Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

uma pausa para rever a causa.

Prezados amigos,


Resultado de imagem para o futuro do nosso pais

Daremos uma pausa no blog - de 15 a 27/06 - para recarregar as baterias, reavaliar o conteúdo e saber exatamente se estamos trilhando o caminho certo. Nossa bandeira e predileções continuaram intactas, sem margem para negociação. Porém, diante do cenário político que se apresenta, precisamos ficar atentos para não queimar figuras que representam avanços, diante do atraso daqueles que têm as armas como deuses. 

Voltamos logo. É vapt vupt.

Que a Copa do Mundo de Futebol nos proporcione partidas memoráveis, sem a necessidade de um novo 7 X1. Que apenas permita a todos refletir sobre o futuro do nosso tão combalido País.

Almanaqueiras: ou não queiras!



Brasil leva goleada nos juros

Taxas de juros no atacadão de dinheiro voltam a níveis do pânico da semana passada 

Vinicius Torres Freire



O pânico da semana passada nos mercados financeiros se transformou em fervura constante. O termômetro mais pop desse tumulto, o preço do dólar, parecia indicar que a febre baixava.

A moeda americana, que foi a quase R$ 3,97 no meio da confusão, voltara à casa dos R$ 3,70. Era o efeito do antitérmico das intervenções do Banco Central no câmbio.

Nos juros, o mal-estar continuava. Nesta quinta-feira (14), houve calafrios, taxas superando os níveis dos dias de crise da quinta-feira passada (7). Trata-se aqui dos negócios no atacadão dos mercados de dinheiro.

O custo de financiar investimentos e a dívida do governo está subindo, ao que parece de modo duradouro, não se sabe bem para qual patamar. Para uma economia que mal e lentamente se recuperava da recessão, é um choque.

A gente ouve por aí um saudosismo dos resultados da economia em abril, antes do caminhonaço, números que pareciam até bons, dada a lerdeza do primeiro trimestre. Mas não era grande coisa, mesmo antes da batida de caminhão de maio.

A massa dos rendimentos do trabalho desacelerava desde fins de 2017, por exemplo, péssimo sinal, dado que essa recuperação dependia basicamente de consumo das famílias.

O choque de confiança e as perdas diretas provocados pelo paradão caminhoneiro serão tanto mais agravados quanto mais tempo durar a fervura dos juros, tudo envenenado pela alta agora relevante do dólar.

Em suma, os donos do dinheiro não aceitam financiar governo ou nada mais pelas taxas pré-caminhonaço. O que está em discussão é o preço. Grosso modo, enquanto segue a queda de braço, se livram de certos títulos da dívida pública, apostam em dólar.

No caso do câmbio, é jogo pesado mesmo. A munição extra que o Banco Central prometeu usar nesta semana praticamente se esgotou (swaps cambiais, operações financeiras equivalentes à venda de US$ 20 bilhões; US$ 18 bilhões já se foram). O dólar foi a R$ 3,81, em parte vitaminado por tumultos no mercado lá fora.

Pode-se fazer um bom dinheiro apostando contra o Banco Central, em alta adicional do dólar, especulando que a autoridade monetária em algum momento vai intervir menos no câmbio. Afinal, o BC preciso guardar bala para as turbulências que a eleição deve provocar.

Há quem chute que o paniquito renovado tenha se devido apenas à falta de sinais sobre novas intervenções. Pelo sim ou pelo não, no fim desta quinta-feira o Banco Central disse que terá mais US$ 10 bilhões para atirar, na semana que vem.

Disse ainda que tem mais bala na caixinha: que o volume de operações de swap dos tempos terminais de Dilma Rousseff não é um limite (as operações de swap estão em US$ 56 bilhões; em 2015, chegaram a US$ 115 bilhões).

Resumo da ópera, as taxas de juros voltaram aos níveis mais altos dos dias do pânico da semana passada. A taxa de juro real "básica" no mercado chegou a perto de 3,4% ao ano (estava em 2,30% antes de o Banco Central decidir manter a Selic, em 17 de maio). Se ficar por aí, é como se tivéssemos regredido a agosto do ano passado.

Povos do mercado querem que o Banco Central chancele a alta de juros na praça, querem aumento da Selic na semana que vem e nos próximos meses. Em tese, se as expectativas de inflação continuarem no cabresto (e por ora não há motivo maior para que não estejam), não faz sentido elevar a Selic. Mas querer sentido não é uma atitude sensata nestes tempos.

vinicius.torres@grupofolha.com.br

Vinicius Torres Freire
Na Folha desde 1991. Foi secretário de Redação, editor de 'Dinheiro', 'Opinião' e correspondente em Paris.

Pântano eleitoral interdita debate sério sobre aborto no Brasil

Enquanto mulheres morrem, políticos fingem ignorar problema e reforçam tabu

Bruno Boghossian


Tende a ser barrada na fronteira qualquer tentativa de importação do debate sobre a legalização do aborto que avança na Argentina. Rejeitada pela maioria dos brasileiros, a proposta permanece interditada. Emerge a cada quatro anos do fétido pântano eleitoral, disfarçada de uma discussão política importante, mas volta a hibernar logo depois.

O Congresso e os últimos presidentes brasileiros jamais tiveram coragem de abordar com seriedade o direito à interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação. Enquanto morrem mulheres que realizam abortos ilegais de maneira precária, o assunto só é explorado na política para satanizar adversários.

Em 1989, Fernando Collor levou à TV uma ex-namorada de Lula que contava que o petista havia lhe sugerido um aborto. Em 2010, a mulher de José Serra foi vista na Baixada Fluminense dizendo que Dilma Rousseff queria “matar criancinhas”.

Não se deve esperar que os candidatos ao Planalto estejam dispostos a discutir o tema a sério este ano.

Jair Bolsonaro (PSL) mira um fantasma inexistente para reforçar seu viés conservador e promete vetar uma (improvável) flexibilização da lei. Marina Silva (Rede) se diz contrária à interrupção da gravidez “por convicção filosófica e de fé”, mas condena a prisão de quem fizer aborto.

Ciro Gomes (PDT) resume a questão: “Quero governar o Brasil, e o Brasil é uma sociedade conservadora. Não vou hostilizar as pessoas em nome dos meus valores”. Ele é favorável à legalização do aborto, mas quer desviar do tema na campanha.

Os políticos fingem ignorar a gravidade do assunto e reforçam um tabu: 57% dos brasileiros acreditam que mulheres que fazem aborto fora dos casos previstos na legislação devem ir para a cadeia. Só 36% dizem que não deve haver punição.

Na Argentina, o terreno é mais fértil. A população defende a legalização e, embora o país seja majoritariamente católico, 25% dos argentinos se dizem não praticantes (no Brasil, são 10%). Há mais do que 2.800 km entre Buenos Aires e Brasília.

Luz que ilumina e outras desgraças.

Nenhuma outra data traduz nossa indecência intelectual tão bem

Tati Bernardi 



Terça passada foi Dia dos Namorados, aquela data maravilhosa (criada pelo pai do Doria) em que fica bastante claro que os brasileiros não leem livros.

Sou uma grande incentivadora das declarações de amor. Mais do que isso: vira e mexe, as cometo. As atropeladas, rabiscadas, sem jeito, embriagadas, fora de hora ou endereçadas a quem não merece tendem a ser minhas preferidas.

Contudo, que desgraça ler a maioria das homenagens no Instagram e no Facebook. Amigos, vocês já passaram dos 30 anos, não dá mais para escrever como num bilhetinho de quermesse! “A tempestade que só nos deixou mais fortes”, “a distância que nos uniu”, “o instante daquele abraço”, “o sorriso mais lindo do mundo”, “obrigada por ser assim do jeitinho que você é”, “sou todo dela”, “eternos namorados”. Apenas parem. Nem pagodeiro consegue ir tão fundo no fundo do poço.

O mais chocante é a seriedade com que as pessoas escrevem essas baboseiras. Qualquer ser humano com três livros na estante ou o mínimo de neurônios necessário para uma autocrítica riria de si mesmo. Mas não, os Baudelaires do Dia dos Namorados acham mesmo que estão arrasando. E estão, mas é com a língua portuguesa.

Logo cedo, ainda na cama, já li a primeira afronta a nosso lindo idioma: “Você é a luz que ilumina meus caminhos”. Luz que ilumina! Ah, que misteriosa e diferentona essa luz que sai por aí iluminando! E caminhos, só conheço os que o Waze me narra. O resto é a ordinária claridade do computador do mozão (vendo besteira na madrugada) alumiando a rota quarto-cozinha.

A gente já sofre o ano inteiro com o povo da firma e seus happy hours em bares de Moema, insistindo nas fotos de cerveja acompanhadas da insuportável tiradinha “abrindo os trabalhos”. Já padecemos com os “looks cheios de bossa” de todas as mortais que se decidem it girl só porque compraram uma bota com franja. E a moda de escrever textão para o aniversariante queridão? O “todo dia é seu dia, mas hoje blá-blá-blá” confirma a minha tese de que os piores escritos emergem dos seres que mais perdem tempo sendo boas criaturas.

Mas tem um tipo que é o campeão da incapacidade cognitiva. São aqueles que começam todo post com “não tenho palavras”. Ou as versões pioradas: “ah, você me deixa sem saber o que dizer!”, “você sabe, não preciso falar nada!”, “o que escrever sobre você?” e o fatal “amo tanto que sei lá”. Oi, amigo, você aprendeu a se expressar com que organismo do reino animal? Se você não sabe articular, constatar e tampouco refletir, por favor, procure ajuda especializada! Isso não é amor, isso é grave! Isso não é uma explosão de sentimentos maravilhosos, mas talvez tenha algo prestes a romper no seu cérebro.

Qualquer um desses cursos-enganação sobre técnicas para ser mais criativo ensina que ninguém chega a lugar nenhum ser ler. E pelo menos nisso eles estão certos. Ler matérias, entrevistas, reportagens. Ler crônicas, contos, romances, poesia, cartas. Até bula de remédio é melhor do que nada.

Se se lembrassem do ódio de Bentinho por Capitu, se suportassem a vertigem da “Insustentável Leveza do Ser”, se recordassem as humilhações impostas por Lily a Ricardo em “Travessuras da Menina Má”, se tivessem chorado quando o amor de Paulo Mendes Campos acabou, se soubessem que a menina com uma flor de Vinicius se desesperou ao ver as malas partindo na estação de Roma, se pudessem sentir a última sílaba de Lolita nos dentes, como fez o Humbert de Nabokov…

Mas, infelizmente, o brasileiro não lê nem aviso de “faltará energia” e fica no escuro sem saber o motivo. Era pra ser romântico, mas nenhuma outra data do ano traduz nossa indecência intelectual tão bem quanto o Dia dos Namorados. Feliz Dia dos iletrados!

Tati Bernardi
É escritora, redatora, roteirista de cinema e televisão e tem seis livros publicados.

De herói do penta a fenômeno do ativismo em causa própria, do cidadão que pretendia usar o prestígio de atleta consagrado para melhorar o país ao astro que saiu de cena após o mar de lama da corrupção engolir seu candidato a presidente nas últimas eleições

Ronaldo, de herói do penta a fenômeno do ativismo em causa própria
Destaque na abertura da Copa, ex-goleador da seleção mantém nos negócios e na política o faro oportunista que o consagrou nos gramados

BREILLER PIRES

Ronaldo Copa do Mundo comentarista Globo

Artilheiro do pentacampeonato mundial com a seleção brasileira, em 2002, Ronaldo Nazário voltou a ser escalado em uma Copa do Mundo. Dessa vez, ele foi atração da cerimônia de abertura na Rússia, ao lado do cantor Robbie Williams. Como no Mundial passado, ainda será comentarista da Rede Globo nas partidas do Brasil. A reaparição com pompas de Ronaldo, que mantém inabalada a imagem de ídolo, pelo menos para o mercado, parceiros comerciais e patrocinadores, contrasta com sua escanteada verve política. De herói do penta a fenômeno do ativismo em causa própria, do cidadão que pretendia usar o prestígio de atleta consagrado para melhorar o país ao astro que saiu de cena após o mar de lama da corrupção engolir seu candidato a presidente nas últimas eleições, Ronaldo deixa cada vez mais claro que só entra em campo na boa, jogando para a torcida até o ponto em que o vento sopra a seu favor.

Recentemente, antes de embarcar para a Rússia, ele estrelou um comercial da Empiricus, empresa de análise financeira conhecida pelo tom apocalíptico e agressivo de suas campanhas de marketing. Ronaldo empresta a voz ao seguinte discurso publicitário: “Jogador de futebol tem carreira curta. São poucos os que ganham dinheiro. E dos que ganham, raríssimos os que conseguem manter o padrão de vida quando se aposentam. Eu posso dizer o contrário. Eu ganhei dinheiro, mesmo depois que me aposentei dos gramados. E o que eu fiz de diferente? Aprendi a andar com as pessoas certas.”


Constata com precisão a realidade da maioria dos jogadores, que pecam pela falta de planejamento pós-carreira. Porém, para quem há até pouco tempo se dizia comprometido em se portar como um padrão de ética e conduta para o Brasil, Ronaldo mostra desfaçatez ao justificar seu sucesso econômico bradando ter aprendido a andar com as pessoas certas. No mundo fenomenal, o que viriam a ser “pessoas certas”? Ricardo Teixeira, a quem ele bajulou defendendo sua permanência no comando da CBF? Marco Polo Del Nero, com quem tentou negociar contratos de patrocínio antes da Copa no Brasil? Ou Aécio Neves, amigo de longa data que recebeu seu apoio incondicional na última campanha à Presidência da República? Todos eles indiciados pela Justiça por suspeitas de corrupção.

O endosso a Aécio expôs o frágil engajamento de Ronaldo com a causa pública. Não pelo candidato que escolheu, pois é saudável que jogadores e ídolos do esporte tomem partido, se posicionem sobre questões nacionais, independentemente do tema ou da orientação ideológica. Mas sim por confundir militância com oportunismo político. Logo que o senador tucano foi derrotado nas urnas, Ronaldo engrossou as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e posou com a camisa: “A culpa não é minha, eu votei no Aécio”. Depois que o ex-governador de Minas Gerais foi sugado pelo escândalo de propina envolvendo a JBS, o Fenômeno, que via com bons olhos a possibilidade de se tornar ministro do Esporte em um eventual governo do candidato do PSDB, tirou seu time de campo da política.

Jamais voltou a mencionar publicamente o tucano que agora responde a nove processos no STF por acusações de corrupção. Questionado sobre o tema, adota o discurso de que “não é o momento de procurar culpados”. Seria sensato pensar assim, já que, em uma democracia, nada mais compreensível que mudar de opinião, mantê-la ou reconhecer a desilusão por um voto. Entretanto, foi justamente Ronaldo um dos primeiros a caçar culpados ao debochar com o lema de que a culpa não era sua. A aventura de militante na política se resumiu a lançar uma pedra ao mar e correr dos respingos.

Romário, hoje senador, teceu uma crítica pertinente ao comportamento “camaleão” de seu ex-companheiro de ataque na seleção brasileira. “O cara era Dilma antes da Copa. A Copa acabou, passou a ser Aécio. Ele foi a favor da Copa do Mundo. Depois, meteu o pau”, disse o pré-candidato ao governo do Rio pelo Podemos. Ronaldo integrou o Comitê Organizador da Copa. Enquanto protestos se espalhavam pelo país, ele chegou a dizer que “não se faz Copa com hospitais”, defendendo os gastos do governo federal em estádios. Após o Mundial, passou a ser crítico das obras superfaturadas e entrou de cabeça na campanha em prol de Aécio Neves.

Em que pese suas próprias contradições e a fama de falastrão, Romário também fez leitura cirúrgica sobre a maleabilidade do Fenômeno no campo político: “Ele é um grande ídolo. Agora, politicamente, o Ronaldo é zero, um copo d'água em cima da mesa. Se beber, bebeu. Se não beber, fica aí. Nunca apitou porra nenhuma na política. Já ouvi comentários de que ele tem interesse em se candidatar. Se um dia virar político, aí, sim, ele vai deixar de ser um copo d'água”. Evidentemente que não é preciso ocupar um cargo público para exercer o papel de cidadão. Mas, para uma figura célebre do porte de Ronaldo, pega mal se vender como personalidade preocupada com os rumos do país apenas quando os amigos precisam de uma mãozinha.

Incoerências à parte, o antigo centroavante da seleção continua sendo uma máquina de ganhar dinheiro fora dos gramados. Fundou uma empresa de marketing esportivo, a 9ine, em 2010. Entre sua cartela de clientes estava Neymar, maior craque brasileiro da atualidade. Ronaldo nunca enxergou conflito de interesses ao conciliar a função de comentarista da Globo na última Copa com a de gestor da imagem do principal jogador da seleção. Embora tenha encerrado as atividades da 9ine por causa da crise econômica, ele é sócio da Octagon, que cuida dos patrocínios de Gabriel Jesus, herdeiro da camisa 9 que um dia foi de Ronaldo. Como criticar com isenção o cliente que depende da opinião pública para gerar novos contratos publicitários? A indiscutível habilidade de transitar rapidamente entre universos tão diferentes parece ajudar nessas horas. Ronaldo não se constrange em trocar as bandeiras que levanta de acordo com aquilo que lhe convém. Basta lembrar 2008, quando fazia juras de amor ao Flamengo, que assegurava ser seu time do coração, mas, depois de fechar com o Corinthians, virou corintiano de carteirinha.

É inegável que sua história vitoriosa no futebol e na seleção não está em xeque pelos posicionamentos dúbios depois de pendurar as chuteiras, assim como é louvável a iniciativa de bancar a Fundação Fenômenos, que promove atividades de inclusão social em bairros de periferia. Mas, camuflado entre apadrinhamentos por conveniência e acordos comerciais, o faro oportunista que ostentava nas áreas adversárias se converte em gol contra nas investidas pela política. Enquanto estiver mais preocupado em ganhar dinheiro e andar com as “pessoas certas”, Ronaldo dificilmente conseguirá se estabelecer como um exemplo positivo no jogo democrático. Ainda que volte a subir em outro palanque nas próximas eleições, já deu mostras suficientes de o interesse em manter a prosperidade de seus negócios se sobrepõe ao suposto compromisso de ajudar a melhorar o Brasil.

é cada uma...

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a capa da nossa Gazeta

quinta-feira, 14 de junho de 2018

lá vem o Brasil descendo a ladeira

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camisa no varal

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Por que somos um dos raros países a não taxar os lucros das empresas quando são distribuídos aos sócios? Com isso, quem tem empresa paga sempre menos imposto que o assalariado

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Economistas liberais racham pelo teto

Lara Resende e Giannetti, consultores de Marina, querem rever o teto de gastos federais

Vinicius Torres Freire



Os economistas de Marina Silva (Rede) querem rever o "teto" de gastos de Michel Temer. Trata-se de André Lara Resende e de Eduardo Giannetti da Fonseca, que apenas no país do espelho podem ser chamados de esquerdistas ou coisa que o valha.

Mas apenas no país das maravilhas é possível derrubar o "teto" sem inventar alguma garantia de que déficit e dívida públicos não vão crescer sem limite.

De outro modo, o custo de financiamento do governo explodirá (juros em alta), se não acontecer algo pior.

Como se recorda, emenda constitucional de 2016 congelou o gasto federal em valores de 2017 por pelo menos dez anos. A despesa pode ser corrigida apenas pela inflação. Grosso modo, fica na mesma em termos reais.

Quando e como remover o "teto"? Lara Resende e Giannetti não explicam, na entrevista que concederam ao jornal Valor, publicada nesta quarta-feira (13).

O "teto" está à beira de se tornar inviável em 2020. Uma reforma da Previdência duríssima não teria efeito imediato relevante na despesa, quando muito evitando o estouro do limite já em meados do próximo governo. Isto é, evita a explosão caso também se aprove um monte de remendos fiscais e se massacre um tanto mais o investimento em obras.

Em termos políticos, o "teto" está pela hora da morte --quase apenas economistas liberais o defendem tal como está. É improvável que o próximo presidente aceite o engessamento de seu governo.

De resto, o país quase inteiro quer explodir os gastos, como se viu no apoio ao caminhonaço ou na rejeição sem mais da reforma da Previdência. Não há à vista acordo de redistribuição de perdas. O "conflito distributivo", como diz o jargão, é aberto e suicida.

É possível imaginar, na planilha, um programa de ataque amplo ao problema fiscal: 1) reforma da Previdência dura, que estabilize esse que é o gasto federal mais explosivo e ora incontrolável; 2) aumento de imposto duro, perto da casa de uma CPMF da mais gorda (1,3% do PIB); 3) congelamento do gasto com servidores.

Dadas essas condições e um plano mais flexível de limitação de gasto, de médio prazo, parece mais seguro derrubar o "teto" (recorde-se que uma versão menos draconiana do limite de gastos foi proposta por Nelson Barbosa quando ministro da Fazenda de Dilma Rousseff). Um surto de crescimento devido ao otimismo com as reformas fiscais súbitas poderia conter a dívida pública. Mas isso é muito otimismo.

Outras medidas de racionalização tributária e fiscal, enfaticamente defendidas pelos economistas de Marina, poderiam aumentar a eficiência geral, mas seus efeitos seriam defasados, pequenos demais a princípio.

Giannetti, ao menos, é contra qualquer aumento de imposto, mesmo temporário. Diz também que "o grau de urgência da questão fiscal aumentou" desde 2014, mas considera o congelamento de despesa por ao menos dez anos "uma medida excessiva", "completamente fora de proporção".

Na opinião de Lara Resende, o "teto" "é uma camisa de força muito complicada, certamente inexequível ao longo do tempo".

Sem o "teto", novas e boas regras fiscais não bastam para evitar o aumento de percepção de risco da dívida pública. O "teto" é uma espécie de moratória. O governo federal continua a ter déficit primário monstruoso, 2% do PIB, não nega, mas promete zerá-lo quando puder, com a garantia do "teto". Sem a garantia, o caldo engrossa. Mas há garantias que se esfarelam. O "teto" está soltando pedaços.

Vinicius Torres Freire
Na Folha desde 1991. Foi secretário de Redação, editor de 'Dinheiro', 'Opinião' e correspondente em Paris.

Ciro visto da prisão

Quem duvidava que, de dentro da prisão, Lula estivesse no processo eleitoral, cuide-se

Janio de Freitas 



Recebida como se fora uma contribuição a mais para a mesmice política, a orientação mandada por Lula ao PT e a seus demais seguidores, ao final da semana passada, introduz uma perspectiva nova e inesperada na disputa pela Presidência. A recomendação de que Ciro Gomes não seja hostilizado, e até busquem com ele um pacto de não agressão com vistas ao segundo turno, significa muito mais do que diz.

Antes de tudo, a orientação muda as predisposições do comando petista com Ciro Gomes, até aqui repelido no tom terminativo bem caracterizado pela própria presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann.

É verdade que Lula apenas ciscava, com uma ou outra bicadinha, na candidatura de Ciro. E parte dos petistas, apesar da rejeição exposta, não escondeu preferi-lo a Marina Silva, como demonstrado pelo Datafolha. Com um recado, isso tudo foi-se.

A referência de Lula ao segundo turno com Ciro contém duas situações. A do apoio de Ciro ao candidato do PT, seja quem for e contra quem for, mas também a de apoio do PT a Ciro, com iguais condições. Esta última hipótese, porém, vai mais longe: nela está implícita a admissão de que o candidato do PT não chegue ao segundo turno.

Como não dá para presumir Lula fora do turno final —se não ganhasse no primeiro— segue-se que os petistas citados como seu eventual substituto, até aqui, não geram esperanças em casa.

O futuro de Lula continua incerto. Se os seus processos puderem chegar a um corpo de juízes sem causa política ou ideológica, a questão das provas por fim ganhará a relevância que a Justiça lhe dá, em um ou em outro sentido. Por ora, Lula pode ou não pode concorrer.

Com isso, o desejado enlace com Ciro no segundo turno, e desde logo rejeitado com qualquer outro dos candidatos, tem um caráter de alternativa que se estende necessariamente ao primeiro turno. A depender só das circunstâncias e suas exigências.

Remota ou não, segundo cada interpretação, a possibilidade está inscrita na orientação de Lula que aproxima PT e Ciro Gomes. E que transtorna tanto a configuração da escala de pré-candidatos como as cabeças de vários deles, cientes de que, se Lula não concorrer, de nada lhes adianta: a aliança PT-Ciro faz serviço semelhante.

Quem duvidava que, de dentro da prisão, Lula estivesse no processo eleitoral, cuide-se.

Janio de Freitas
Colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, analisa a política e a economia.

Depressão brasileira

O fracasso em constituir uma esperança compartilhada que dê sentido à nação

Contardo Calligaris 




As afirmações genéricas sobre o estado de espírito de um povo são facilmente enganosas: ao diagnosticarmos um grupo ao qual pertencemos, psicólogos, antropólogos, jornalistas etc., tendemos a atribuir à coletividade sentimentos que são apenas os nossos.

É por isso que, em tese, não faço diagnósticos coletivos temerários. Só que hoje é um pouco diferente: desde 1985, quando comecei a clinicar no Brasil, não me lembro de ter percebido um desânimo tão difuso e generalizado quanto agora.

Uma pesquisa recente do Datafolha aponta que 72% dos brasileiros enxergam uma piora do cenário econômico, embora só 49% declarem que passaram de fato por um retrocesso. Ou seja, não é necessário sofrer da crise para "sentir" que estamos mal.

Os dois sintomas básicos para diagnosticar um transtorno depressivo maior são o humor deprimido (sentir-se triste e sem esperança) e uma diminuição do interesse em quase todas as atividades. Justamente, uma nova pesquisa (Folha de 12/6) anuncia que 53% dos brasileiros não têm interesse na Copa do Mundo, que logo vai começar.

A esses sintomas, acrescente, segundo sua preferência, sentimento de inutilidade, capacidade diminuída de pensar ou se concentrar, indecisão, pensamentos de morte recorrentes (por bala perdida, assalto ou espera para exames no SUS).

Em 2017, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil foi o quinto país mais deprimido do mundo e o campeão em ansiedade. A ansiedade é a grande companheira da depressão: tensão, inquietude, dificuldade de concentração, sensação de perigo iminente.

Quando soube desse ranking, pensei que talvez a gente devesse atribuir o destaque brasileiro a um excesso de diagnósticos e de medicação. Hoje, não estou tão certo disso.

Muitos colegas vão achar essas considerações bizarras, mas é difícil negar a existência de transtornos "sociogênicos", que refletem as preocupações mais difusas num momento e num lugar específicos --os quais não determinam as patologias dos indivíduos, mas, isso sim, fornecem um pano de fundo coletivo.

O que nos deu esse "pano de fundo"? Numa ordem qualquer: a sensação repetida de um fracasso econômico (acompanhada pela lenda de nossa riqueza "natural"); o fracasso da democracia representativa (persistência das elites tradicionais, corrupção generalizada, primazia das razões eleitoreiras sobre os interesses da comunidade); o fracasso moral vergonhoso (as provas repetidas de que ninguém está disposto a pagar o preço das próprias medidas que lhe parecem certas); o fracasso em proteger um lar seguro e um espaço público; o fracasso, enfim, em constituir uma esperança compartilhada que dê sentido à existência de uma nação.

A "psicologia positiva" norte-americana definia a esperança como a existência simultânea de um objetivo e de um plano definido para alcançá-lo.

O filósofo Richard Rorty ("Philosophy and Social Hope", Penguin, 1999) definia a esperança como uma narrativa que nos promete um futuro melhor. Ele mostrava que várias narrativas já se comprovaram falsas e devemos aprender a viver sem uma narrativa comum que nos faça esperar —ou seja, cada um deveria inventar sua esperança.

No desespero, não há planos de ação definidos e não há narrativas que prometam um futuro. Mas, no desespero, a esperança não morre: ela continua viva, numa espécie de pensamento mágico.

O deprimido não consegue fazer nada para mudar sua vida, mas não deixa de jogar na Mega-Sena.

O deprimido espera muito, sim, mas sua esperança é abstrata, como os discursos de uma campanha política ruim, que promete e nunca diz quais são os passos necessários para chegar lá.

Se Eric Hobsbawm estivesse vivo e quisesse dedicar um volume à nossa década, acho que escolheria o título "A Era da Farsa" e contaria que o mundo, "naquela época", tinha sérios problemas e precisava muito de pessoas sérias para resolvê-los (ou, ao menos, para tentar), mas, ironia do destino, ele foi liderado por farsantes.

Enfim, como uma espécie triste de consolação, poderíamos afirmar que os brasileiros estão encontrando uma nova unidade, um traço comum. Já tiveram em comum a primazia do coração sobre a razão que Sérgio Buarque chamou de cordialidade. Agora, quem sabe eles consigam se juntar e encontrar uma comunidade de destino ao redor de uma depressão compartilhada.

Contardo Calligaris
Italiano, é psicanalista. Deu aula de estudos culturais em NY. Reflete sobre cultura e modernidade.

"soma de esforços feitos para se atingir um determinado objetivo; conjunto de meios utilizados para consecução de um fim".

Campanhas de guerra e paz 

Sergio Rodrigues 


Saber de onde vêm as palavras é bom, mas situá-las na história é melhor 


Neste momento em que se cruzam no noticiário e zunem sobre nossas cabeças ao menos dois sentidos principais de "campanha", o eleitoral e o esportivo, vale a pena falar um pouco da história sinuosa de uma palavra que atazana os puristas do sentido primordial.

Embora ande fora de moda nos círculos acadêmicos, a etimologia, estudo da origem das palavras, é um saber fascinante. No entanto, para levá-la além da curiosidade de almanaque é preciso driblar a ingenuidade de buscar no código genético dos vocábulos uma essência, um sentido fetichista atemporal.

Não é tão diferente do que ocorre com as pessoas. Mais do que a família, o berço, a fonte, é o percurso cumprido pela palavra desde seu nascimento —uma história que pode lhe torcer as inclinações originais até ela ficar irreconhecível— aquilo que importa no fim das contas.

Um exemplo: "rapaz" é um termo nascido no submundo do crime com o sentido de salteador, ladrão, mas tomou jeito na vida. Soube aproveitar as oportunidades que teve e poliu sua biografia a tal ponto que hoje ninguém se lembra de vinculá-lo à família em que se destacam o rapto e a rapina.

Algo semelhante ocorreu com "mulato". A associação com a palavra "mula", animal mestiço, lhe carimbou na testa uma origem indiscutivelmente racista. Contudo, séculos de história acabaram por promover a palavra a um lugar bem mais complexo —ao qual não falta a valorização de uma miscigenação cultural que seria, para muitos, a maior qualidade de um país... bem, de um país mulato.

O processo está sujeito a idas e vindas, claro. Pondo a história entre parênteses, o fundamentalismo etimológico pode a qualquer momento cobrar das palavras seu pecado original. É o que uma parte eloquente do movimento negro vem tentando fazer com "mulato", em campanha até certo ponto bem-sucedida —ainda que recente demais para permitir um prognóstico sobre seu resultado final.

Eis que —opa!— a campanha contra "mulato" nos faz retomar o fio da meada. O que terá em comum essa campanha com a de um político pela Presidência da República, a de uma seleção pelo hexacampeonato mundial de futebol, a de uma coletividade por mais doações de sangue ou menos acidentes de trânsito, a de um anunciante de TV pelo aumento das vendas de sua cerveja?

Todas essas campanhas se encaixam de alguma forma nas acepções da palavra que o dicionário "Houaiss" formula assim: "soma de esforços feitos para se atingir um determinado objetivo; conjunto de meios utilizados para consecução de um fim". E todas nasceram no campo de batalha.

No século 17, o francês viu surgir para campanha (no caso, "campagne") o sentido de "série de operações militares desencadeadas em um vasto teatro de guerra". Mais tarde, a expansão metafórica da ideia de luta continuada, com suas estratégias e sacrifícios, levou a campanha a nomear outras jornadas, em que a conquista de um objetivo difícil se dá sem o uso de armas de fogo e (quase sempre) sem derramamento de sangue.

O mais curioso, porém, é que os sentidos beligerantes hoje tão disseminados passavam muito longe do espírito da palavra latina "campania", onde essa história começou.

"Campania" era o mais bucólico dos vocábulos: significava campo aberto, planície, prado, campina (até hoje a palavra "campanha" conserva essa acepção em português). As tropas e seus canhões viriam bem mais tarde.

E por que vieram? Porque as grandes batalhas eram travadas nos campos, só por isso. Ao nos privar da história, o fundamentalismo etimológico muitas vezes nos priva também da compreensão.

Sérgio Rodrigues
Escritor e jornalista, é autor de ‘O Drible’ e ‘Viva a Língua Brasileira’, entre outros.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O fato é que o tal rosário foi abençoado por Francisco e entregue a Lula por um emissário oficial do Vaticano.

VIA CRUCIS
Assim que começou essa modinha de agência de checagem de fake news, capitaneada justamente pela velha mídia brasileira - maior produtora de notícias falsas do planeta -, eu avisei aqui: esse movimento não tem interesse público algum nem nenhum compromisso com a verdade.

Foi pensado para criminalizar a mídia alternativa e intimidá-la, de modo a acabar com o único contraponto que a sociedade tem às máfias noticiosas, Grupo Globo à frente.
Essa polêmica em torno do rosário enviado pelo papa Francisco ao presidente Lula, preso político em Curitiba, é extramamente reveladora disso.

Essa tal de Lupa, em meio a uma miríade de desmentidos sobre o tema, ignorou completamente que o UOL foi o primeiro a dar a notícia no Brasil e, a partir de uma checagem porca feita com um certo Vatican News, apontou o dedo para o Brasil 247 e a revista Fórum. Um expediente de calúnia que visa desmoralizar esses veículos e provocar sanções junto ao Facebook.

Na origem dessa pilantragem está o pavor dessa cristandade paneleira de bunda suja diante da possibilidade de o papa intervir a favor de Lula, o que colocaria a Igreja na luta direta contra essa farsa jurídica comandada pelo juiz Mazzaropi, no maior país católico do mundo.

O fato é que o tal rosário foi abençoado por Francisco e entregue a Lula por um emissário oficial do Vaticano.
E isso não tem nada a ver com religião.

tribunais de faz de conta.

Tribunal de Contas de Pernambuco emprega parentes de desembargadores

Cunhada de governador do PSB também exerce cargo comissionado


FSP

Sessão do Tribunal de Contas de Pernambuco

Custa caro e costuma trazer mais ônus políticos do que benefícios.

Kim 7x1 Trump

Helio Schwartsman




Para um país normal, isto é, inserido na comunidade internacional e sem contenciosos existenciais com seus vizinhos, manter um arsenal nuclear é mau negócio. Custa caro e costuma trazer mais ônus políticos do que benefícios.

Não é coincidência que nações tecnologicamente desenvolvidas, como o Japão e a Alemanha, não tenham, no pós-guerra, buscado obter esse tipo de armamento. Há até casos de países que já tiveram bombas, mas optaram por abrir mão delas, como o fizeram a África do Sul e algumas repúblicas da antiga URSS.

O problema é que nem todos os países são normais. Há situações em que o domínio da tecnologia nuclear bélica se mostra vantajoso. É o caso da Coreia do Norte. Não fosse por suas bombas, ela seria apenas mais um Estado falido. Nada a distinguiria de outras ditaduras do planeta, boas em violar os direitos humanos de seus cidadãos, mas incapazes até de alimentá-los.

É só porque conseguiu desenvolver um programa nuclear completo que Kim Jong-un acaba de encontrar-se numa reunião de cúpula com o presidente dos EUA, o que de algum modo legitima seu regime tirânico. Pior, ele arrancou de Donald Trump, que parece estar mais preocupado em posar de estadista do que em abordar problemas de forma consistente, um acordo vago, muito parecido com outros acertos que Pyongyang já descumpriu no passado. Kim ganha assim tempo e alguma segurança de que seu país não sofrerá ataques nem nova rodada de sanções.

Não afirmo que o problema da nuclearização da Coreia do Norte seja fácil de resolver, se é que tem uma solução. O ponto é que a forma voluntarista com que Trump lidou com a situação transmite a ditadores a mensagem de que desenvolver bombas atômicas é um bom negócio. É um jeito rápido de erguer nações fracassadas à condição de pares dos EUA —e sem necessidade de respeitar direitos humanos, promover abertura etc.

justiça 'parapoucos'

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a coisa não anda... o cara continua sendo decorativo.

Planalto esquece de registrar saída de Dilma
Galeria com retratos dos presidentes ignora Michel Temer e não informa que petista foi afastada do cargo há 2 anos

Angela Boldrini
Gustavo Uribe



Há mais de dois anos afastada do cargo, Dilma Rousseff ainda é presidente em exercício do país --pelo menos em espaços cerimoniais do Palácio do Planalto da gestão Michel Temer.

Apesar de a petista ter sofrido impeachment em 2016, sua saída não foi registrada na galeria oficial de retratos dos presidentes, localizada na entrada do palácio, de onde despacha o emedebista que herdou seu cargo.

No memorial, que apresenta todos os mandatários do país desde a Proclamação da República, consta apenas a data de entrada de Dilma, em janeiro de 2011.

A imagem da petista, em preto e branco, também é a última na sequência de retratos expostos na galeria presidencial, deixando um espaço para a fotografia de Temer, que ainda não foi pendurada.
Procurado pela Folha, o Palácio do Planalto informou que o espaço dedicado à história da Presidência da República está "em processo de reformulação", com a inclusão de "atualizações".

A expectativa é de que seja registrada a data de saída da petista até o final de julho. O retrato de Temer, contudo, ainda não será colocado.

Os últimos governos optaram por só pendurar a imagem do mandatário em exercício quando ele deixa o cargo.

Em 2011, logo após a posse da então presidente, um retrato colorido de Dilma chegou a ser incluído na galeria presidencial, mas a petista pediu, à época, que ele fosse retirado.

Cinco anos depois, Temer cogitou colocar a própria imagem no memorial, segundo informaram assessores presidenciais, mas, assim como Dilma, acabou desistindo.

Não é a primeira vez que o Palácio do Planalto deixa desatualizada a galeria de presidentes. Até janeiro do ano passado, não havia sido registrada a morte de Itamar Franco (1992-1994), ocorrida em julho de 2011.

A atualização só foi feita após a Folha noticiar que tanto Dilma como Temer esqueceram de fazer o registro, apesar de ambos terem comparecido ao velório do ex-presidente.

Na época, o emedebista chegou a divulgar nota pública lamentando a morte: "Por sua obra inatacável, Itamar Franco merece o respeito e o agradecimento de todos brasileiros", disse.

Na mudança da galeria dos presidentes, será incluído ainda o retrato de Pedro Aleixo, que foi vice-presidente de Costa e Silva (1967-1969). Ele deveria ter assumido o cargo quando o então presidente sofreu um derrame e foi afastado.

Na ocasião, a cúpula militar, no entanto, impediu que ele tomasse posse por ser um civil e formou uma junta de militares para governar o país.

Em 2011, um projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional garantiu a Aleixo o título de presidente e determinou a sua inclusão no memorial do Palácio do Planalto, o que não foi feito até hoje.

Como ele não posou para um retrato oficial, como os demais presidentes, a equipe presidencial tem buscado uma fotografia dele que possa ser utilizada.

Que venha a Copa de 2018

A COPA ALÉM DA COPA

Luiz Antonio Simas




Já vi coisas no Brasil da rebimboca da parafuseta. O fato de ser nascido e criado num terreiro de macumba cruzada com tudo que o sujeito possa imaginar, me fez, desde pequeno, achar que as coisas mais extraordinárias são perfeitamente normais. Cresci na encruzilhada das maravilhas. Vi um curupira incorporado numa dona (acho que foi na Dos Anjos, minha mãe, Dona Niedja, pode confirmar nos comentários) ; vi turista japonês virado no Seu Sete Cachoeiras; vi seu Zezé Macumba imitar bode para amarrar time adversário na várzea; cruzei com presunto desovado pelo esquadrão que, segundo contam, ressuscitou e pediu cachaça.

Vi o malandro Toninho Itabaiana incorporar o Barão Langsdorff; tive uma tia carola (única católica praticante da família) que deixou expresso em testamento que queria ser enterrada com um bonequinho de seu Tranca Rua; vi um padre parapsicólogo alemão exorcizar um filé de peixe que fedia pra cacete, depois de tomar uns birinaites numa birosca, e ser aplaudido.

Não me surpreenderam, portanto, as maluquices extraordinárias que ocorreram na Copa do Mundo de 2014, aqui no Brasil, e foram (justamente, diga-se) esquecidas pela tragédia do 7 X 1 e o buraco em que nos metemos com as maracutaias da FIFA e do poder público: índios pataxós cantaram parabéns para o alemão Klose; três pés de cana fizeram Manoel Neuer e Bastien Schweinsteiger gritarem, dando saltinhos, Bahêa! durante o hino do tricolor baiano; brasileiros foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano; um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.

Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o "bota aqui o seu pezinho"; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, tentou se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; o holandês Arjeen Robin quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer o craque Drogba.

Defini à época estes momentos como os de "saramandaização, chacriniana e sucupiresca" do padrão FIFA. No meio da venalidade da entidade sequestradora do futebol que rege o torneio e seus comparsas, as Copas do Mundo têm o poder de mostrar, paradoxalmente, que o futebol ainda respira na paixão que desperta nas pessoas.
É essa dimensão humana, ponto de viração do mundo, que sempre me interessou.

Relevem. Cresci na fronteira do extraordinário, conversando com pretos velhos de duzentos anos, malandros do início do século XX, prostitutas sevilhanas assassinadas que viraram pombagiras no Brasil; bugres combatentes da Guerra do Paraguai, mestres juremeiros e personagens do gênero.

Minha avó entregou-me, recém-nascido, no meio de uma noite grande aos cuidados da dindinha lua, para que ela cuidasse dos meus passos. E enterrou meu umbigo no Jardim Nova Era, naquela noite de Nova Iguaçu. É a dindinha (ela nunca me faltou) que ilumina com a luz que não tem as coisas que clareiam o mundo deste que vos escreve.

Que venha a Copa de 2018 e que possamos enxergar, além do espetáculo feérico, escroto e desumanizado, nas frestas do megaevento, a paixão pela vida que o futebol desperta nas crianças, mulheres e homens do mundo inteiro. Com a cerveja trincada e a carne no fogo, torcendo contra ou a favor, já que ninguém é de ferro.

Saravá!

o que é que esse Lula tem?

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"l'Etat c'est moi"

Em decisão sigilosa, juiz afirma que órgãos de controle como TCU e CGU "não podem usar provas contra colaboradores sem autorização