Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Por ora, ao menos, a economia ignora o sururu no governismo.

Tiros no Rio e barraco em Brasília 



Temer, Meirelles e Maia se bicam por causa de planos eleitorais e eleitoreiros


A CAMPANHA eleitoral, vaidades de candidatos e a repulsa popular a Michel Temer (MDB) enrolam o programa econômico do governo. Os governistas se dão rasteiras na disputa de uns 3% de votos nas pesquisas, vide o sururu causado pela intervenção no Rio e pelo lançamento do "plano B" na economia.

O ônibus da recuperação econômica, porém, começa a andar mais rápido, embora ainda não pegue o povo, que espera no ponto.

Indicadores da virada de 2017 para 2018 dão bons sinais, tal como a medida do Banco Central de atividade econômica de dezembro, que veio bem mais forte do que o esperado. Além do mais, os números da previsão que o Ipea divulgou nesta terça (20) indicam que a recessão do investimento em construção civil na prática acabou no fim do ano passado. Vendas e lançamentos de imóveis em São Paulo se recuperaram também no último trimestre do ano, mostram dados do Secovi, sindicato da habitação de São Paulo.

No governo, há bufos e ranger de dentes desde que Temer lançou a campanha eleitoral para si ou para um escolhido, a intervenção no Rio.

O "plano B" de Temer para a economia começou com um vexame político e risco de fiasco. Como a reforma da Previdência foi para o vinagre, o governo fez uma cena com ministros na segunda-feira (19). Queria mostrar que o programa de reformas não vai parar, além de dar uma oportunidade de mídia para Henrique Meirelles (PSD) e equipe econômica mostrarem que não tinham sido chutados para escanteio.

Deu rolo. Esqueceram-se outra vez de combinar com Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara e adversário de Temer e Meirelles na disputa pelos 3% dos votos nas pesquisas.

Na semana passada, Temer roubara o brinquedo da campanha eleitoral de Maia, a tal "agenda positiva da segurança". Como de costume nessas rasteiras do Planalto, Maia chiou, disse que foi passado para trás, que não fora consultado sobre a intervenção no Rio, mas apoiou com ressalvas o fato consumado. No começo desta semana, levou outra canelada.

Maia disse que não leu nem vai ler o "plano B", os projetos para a economia que o governo pretende aprovar no Congresso, em geral coisa séria e útil. Francamente, qualquer governo tem pauta parlamentar. Para Maia, trata-se de desrespeito ao Legislativo, na verdade a ele mesmo.

Pode ser que assoprem os dodóis políticos do arreliado Maia outra vez, mas o "plano B" de Temer para a economia tem mais problemas.

Os deputados, indóceis com a eleição, não querem saber de mexer em impostos (caso do PIS/Cofins e da reoneração da folha de empresas). Pelo menos é o que dizem lideranças do centrão, o eleitor mediano do Congresso, digamos ironicamente. O governo tem maioria apertada para tocar a privatização da Eletrobras, mas bancadas governistas regionais vão fazer chacrinha, e o amuado Maia, que apoiava o plano, precisa ser consolado.

O irritado Maia disse ainda que não vai tratar de mexidas na Previdência tais como tempo de contribuição e regras de cálculo de benefício, que não dependem de mudanças constitucionais. Disse que o governo está "criando espuma com a sociedade".

Por ora, ao menos, a economia ignora o sururu no governismo.

Vinicius Torres Freire
Está na Folha desde 1991. Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de quarta a sexta e aos domingos.

JÁ OS CRIMES DO PSDB TÊM CONTAS MILIONÁRIAS CONFIRMADAS NA SUIÇA E VÃO SEMPRE PARAR NA MÃO DO GILMAR

Paulo Preto, suspeito de ser operador do PSDB, tinha R$ 113 mi na Suíça
Ex-presidente do Dersa é investigado e tem ligação com o senador José Serra


Reynaldo Turollo Jr.
Rubens Valente



Documentos enviados ao Ministério Público Federal em São Paulo por autoridades da Suíça revelam que o ex-presidente da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, tinha R$ 113 milhões em contas naquele país.

Paulo Preto é investigado em inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) sob suspeita de ser operador do senador José Serra (PSDB-SP) em desvios de recursos do Rodoanel, obra viária que circunda a capital paulista. Ele comandou a Dersa, responsável pela obra, em governos tucanos, e também é investigado em São Paulo.

Segundo essa decisão, que era sigilosa, o Ministério Público da Suíça compartilhou espontaneamente com procuradores de São Paulo informações sobre a existência de quatro contas no banco suíço Bordier & Cie em nome da offshore panamenha Groupe Nantes S/A, "cujo beneficiário é o investigado Paulo Vieira de Souza".

Segundo essas informações, "em junho de 2016 as quatro contas bancárias atingiam o saldo conjunto de cerca de 35 milhões de francos suíços, equivalente a R$ 113 milhões, convertidos na cotação atual".

Em fevereiro do ano passado, tais valores, segundo as informações vindas da Suíça, foram transferidos para um banco em Nassau, nas Bahamas.

A juíza disse ver fortes indícios da prática de crimes, "bem como o enriquecimento injustificado do investigado", e decidiu na ocasião autorizar uma cooperação internacional com a Suíça, além da quebra do sigilo bancário de Paulo Preto, a fim de obter todas as informações sobre as movimentações bancárias.

O processo na Justiça Federal em São Paulo trata de supostos desvios no pagamento de indenizações para pessoas que tiveram imóveis desapropriados para a construção do Rodoanel.

A defesa de Paulo Preto anexou a decisão aos autos no STF porque quer que a investigação em São Paulo seja transferida para o Supremo, sob o argumento de que os fatos apurados têm ligação – referem-se a desvios nas obras do trecho sul do anel viário.

Com isso, os advogados também pedem que a cooperação internacional autorizada pela juíza de São Paulo seja suspensa.

O inquérito no Supremo foi aberto em 2017 a partir da delação da Odebrecht, que disse ter pago propina no Rodoanel supostamente em benefício de Serra.

O relator do caso no STF, ministro Gilmar Mendes, deverá decidir sobre os pedidos da defesa.

Procurado pela Folha no final da noite desta quarta-feira, o advogado de Paulo Preto, José Roberto Santoro, não foi localizado.

Linaldo, o incansável. bravo!

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mifô

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“O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”.

UnB dará aulas sobre ‘golpe de 2016’


EDUARDO BARRETTO 



A UnB (Universidade de Brasília) terá aulas sobre o “golpe de 2016”. Essa é a descrição da disciplina (eis a íntegra) que também acusa o governo Temer de fazer “ataque às liberdades e à democracia” e de ter uma “agenda de retrocesso”.

De acordo com o plano de aula, haverá uma discussão sobre as “chances” de “restabelecimento do Estado de direito” depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (em 2016). O semestre começará em duas semanas.

O Instituto de Ciência Política da UnB está oferecendo 50 vagas para o curso. A matéria será ministrada por Luis Felipe Miguel, professor titular da cadeira. Alunos de outros cursos poderão se inscrever para “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. É comum na UnB que estudantes tomem aulas de outros cursos.

Um dos objetivos da disciplina, segundo a ementa (descrição sucinta do que será abortado), é “analisar o governo presidido por Michel Temer e investigar o que sua agenda de retrocesso nos direitos e restrição às liberdades diz sobre a relação entre as desigualdades sociais e o sistema político no Brasil”.

Quando se lê a descrição do curso, fica claro que a disciplina oferecida pela UnB dá como certo que a gestão de Michel Temer deu 1 “golpe de Estado” para depor a Dilma Rousseff. O plano de aulas também sustentará que Temer fez “ataque às liberdades e à democracia”.

A QUEDA DE DILMA ROUSSEFF

Dilma Rousseff (PT) foi eleita presidente do Brasil em 2010 e reeleita em 2014. Foi afastada do cargo por meio de 1 processo de impeachment, cuja admissibilidade foi votada pela Câmara em 17 de abril de 2016. O Senado afastou a então presidente do cargo em 12 de maio de 2016. O impeachment foi confirmado em definitivo pelos senadores em 31 de agosto de 2016.

Michel Temer (MDB) havia sido o vice-presidente da República eleito na chapa com Dilma nas duas eleições (2010 e 2014). Assumiu como presidente interino no mesmo dia em que a petista teve seu afastamento decretado pelo Senado, em 12 de maio de 2016. Com a punição a Dilma sendo confirmada pelos senadores, Temer foi efetivado no cargo e deve exercer a função de presidente até 31 de dezembro de 2018.

A acusação principal contra Dilma Rousseff foi a de ter desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal. Segundo o julgamento comandado pelo Senado, a petista editou decretos de créditos suplementares para fechar as contas do governo federal sem a autorização do Congresso –seriam as chamadas “pedaladas fiscais”.

A peça acusatória também afirmava que Dilma agiu de maneira imprópria ao não ter atuado para punir irregularidades cometidas pela Petrobras. A petista, segundo a acusação, agiu de maneira omissa em relação à compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, que foi danosa à Petrobras.

Os autores do pedido de impeachment (os advogados Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaina Paschoal) usavam em sua argumentação as descobertas da operação Lava Jato, que investigou vários episódios de corrupção envolvendo a Petrobras.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"não nasci nordestino por obra do acaso. escolheram-me porque saberiam previamente do gosto do meu gostar. e acertaram em cheio."

Os nordestinos e o preconceito nosso de cada dia

Ex-presidente da OAB conta como foi discriminado por ser nordestino, um preconceito tão arraigado em nosso país que poucos percebem em si mesmos

A solidão, tal como a tristeza e o fracasso, faz parte da condição humana, provavelmente desde o momento em que os membros da espécie tiveram consciência de si próprios.

Problema da vida moderna não é excesso de solidão, mas escassez 

João Pereira Coutinho



E que tal um ministro para a solidão? Não é ideia minha. Já existe. No Reino Unido, a premiê Theresa May considerou a solidão "a mais triste realidade da vida moderna". Para combater esse mal, indicou a ministra Tracey Crouch para "desenvolver" uma "estratégia" adequada.

Confesso que a ideia me parece absurda. Tão absurda como haver um ministro para a tristeza ou uma ministra para o fracasso. Razão óbvia: Theresa May está errada quando acredita que a solidão é uma "realidade" moderna. Não é.

A solidão, tal como a tristeza e o fracasso, faz parte da condição humana, provavelmente desde o momento em que os membros da espécie tiveram consciência de si próprios.

A solidão não tem "cura" porque, em rigor, não é uma doença. Exceto para a tradição racionalista —antiga e moderna— em que Theresa May, ironicamente tida por "conservadora", se inspira.

Sobre o racionalismo antigo, não é preciso um conhecimento íntimo de Aristóteles para lembrar o seu argumento político primeiro: o homem é um animal social. O que significa que o reverso desse desígnio só é admissível se estivermos na presença de deuses ou bestas.

Por outras palavras: viver é viver em sociedade, participando nos assuntos da cidade. Eis a célebre "liberdade dos antigos", na definição posterior de Benjamin Constant (1767-1830): para os antigos, os homens só são livres pela submissão dos interesses individuais às necessidades da comunidade.

Claro que o cristianismo introduziu nesse conceito de liberdade uma mudança relevante, ao proteger a inviolável (e solitária) "liberdade interior" dos homens —e, no limite, o direito dos mesmos em repudiarem a cidade terrestre.

Mas o racionalismo floresceu e triunfou a partir de inícios do século 16: se todos os problemas humanos têm solução, o desafio passa por encontrar a "técnica" adequada para responder a tais problemas. "Ministério da Solidão" poderia perfeitamente ser o título de um livro de Francis Bacon (1561-1626).

Mas Theresa May também está errada por outro motivo: e se o grande problema da "vida moderna" não for o excesso de solidão, mas a sua escassez?

Essa é a tese de Michael Harris em "Solitude: In Pursuit of a Singular Life in a Crowded World". O livro é mediano, confesso, mas existem duas ou três observações que merecem leitura e concórdia.

A primeira delas é que a "vida moderna" é uma gigantesca conspiração para abolir a solidão. Basta escutar os desejos utópicos de um qualquer Zuckerberg ensandecido: para os novos profetas do Vale do Silício, o ideal a atingir é um mundo de conversas contínuas, em que a privacidade não passa de uma relíquia —e todos podem espionar todos.

Alguns números: em 2006, 18% da população mundial estava ligada à internet; em 2009, 25%; em 2014, 41%. E, para ficarmos nas "redes sociais", 8% dos americanos frequentavam esses espaços virtuais em 2005. Em 2013, o número andava nos 73%. Em breve, a "conectividade permanente" não será apenas total; será totalitária.

Infelizmente, essas quimeras de "conectividade permanente" nunca questionam qual o preço que pagamos pela perda de solidão. Para Michael Harris, o prejuízo é triplo.

Sem uma boa dose de solidão, perdemos o tempo de quietude no qual as melhores e mais inesperadas ideias acontecem.

Sem uma boa dose de solidão, somos incapazes de entender o que somos e não somos —no fundo, o ponto de partida para haver um ponto de chegada que seja significativo e real.

Sem uma boa dose de solidão, nem sequer ganhamos o que de mais importante podemos oferecer aos outros: uma disponibilidade genuína e limpa de ruído.

No Reino Unido, Theresa May quer combater a solidão. Se o objetivo do governo for ajudar os abandonados, os doentes e os desprovidos, nada a opor. Para os restantes, talvez fosse mais útil ensinar que a solidão não é uma anormalidade; é parte do que somos. Mas não apenas do que somos; também do que precisamos.

De igual forma, mais importante do que abolir a solidão é aprender a viver com ela; a habitá-la com os instrumentos de uma cultura —a fruição da beleza, da memória, do pensamento; a tratá-la pela segunda pessoa do singular. Quem sabe?

Pode ser que, um dia, o medo da solidão se transforme em gratidão sincera por termos encontrado a nossa companhia.

João Pereira Coutinho
Escritor português, é doutor em ciência política. Escreve às terças e às sextas.

crianças do mundo todo, uni-vos!!!

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Fonte: Luciana Oliveira

JB

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

quem tem um 'jungmann' na defesa...

É grave suspeita de censura à Paraíso do Tuiuti

Começou mal intervenção federal no Rio
KENNEDY ALENCAR 

Se o governo queria diminuir a repercussão da sátira ao presidente da República, errou feio ao supostamente pressionar a Paraíso do Tuiuti a retirar a faixa presidencial do “Vampirão Neoliberalista” no desfile das campeãs do Carnaval carioca
É um episódio grave. Trata-se de censura, se estiver correta a versão de que um ministro teve a ideia de jerico de pressionar a escola. Se for um episódio de autocensura, porque a Presidência nega pressão sobre a Paraíso do Tuiuti, também é grave.
As escolas de samba não devem temer apenas o governador ou o prefeito do Rio. De agora em diante, deverão pisar em ovos para não melindrar o governo federal e as Forças Armadas.
O “Vampirão Neoliberalista” é uma sátira política legítima. Expressou opinião de parcela da sociedade. A escola tem o direito de criticar o presidente da República, de condenar a reforma trabalhista e de achar que manifestoches tiveram papel fundamental num golpe parlamentar contra a então presidente Dilma. Uma outra parcela da sociedade tem o direito de discordar
Quando ocorre uma censura ao livre de debate de ideias, vemos cenas parecidas com aquelas da ditadura militar de 1964. É uma ironia que um governo do PMDB, tanto no nível federal quanto no estadual, esteja no centro de um episódio de censura. Esse caso mostra que começou a mal a intervenção federal no Rio.

Por que um clássico não se renova?

POR QUE O FREVO NÃO SE RENOVA?

Urariano Mota



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“Por que o frevo não se renova?”, me perguntou na semana passada o amigo Joaquim Ancilon no Pátio de São Pedro, enquanto ouvíamos frevos de bloco. Joaquim é um professor, um homem honesto, mas nem por isso despreza perguntas de provocação. E em que momento oportuno ele fez a pergunta! No mesmo instante, lá no palco a senhora Lilia, ex-presa política, cantava:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia….”

Não sei se foi o calor do uísque ou da raiva diante da pergunta, não sei se foi a lembrança da fase de ouro do frevo, com Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, Edgard Moraes, João Santiago, não sei se foi a recordação do que um dia escrevemos sobre o gênio de Nelson Ferreira, quando dissemos que esses compositores de frevo de Pernambuco tinham o dom de falar do sentimento da gente com uma voz que atravessava a parede de uma sala vizinha. Esses compositores se referiam ao que sentimos com tamanha intimidade que são essa maravilha ainda não descoberta: um parente amigo da infância com quem não brigamos, que tem crescido em nosso afeto, nutrido no tempo incessante… não sei. Mas deve ter sido uma mistura de tudo isso, porque à pergunta

– Por que o frevo não se renova?

Respondemos com outra:

– Por que Dante não se renova?

Por que um clássico não se renova? Por que não temos mais A Divina Comédia? Por quê? As obras seminais, que fundam o nosso ser, não se renovam, não se encontram no mercado, não estão à venda. Estão para sempre, para a nossa reconstrução. A sua modernidade é a sua infindável permanência. A sua renovação é o seu dom de ser insubstituível. Mas ainda assim, ficamos pensando. Havia um travo de coisa ruim, de coisa que não está resolvida, na garganta, no peito. Está certo, viemos pensando, está certo, Nelson Ferreira hoje é impossível, ninguém mais, nunca mais será Nelson Ferreira, o grau de excelência que ele alcançou não se faz mais. Certo. Mas por que o frevo tem que ser somente à maneira e feição de Capiba, Nelson e Levino? Ora, se Dante não se renova, a poesia continua e continuará em outras faces que não a de Dante. Sim, e por que não? É impossível hoje algo como a Evocação número 1, é certo. É absolutamente improvável, absurdo, que se faça de novo Último Dia,.de Levino Ferreira. Mas o frevo acabou?

– Não. Todos os dias temos prova que não, em nossos dias, em nosso ser, nos novos intérpretes que vêm, alguns até bem jovens. Então… O frevo se renovou? Mas o que é mesmo renovar? – Certamente, não é repetir. Certo. Será algo então jamais visto, tão novo quanto seria um extraterrestre para o nosso convívio? E se assim for, como dizer que essa coisa jamais vista ainda é do mesmo gênero, do frevo? Ora. Então esse renovar deve com mais certeza aliar, resolver a tradição no presente. Há caminhos ainda não percorridos, a partir mesmo da tradição. Como pode ser visto com a orquestra Spok.

O maestro Spok vai na jornada das estrelas. Aquelas antecipações de Felinho ao executar Vassourinhas antes de 1950 passaram a ser retomadas pela orquestra de Spok, ao improvisar livre sobre a base da história do gênero, com liberdade, que sem ela nada se cria nem se transforma. Dele disse o maestro e compositor Clóvis Pereira: “A SpokFrevo, afinadíssima e conduzida por Spok, é uma orquestra formada por jovens de irrecusável talento musical e nos mostram que o frevo está mais vivo do que nunca, evoluindo cada vez mais”.

Que dizer, então, de J. Michiles, autor de muitos sucessos com Alceu Valença? Me segura senão eu caio, Diabo Louro, Roda e Avisa. Que dizer do Maestro Forró, da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério? Que dizer da civilização de Antonio Nóbrega, que dança, toca, canta e distribui o gênio do frevo em todo o mundo? Que dizer de Silvério Pessoa, que este ano arrebentou na Praça do Marco Zero? O mundo continua, a vida segue, apesar da saudade que deixa na gente Nelson Ferreira em todos os carnavais.

Foto: Samuca/Arte sobre foto da internet

*Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do autor.

De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso.

Nenhuma favela é tão criminosa quanto o Congresso 

Gregorio Duvivier 




Viva a intervenção militar! Chegamos a tal ponto que só o Exército vai pôr fim à roubalheira. Só não entendi por que ela começou no morro do Rio de Janeiro.

Em Brasília, um terço dos congressistas está às voltas com a Justiça. De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso. Não somente em quantidade, mas em qualidade: duvido que a quantia total de furtos no Rio seja maior que a verba encontrada no apartamento de Geddel.

"Sim, mas o problema do Rio é o tráfico de drogas." Se o problema fosse exclusivamente esse, também deveriam começar por Brasília. Nenhuma favela do Rio jamais esconderá tanta cocaína quanto o helicóptero daquele senador do PSDB.

Há quem diga que a intervenção no Rio se dá por causa de um clamor popular. Pesquisa feita em 24h pelo governo federal afirma que 83% da população carioca é favorável à intervenção, noticiou o "Globo". Ora, se Temer se importasse, de fato, com o clamor popular, se retiraria imediatamente do cargo. Espanta que o presidente menos popular da história ainda esteja interessado em saber o que o povo pensa. Se a população for consultada, fica muito claro que a metástase a que ele se refere tem nome e sobrenome: o seu.

Depois, resta saber se algum favelado foi ouvido nessa pesquisa. Acho que não se encaixam na categoria "cidadãos" nem "cariocas". Vale lembrar que até o IBGE, um instituto muito mais sério que o governo Temer, ainda sustenta que a Rocinha tem 69 mil habitantes, enquanto a Light registra 120 mil e a Associação de Moradores estima em 200 mil. Se nem o censo subiu a favela, pode ter certeza de que Temer fez essa pesquisa que nem as plásticas da sua cara: a toque de caixa, pagando pra algum amigo.

A estratégia é batida. Assim como nas guerras americanas "ao terror", o governo inventa um adversário para unir a população. No caso dos americanos, escolhe-se um inimigo externo, de preferência bem longe, pro sangue não respingar. O Brasil não faz cerimônia: escolhe os iraquianos aqui mesmo, pela renda e cor de pele. Temos a sorte de ter uma parcela sub-humana da nossa própria população, de quem a morte não comove muito. Em tempos de crise, isso ainda gera economia em passagens aéreas.

Enquanto isso, o inimigo em comum continua sentado na cadeira presidencial. Já que Temer tá interessado em ganhar popularidade, fica a dica: seu desaparecimento é mais popular do que qualquer intervenção.

Gregorio Duvivier
É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

s/c

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"Chapa-branca e grana preta... Com a honrada exceção de sempre."

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

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Ponte pro Futuro. Direto pro círculo do inferno de Dante...

as pernas abertas da republica federativa.

Nesta terça-feira, 6, o FBI, a policia federal dos Estados Unidos, estrelou evento em São Paulo. Sobre corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes, compliance... E a Lava Jato.

Bob Fernandes



Presente Antônio Carlos Vasconcellos Nóbrega, o Corregedor-Geral da CGU.

Presentes Chrstopher Delzotto, Supervisor Especial do FBI, e Leslie Bachchies, do FBI para América Latina.

Também George McEachern, ex-chefe do FBI para combate internacional à corrupção.

E Robert Appleton, Chefe de Execuções Governamentais e crimes do colarinho branco do CKR Law. Ex-promotor do Departamento de Estado dos EUA.

Evento esse do escritório norte-americano CKR e da Câmara Internacional do Comércio.

Lá estiveram empresários, investidores, advogados brasileiros. E foi proibida a entrada da imprensa.

Só imaginem: nossa Policia Federal estrelando evento como esse, debatendo e pontificando sobre casos de corrupção em território norte-americano. E vetada a presença das Mídias.

No governo Fernando Henrique, Carlos Costa chefiou o primeiro escritório oficial do FBI no Brasil. Entrevistei-o, para 17 páginas. Chamou a tudo isso "influenciar". Cooptar.

Dezenove agências de espionagem dos EUA atuando no Brasil, sediadas na Embaixada, em Brasília

Jack Ferraro chefiava a CIA. Antes dele, Craig Peter Osth, Bock, Jimmy, e Bramson Brian.

DAT, a Divisão Anti-Terrorismo da Polícia Federal, já se chamou CDO e SOIP.

Essa instalação de espionagem eletrônica foi criada no governo Sarney. Com doação da CIA. Cada tijolo. E os primeiros 20 automóveis, que vieram da base da CIA/ Paraguai.

Nos anos FHC, a CIA chegou a ter 15 bases regionais no Brasil. No SOIP/ CDO, a CIA atuava com a PF em "regime de informação compartilhada".

Não havia dinheiro antes de Marcio Thomas Bastos, ministro da Justiça, e Paulo Lacerda chefiando a PF. Ambos no primeiro governo Lula.

Mostramos, ainda sob FHC, depósitos feitos pela DEA, agência norte americana de combate às drogas, na conta de delegados brasileiros. Para financiar operações.

No hoje DAT, agente brasileiro só trabalhava se aceitasse se submeter ao detector de mentiras. Testes feitos nos EUA. Com indagações sobre ser ou não corrupto e homossexual.

Então revelamos os nomes de vários agentes que se submeteram a tais testes.

Pós 11 de setembro o Chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa, recebeu e recusou uma ordem: grampear, espionar mesquitas e líderes muçulmanos no Brasil.

Brasil, que teve grampeados Palácio da Alvorada e Itamaraty. Biotecnologia, química fina, aço, biopirataria, telecomunicações, energia, entre os alvos.

Com Obama, o escândalo via WikiLeaks e soubemos: a NSA invadiu sistemas e tentou hackear a Petrobras. E grampeou telefones de Dilma, do Palácio do Planalto e autoridades.

Em 1999, chefiando provisoriamente a embaixada, que estava sem embaixador, quando confrontado o Encarregado de Negócios, James Derham, foi claríssimo:

-Temos o dinheiro, pagamos, então as regras são as nossas.

Segue o baile. Bom Carnaval.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

perdeu, especulador.

Os solavancos já haviam começado na sexta-feira e, agora, se impõe o temor de que o Federal Reserve, o banco central norte-americano, suba suas taxas de juros de maneira mais acelerada do que o inicialmente esperado
Bolsa de São Paulo acompanha queda, com Ibovespa retrocedendo 2,59% e com alta do dólar. O que move o abalo de nervos é a expectativa de que o BC dos…
BRASIL.ELPAIS.COM

perdeu, playboy.


R$ 196 mil de pensão alimentícia.
Reportagem de César Galvão e Filipe Gonçalves da TV Globo. A Policia Civil de São Paulo prendeu o ator Dado Dolabella na noite desta segunda-feira (5) após a…
DIARIODOCENTRODOMUNDO.COM.BR

Quando estamos sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.

A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse

Jorge Coli


Não faz muito tempo, fui assistir a uma ópera. Era "As Bodas de Fígaro", de Mozart. Lá para o final, o personagem mais importante, Fígaro, faz um retrato cruel das mulheres. Diz: "Abram um pouco os olhos, homens incautos e bobos. Olhem essas mulheres, olhem o que elas são".

Segue enumerando: "São bruxas que enfeitiçam para nos deixar sofrendo, sereias que cantam para nos afogar... São rosas espinhosas, raposas maliciosas, mestras de engano e de angústias, que fingem e mentem, que amor não sentem, não sentem piedade". Conclui: "O resto do que são capazes não digo: cada um já sabe". E Mozart, com seu humor malicioso, faz então soarem as trompas: o nome do instrumento em italiano é "corno".

No século 18, quando "As Bodas de Fígaro" foi composta, a sala toda ficava iluminada. Não se deixava o público no escuro, como hoje. Os cantores podiam então interpelar diretamente a assistência. Na montagem que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da sala durante a ária de Fígaro, que saiu do palco e dirigiu-se aos homens presentes.

Eu estava na extremidade da fileira, ao lado do corredor por onde ele passava. Logo atrás de mim, na segunda fila, uma senhora furiosa levantou-se. Fez o sinal de "não" nas fuças do pobre cantor e retirou-se protestando em voz alta. De início, pensei que fosse parte do espetáculo —hoje em dia, com as montagens modernas, tudo é possível. Mas não, era uma feminista embravecida.

Pensei que ela poderia ter prestado mais atenção. O tema nuclear de "As Bodas de Fígaro" é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.

A peça da qual a ópera foi extraída é de um francês, Beaumarchais. Pareceu subversiva e foi proibida. Nela, a velha Marcelina proclama, de maneira eloquente, a tirania masculina.

Diz, entre outras coisas: "Mesmo na sociedade mais elevada, as mulheres obtêm dos homens apenas uma consideração irrisória... Somos mantidas numa real submissão, tratadas como menores de idade no que se refere aos nossos bens, mas como maiores quando devemos ser punidas". Mozart excluiu esse trecho para evitar a censura, mas, ainda assim, fez uma clara acusação antimachista.

Aquela senhora furiosa não deu tempo para a conclusão da ópera, não viu a condenação do conde brutal e revoltou-se antes do tempo. Tal suscetibilidade, irritada pela situação inferior em que, do modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas sociedades, é compreensível. Levou-a a partir antes que as acusações de Fígaro contra o gênero feminino fossem desmentidas. Indignou-se cedo demais.

Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.

A solidão indignada faz grandes discursos interiores contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar boa consciência. É autossatisfatória. Um prazer solitário. Exaltados, arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. Talvez tenha sido Stendhal o escritor que melhor caracterizou esses estados irritados, ineficazes e inócuos.

Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de duas, ou num pequeno grupo, a indignação leva ao descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, na calma, jamais pronunciaríamos.

Quando um de seus heróis se deixa levar pelos discursos coléricos, Homero faz alguém sempre repreender: "Que palavras ultrapassaram a barreira de teus dentes!". Porque não somos mais nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a indignação. Assim também ocorre com os jorros furibundos de palavras que inundam as redes sociais.

A multidão indignada é, por sua vez, uma catástrofe. Tomada por um furacão de pulsões, ela atropela, esmaga, lincha.

A indignação trava as forças racionais. Alimentada pelas paixões, usa uma aparência de razão como fole para soprar nas brasas. Está claro, aceita só argumentos que servem a reforçar e ampliar seu domínio. É feita de radicalismos.

Assim, anula todas as complexidades e nuanças, bloqueia qualquer compreensão que não seja inteira e simplificada. Anula também o outro, como ser humano, se ele não compartilhar de nossa própria indignação.

Jorge Coli
É professor titular de história da arte na Unicamp e autor de "O Corpo da Liberdade" (Cosac Naify). Escreve aos domingos, uma vez por mês.

Continuam "pisando no povo"!!!

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O Parlamento recebeu hoje milhares de assinaturas contra a Reforma da Previdência, mas pela foto dá pra perceber que há gente que ainda se mantém insensível e distante da realidade do povo. Continuam "pisando no povo"!!!

depois não me venha com chorumelas, lamúrias, lengalengas...

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E você? Como se classifica na questão da (in)fidelidade?

Como você se classifica na questão da (in)fidelidade?

Mirian Goldenberg


A maior parte afirma ser fiel, mesmo admitindo ser "natural" sentir atração por outras mulheres

No livro "Por que homens e mulheres traem?" analisei o discurso de homens que afirmam ser "poligâmicos" e "monogâmicos".

Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres. Eles acreditam que a fidelidade é uma violência contra a própria natureza.

A maior parte dos meus pesquisados afirmou ser (ou querer ser) fiel, mesmo admitindo ser "natural" sentir atração por outras mulheres. No entanto, encontrei vários tipos de "monogâmicos".

Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres
Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres - Heidy Norel
Muitos são, como um ator de 48 anos, "monogâmicos por amor":

"Demorei para encontrar o amor da minha vida. Tive muitos relacionamentos que só me fizeram sofrer. Agora estou feliz. Por que iria correr o risco de perder a minha esposa? Por uma transa sem qualquer significado? Sei que é difícil encontrar uma mulher tão especial. Não sou idiota de jogar no lixo um amor como o nosso".

Outros são "monogâmicos por opção", como um médico de 57 anos:

"Tenho uma relação de muito companheirismo, minha mulher sempre me apoiou nos momentos mais difíceis da minha vida. Só se eu fosse um cafajeste conseguiria mentir e trair a minha melhor amiga. Infelizmente, conheço muitos homens assim".

Alguns são "monogâmicos infiéis": traíram as esposas em momentos de crise do casamento ou um pouco antes da separação.

Encontrei um advogado de 50 anos que é "monogâmico sucessivo":

"Caso, sou fiel, separo, caso, sou fiel, separo e assim sucessivamente. Tenho como lema: não faça ao outro o que não quer que façam com você. Casei e separei cinco vezes, mas sempre fui fiel".

Por fim, um engenheiro de 61 anos disse que é "monogâmico por preguiça":

"Já tive muitos casos, mas, na minha idade, não tenho mais condição física, financeira e psicológica para ter amantes. As mulheres não aceitam mais um homem pela metade. Já se foi o meu tempo de ter uma mulher em casa e outras na rua. Não quero mais confusão na minha vida".

Ele conclui: "Sou fiel só por preguiça! Trair dá muito trabalho! Mal consigo satisfazer as demandas e cobranças da minha esposa, como poderia administrar as exigências de duas ou três mulheres?"

E você? Como se classifica na questão da (in)fidelidade?

Mirian Goldenberg
É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "A Bela Velhice". Escreve às terças, a cada duas semanas

As mulheres ainda não podem exercer seu pleno direito de ir e vir. Se ainda por cima forem negras e pobres, são o fim da cadeia alimentar o que pode ser agravado se forem profissionais do sexo ou transexuais.

Quero ir ao boteco sozinha 

Vera Iaconelli 


Assisti a um excelente debate sobre cantada, assédio e outros bichos e trago algumas das questões trabalhadas, deixando outras para a próxima.


Localizar as conquistas femininas no mapa e no tempo nos ajuda a entender sua proximidade e precariedade. O direito ao voto, à escolha do cônjuge, a falar em público, a não transar com o marido, a controlar a reprodução são liberdades recém conquistadas, que ainda estão longe de contemplar todas as mulheres e que desavisados podem supor que sempre estiveram aí.

No final do século 19 esses direitos não eram acessíveis nem nos países mais liberais e, uma vez conquistados, nem todos foram mantidos. Que o Irã, onde a geração da minissaia deu lugar à geração da burca, nos sirva de exemplo. Mas, se ao ler Irã, você sentiu alívio por morar num país onde as mulheres podem usar top, não se dê ao trabalho de comemorar e não deixe que a comparação lhe suba a cabeça. O que é menos péssimo não deveria nos servir de consolo.

As mulheres ainda não podem exercer seu pleno direito de ir e vir. Se ainda por cima forem negras e pobres, são o fim da cadeia alimentar o que pode ser agravado se forem profissionais do sexo ou transexuais.

Todos os paulistanos saem de casa com algum grau de temor por sua integridade em função da violência. Os rapazes negros e pobres que de "tão pretos são pobres e de tão pobres são pretos" como diriam Caetano Veloso e Gilberto Gil sabem bem disso, pois seu direito de ir só não é maior do que sua chance de não voltarem vivos, haja vista o diuturno assassinato desses jovens da periferia.

No entanto, as mulheres experimentam um constrangimento sistemático, não contingencial, na ocupação do espaço público. Exagero?

Uma pessoa chega num bar à noite, pede uma cerveja, senta só, apreciando o movimento, talvez buscando o cruzamento de um olhar que lhe interesse. Essa pessoa sai do bar às 4h da manhã para pegar um táxi. Quem pode fazer isso sem ser importunado? Faz diferença se é um homem ou uma mulher? Quem será abordado mesmo sem ter dado nenhum sinal de estar interessado? Sinais de interesse, entenda-se, seriam um olhar, um sorriso, um aceno, que abrisse caminho para uma abordagem direta.

Não meninas, não tentem fazer isso fora de casa, ok?, pois se trata de um tabu que ainda não foi quebrado por nós. Ainda não conquistamos esse direito, e corremos o risco de termos que justificar para o delegado o porquê de termos sido, no mínimo, assediadas.

Estamos querendo demais? Usemos um exemplo mais banal.

Vila Madalena, 14h30, saindo com minha filha de 15 anos de um restaurante, ouvimos as maiores baixarias dirigidas a ela, vindas de um grupo de homens do outro lado da rua. Constrangida, finjo ignorar as falas com medo de expô-la ainda mais. Já dentro do carro, voltando para casa, passamos pela porta do local. Num ímpeto, paro o carro e desço o vidro protegida do espaço público. A solicitude do brasileiro em dar informações é prontamente exemplificada, com os rapazes se aproximando para nos atender. Olho no olho, informo que somos aquelas que tiveram que ouvir as falas indecentes dos cavalheiros. Constrangimento, pedidos de desculpas e minha filha teve mais uma amostra do que a aguarda como mulher. Ainda.

Vera Iaconelli
Psicanalista, fala sobre relações entre pais e filhos, as mudanças de costumes e as novas famílias do século 21