biruta e enrolado do bolsonarismo afeta até a boa vontade da elite 

Vinicius Torres Freire



O governo de Jair Bolsonaro junta rolos demais e faz muita inimizade gratuita para apenas seis semanas de mandato.

Os filhos do presidente detonam ou amplificam crises. Alguns de seus ministros insultam cidadãos de bem. Etc.

Não quer dizer que daí saia uma crise relevante. Mas escândalos e malquerenças são passivos que ficam no armário, dívidas que podem ser executadas em caso de dificuldades e fraquezas.

O problema pode ir da negociação de um voto importante no Congresso ao caso extremo da deposição, a depender do ambiente político geral.

Quando um não quer, dois não brigam, no entanto. O dito popular bonitinho também serve para as sujidades da política.

Um governo cheio de rolos não dança se o Congresso não quiser, e o Congresso não costuma se levantar da cadeira se o povo não subir nas tamancas.

O monte de escândalos do governo FHC deu em nada, graças também a um Ministério Público amigo. Lula se reelegeu com um mensalão nas costas. Não foi assim com Fernando Collor ou Dilma Rousseff.

O clima é muito favorável a Bolsonaro, em uma situação de risco, porém.

Dois terços dos eleitores estão otimistas com o governo e a economia. A confiança de empresários e consumidores cresce desde a eleição, mesmo que a economia permaneça quase estagnada no buraco do inferno em que caiu.

O governo não tem liderança no Congresso, mas líderes de uma maioria parlamentar ainda gelatinosa têm um programa afinado com o establishment reformista.

A elite econômica quase inteira faz vista grossa para as grossuras do governo, quando não comunga dos maus modos ou incentiva selvagerias. Não há oposição política ou social organizada.

O país econômico está quase parado à espera da Previdência. Presidente de banco, executivo de rede de varejo, incorporador imobiliário, industrial de fábrica média, dono de pizzarias, ouve-se de todos a mesma conversa.

Não vão decidir negócios novos relevantes antes de ver que bicho vai dar na reforma. Aprovada depois de julho, não haverá tempo para que a economia reaja com mais força neste ano.

Confia-se, desconfiando, em que a coisa vá melhorar. Enquanto isso, quase não melhora, apesar de um ou outro sinal de vida, no mercado imobiliário ou do crédito para pessoa física. A água suja ainda está pelo nariz. O acúmulo de escândalos pode fazer marolas perigosas.

As vendas no comércio crescem em ritmo cada vez mais devagar desde abril do ano passado. O crescimento da renda média do trabalho baixou a 0,6% em 2018. A soma de todos os rendimentos cresceu 1,7%, ritmo que não deve ser muito diferente neste 2019, mesmo que passe a reforma.

A ociosidade na indústria voltou a aumentar; a produção não se recuperou da baixa do caminhonaço.

O excesso de escândalos do bolsonarismo pode encarecer votos no Congresso. Na maioria das situações, isso é apenas "business as usual" e, mais do que de costume, o establishment está interessado em reforma econômica, ainda mais avesso a tumulto político.

Mesmo assim, o núcleo mais biruta do governo Bolsonaro está forçando a amizade. Um tropeço no Congresso vai dar problema grave.

O vice-presidente, que tem conversado com muita gente de peso pelo país, sabe disso. Mais do que procurar um lugar político de destaque, Hamilton Mourão está agindo de caso pensado ao fazer papel de voz da razão e das tolerâncias apaziguadoras: está dizendo ao restante do governo que pare de enlouquecer.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

a Folha fala

Tensão entre Poderes

Editorial Folha 



CPI dos tribunais e outras propostas de setores bolsonaristas soam como revanchismo descabido 



Na vida real, a relação entre os Poderes republicanos nem sempre se dá com a harmonia preconizada pela Constituição. A política, afinal, se faz primeiro afirmando as diferenças para depois tentar apará-las pela negociação.

Suscita preocupações, entretanto, o ensaio de queda de braço entre a cúpula do Judiciário e setores mais inflamados do governismo no Congresso. As origens da animosidade vêm de antes da eleição, quando o Supremo Tribunal Federal se colocou como anteparo a alguns dos ímpetos mais tresloucados de bolsonaristas.

A corte reagiu com vigor ao devaneio golpista de Eduardo Bolsonaro, segundo o qual bastariam um cabo e um soldado para fechá-la. Ministros também deram indicações de que barrariam projetos mais flagrantemente inconstitucionais, como o Escola sem Partido.

Nos dias finais da campanha, o STF chegou a impedir policiais de entrar em universidades para, fazendo mau uso da legislação eleitoral, reprimir o que seriam manifestações antibolsonaristas.

Mais recentemente, o presidente do tribunal, Dias Toffoli, determinou que a votação para a presidência do Senado fosse secreta, o que desagradou à ala governista, defensora do sufrágio aberto.

Uma espécie de revanche se fez perceber. Em poucos dias de mandato, parlamentares tentaram articular a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar corrupção no Judiciário, batizada, com açodamento revelador, de Lava Toga.

Também se movimentaram para reverter a emenda constitucional que elevou a aposentadoria compulsória de servidores públicos de 70 para 75 anos —o que, ao menos na intenção, abriria quatro vagas no STF para Bolsonaro preencher— e falaram em usar o impeachment contra magistrados.

Na melhor e mais provável hipótese, essas ideias —típicas de um bolsonarismo histriônico— visam mais a marcar posição e demonstrar força do que a partir de fato para um conflito institucional.

Alguns senadores foram rápidos para retirar suas assinaturas do pedido de CPI. Toffoli e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, almoçaram juntos. Fala-se menos em rever a PEC da Bengala, e impeachments não parecem estar no horizonte realista de eventos.

A aparente acomodação é positiva. Um confronto entre dois Poderes legítimos e necessários em nada contribuiria para o país. Isso não significa, porém, que o entendimento deva dar lugar ao adesismo ou à inércia dos dois lados.

Precisa-se, sim, de um Supremo independente, capaz de fazer frente aos excessos de um governo de inclinações populistas e voluntaristas. Não resta dúvida, por outro lado, de que há muito a aprimorar, inclusive por meio do Legislativo, num Judiciário repleto de privilégios e pouco afeito à transparência.

Laranjas venenosas

A realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada

Janio de Freitas


A bancada do PSL de Bolsonaro está constituída, na Câmara, com a inclusão de beneficiários de burla eleitoral. E não só eleitoral, por se tratar de atos lesivos aos cofres públicos. Essa é a realidade.

A revelação desta Folha que Bolsonaro considerou acabada, de candidatos-laranjas para tomar dinheiro do fundo partidário, não se soluciona com a responsabilização de um ou outro dirigente do PSL na última eleição. É o que querem os Bolsonaros. Mas a realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada.

Também não bastam investigações do Ministério Público e da Polícia Federal em Minas e em Pernambuco, estados com a burla de "laranjas" já exposta na Folha. Como o próprio Bolsonaro dirige o indicador para Gustavo Bebianno, hoje secretrário-geral da Presidência e presidente do PSL no ano passado, há mais motivo para suspeitar que a burla rendosa fosse uma orientação ampla. Além disso, o já comprovado desvio de verba eleitoral, para pagamento de gráfica inexistente, atesta um método de desvios para caixa dois ou para bolsos pessoais.

Os eleitos com recursos partidários provenientes de dinheiro público, em montante aumentado por golpe, tiram a legitimidade das votações de que participem. E o provável, com isso, é que sujeitem os resultados a questionamento judicial, para anulá-los. Diante disso, e apesar de mais interessado nas boas relações com Bolsonaro, Rodrigo Maia tem obrigações próprias de presidente da Câmara, e não se justifica sua indiferença ao surgimento do caso.

Ser mais um na série diária do governo Bolsonaro não faz desse um episódio qualquer. Mas, se não houver atenção pública, dos órgãos oficiais não se deve esperar o predomínio da imparcialidade e da lei. Sob o pretexto de "pacificação" e "harmonia", ninguém quer nada. De bom.

LUGAR DO PERIGO

Determinada pelo Judiciário, a transferência de duas dezenas do PCC para Rondônia e Rio Grande do Norte, área já conflagrada, é um teste particular de São Paulo. O acordo do então governador Cláudio Lembo com o PCC foi um gesto responsável e inteligente. Apesar de toda a crítica fácil e da negação posterior dos seus sucessores. As forças paulistas levavam uma tunda feia, atônitas e incapazes de inverter a situação que já seguia para 600 mortos.

Desde então, o acordo prevaleceu por um motivo tácito: falta de segurança para arriscar o enfrentamento com o PCC e seus aliados. Na ânsia de promover-se, João Doria festejou com a arrogância adolescente a transferência de Marcos Camacho, o Marcola, e 21 companheiros para distantes presídios federais. Mesmo recolhidos a presídios semelhantes, Fernandinho Beira-Mar e outros continuam exercendo sua condição de cabeças, em vários sentidos.

Com a transferência de Marcola, o Exército recebeu mais uma função, aliás, sem precedente: carcereiro externo de presídios. No medo extremo criado por um cabeça e 21 companheiros, os militares do governo poderiam ver o Brasil que de lá não veem.

O problema do teste é que não passará nos gabinetes de governo. Será nas ruas e nos prédios da população.

Janio de Freitas
Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

Daniel Craig que se cuide, essa gente não tem pudor.

Pacote anticrime de Sergio Moro divide águas em Washington 

Matias Spektor


Para uma parcela dos democratas, proposta de ministro equivale a uma licença para matar 

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O novo pacote anticrime proposto pelo ministro Sergio Moro afeta em cheio a relação entre o governo Bolsonaro e os Estados Unidos. O motivo é a nova redação dos artigos 23 e 25 do Código Penal, que, ao reduzir a interdição das forças de segurança brasileiras para matar, divide águas no Congresso americano.

Neste momento, o Legislativo americano é o ator mais relevante no relacionamento entre o Brasil e os EUA. Afinal, o governo Trump joga todo o seu peso para oferecer a Bolsonaro um ambicioso pacote de promessas políticas e diplomáticas no encontro do mês que vem.

Para torná-las realidade, a Casa Branca terá de conseguir a anuência de ao menos uma parcela da bancada democrata, cujos deputados controlam as comissões mais relevantes do Congresso.

O Executivo goza de uma grande vantagem para convencer esses deputados: o apoio do Palácio do Planalto à política americana para a Venezuela. A postura brasileira tem o apoio e a simpatia de numerosos congressistas democratas que, mesmo se opondo a Trump, estão de olho no eleitorado latino que anseia pelo fim da ditadura chavista.

Acontece que há outra parcela do Partido Democrata que enxerga em Bolsonaro uma ameaça à democracia latino-americana.

Para eles, a proposta de Moro equivale a uma licença para matar e, portanto, Bolsonaro não seria diferente de Rodrigo Duterte, o presidente filipino que virou exemplo contumaz do líder populista que, eleito pelo voto, usa a política de segurança para emparedar opositores e cercear instituições democráticas.

Esse grupo utilizará as investigações sobre os laços da família Bolsonaro com as milícias como ilustração do problema. Também apontará para as declarações do governador do Rio de Janeiro (“atirar na cabecinha”) e para as manifestações de representantes do governo federal no sentido de que “direitos humanos [são apenas] para humanos direitos”.

A expressão prática da batalha a ser travada no Congresso americano entre os grupos pró e anti-Bolsonaro ocorrerá na redação do capítulo sobre o Brasil a ser publicado no relatório anual do Departamento de Estado sobre a situação de direitos humanos.

Embora o texto seja de responsabilidade do Executivo, membros do Legislativo exercem enorme influência em seu conteúdo.

O relatório sempre tem grande impacto. Pesquisas recentes mostram que países nele criticados enfrentam dificuldades na obtenção de concessões americanas. Países elogiados, ao contrário, têm maior chance de obter benefícios em comércio, acesso a mercado e investimentos.

O pacote de Moro acirra o embate entre os lobbies pró e contra-Bolsonaro, expondo duas faces do Brasil no mundo.