Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

conversinha pra boi dormir, estes falsos moralistas se engasgam com a própria língua.


'Fui chantageado', diz Sturm, sobre áudio em que é acusado de assédio




O secretário de Cultura André Sturm (esq.) e o prefeito João Doria (dir.) durante evento de divulgação do Pro-Mac

O secretário de Cultura André Sturm (esq.) e o prefeito João Doria (dir.) durante evento de divulgação do Pro-Mac


O secretário Municipal de Cultura, André Sturm, diz ter sido chantageado para demitir duas funcionárias da secretaria –a chefe de gabinete e a secretária-adjunta– para evitar que o áudio gravado pela assessora Lara Pinheiro, publicado na internet nesta terça (16), fosse divulgado.

Na conversa, gravada sem o conhecimento do secretário, em novembro, Lara e Sturm trocam ofensas e ele diz que ela será exonerada. Ela pergunta se será demitida porque "não quis dar" para ele, durante uma viagem ao Canadá, que Sturm hoje afirma ter ocorrido a trabalho. No áudio, ele responde "se eu quisesse te comer, eu teria tomado iniciativas anteriores, não teria te levado ao Canadá". Lara ainda não deixou o cargo.

Nesta terça (16), o secretário mostrou à Folha uma carta que afirma ter recebido na sexta-feira (12). O documento elenca uma série de denúncias em relação à secretária-adjunta da pasta, Marilia Alves Barbour, e à chefe de gabinete, Juliana Velho. Em seguida, a carta pede a exoneração das duas funcionárias. E, por fim, cita o áudio gravado por Lara, afirmando: "Não gostaríamos de expor tal fato".

Sturm afirma acreditar que o ataque não partiu de Lara. "Me parece que são pessoas da oposição", diz. Também na sexta (12), alguns vereadores de oposição receberam um dossiê intitulado "Socorro, a cultura vai acabar". Além das acusações contra as servidoras da secretaria, o áudio da conversa também foi enviado para a Câmara Municipal.

O advogado de Lara Pinheiro, Augusto de Arruda Botelho, diz que sua cliente não vai se manifestar sobre a gravação.

Até o fechamento dessa matéria, não havia queixa formal contra Sturm.
*

O senhor assediou Lara Pinheiro?

De jeito nenhum. A Lara trabalhou comigo desde o dia 1 de janeiro. Iniciou como assessora de dança. Passamos por um primeiro semestre em que a dança foi uma das questões e, por isso, nos aproximamos. Quando a minha assessora saiu, por motivos pessoais, em agosto, eu a promovi como a minha assessora principal.


Ela é da cultura, conhece bastante gente e era uma pessoa em que eu tinha confiança. Depois de um tempo, não sei precisar o dia, algumas coisas que eu pedia passaram a não acontecer.

Abrimos a filial da Escola de Dança em Santo Amaro. Precisava de um dinheiro para isso. Fomos a uma vereadora que era fã da dança e conseguimos uma emenda de R$ 150 mil. Essa emenda chegou aqui em outubro. Em novembro a Lara ainda não tinha feito nada a respeito. Aí eu a cobro e ela fica brava. Ela foi cuidar disso só depois de discutirmos.

Eu perguntava de uma coisa, não tinha acontecido, perguntava de outra coisa, também não tinha acontecido. Também estava tendo problemas de relacionamento com outras pessoas da equipe. Ela não tratava bem outras pessoas.

Teve um evento no Theatro Municipal que deu a maior confusão no cerimonial. Eu liguei para a Lara e reclamei.

Na segunda-feira seguinte, eu chamei minhas outras duas assessoras mais jovens e tirei algumas atribuições da Lara. Na outra semana, ela me mandou uma mensagem e eu disse que precisava conversar com ela. Foi o dia da gravação.

Ela entrou na minha sala muito alterada. Começa perguntando se seria demitida. E eu digo que não posso ter uma assessora em que não tenha confiança, no quesito profissional. Ela transforma em uma questão pessoal. Ela fica o tempo inteiro tentando colocar palavras na minha boca, tentando que eu diga que existe algo pessoal naquilo. Eu não a chamei para demiti-la.


Reconhece que se exaltou durante a conversa?

Sim, claro. Posso até ter sido grosseiro. Agora, ela estava muito agressiva. Embora eu me chame Sturm, sou italiano. Lido com a equipe de maneira muito aberta, mas dou uns esporros de vez em quando. Fiquei incomodado que uma pessoa que tinha minha total confiança, que compartilhava comigo questões estratégicas, que almoçava comigo, com minha secretária-adjunta e com minha chefe de gabinete duas vezes por semana, pudesse estar com aquela atitude.

Ela diz: 'Você vai me mandar embora porque eu não quis dar para você'. E eu digo: 'Lara, se eu quisesse te comer, teria te comido'. Eu queria dizer que fazia 11 meses que ela trabalhava comigo. Não preciso viajar com uma mulher de 50 anos para seduzi-la. Desculpa, que não quero ser machista e dizer que sou capaz de seduzir qualquer mulher. Eu quero dizer que, se eu quisesse tentar seduzi-la, eu teria tentado seduzir.


Ela diz que só havia um quarto reservado em Montreal. Como isso aconteceu?

Quando chegamos lá, só tinha um quarto reservado. Eram 9h da noite, me disseram que o hotel estava lotado, que não tinha o que fazer. Ficamos nesse hotel e eu fiquei tentando arranjar outro lugar. Assim que consegui, mudamos de hotel. Ficamos alguns dias, é verdade, no mesmo quarto. Agora, duas camas, duas pessoas adultas.



Só um quarto foi reservado?

Sou uma pessoa que não sabe usar a internet. Eu pedi para uma agência de viagem reservar o hotel e os preços eram escabrosos. Um amigo me disse para entrar no site 'Booking'. Resolvi entrar, vi uns preços incríveis e reservei. Devo ter errado a reserva, porque o quarto que eu reservei tinha duas camas.



Eu já tinha viajado com ela. Ela foi comigo para Joinville. Quando eu digo que 'se eu quisesse te comer, teria comido', foi grosseiro, óbvio, reconheço, mas veja o tom em que a conversa estava. Ela me acusou daquilo, eu reagi. Mas quando disse isso, quis dizer que não era a primeira viagem que fazia com ela. Trabalhávamos há quase 11 meses, as oportunidades tinham sido inúmeras.

Eu não acho que a bandida é a Lara. Não falei com ela, ela não quis falar comigo. O advogado dela diz que ela não divulgou esse áudio.


Quem divulgou o áudio?

É importante dizer que esse áudio não está isolado. Na sexta-feira (12), foi deixado na mesa da copa no começo da noite um envelope. Minha secretária abriu porque eu não estava mais aqui. Tinha esse bilhetinho: 'favor ser lido somente pelo secretário André Sturm'.


Dentro tinham sete acusações contra minha chefe de gabinete e a minha secretária-adjunta. Acusações muito pontuais. No final, diz: "Rogamos a vossa excelência que exonere as referidas servidoras. Ato que beneficiará vossa gestão. Recebemos um áudio comprovando o assédio sexual cometido por vossa excelência junto à servidora Lara Pinheiro. Não gostaríamos de expor tal fato". Ou seja, é uma chantagem.

Não há uma questão de assédio sexual. Inclusive, no mundo em que vivemos hoje, onde a questão do assédio se tornou tão relevante, usar uma coisa dessas para tentar demitir duas mulheres é muito baixo.

Se você ouve o áudio, não há nenhuma manifestação minha de assédio sexual. Posso ter sido grosseiro? Fui grosseiro! Chamo uma pessoa para falar de questões com que eu estou insatisfeito e ela vem com duas pedras me atacando? E, veja, porque que ela gravou essa conversa? Porque ela achava que seria demitida, por não estar trabalhando direito. Evidente.

Eu tinha tirado atribuições dela. Eu estava menos próximo. Digo: 'Precisamos conversar'. Tanto é evidente que ela gravou com um motivo que ela passa o tempo inteiro tentando colocar palavras na minha boca. E não põe. É grosseiro? É feio? Mas não caracteriza assédio sexual.


Qual foi a atividade dos senhores no Canadá?

Um dos focos do nosso trabalho é o Theatro Municipal. Eu recebi aqui o consul do Canadá, quando eu estava no MIS, há uns três anos. Recebi um convite para ir ao Canadá, para visitar equipamentos, fazer parceria, eles não pagavam a passagem, mas era um convite para fazer uma agenda. O consul veio me visitar [novamente] e propôs uma série de coisas, e eu falei "ainda tem aquele programa de parceria?" Ele disse: "Claro".


O Canadá tem uma política de parcerias internacionais talvez a maior do mundo. No caso do cinema, que é minha área, eles são o país com o maior número de coprodução de todos os países do mundo. Em Montreal, eles organizaram uma agenda muito rica, eu consegui organizar minha agenda, pedi licença e viajei. E paguei minha passagem. Encontrei Louise Lecavalier, que topou fazer uma coreografia e vir dançar com o Balé da Cidade, além de outras coisas que aprendi lá.


Por que decidiu pagar a viagem do próprio bolso?

Embora fosse uma viagem de trabalho, era também a primeira vez que eu ia sair do Brasil no ano, era uma possibilidade de dar uma refrescada na minha cabeça. Tendo em vista que o prefeito bate na tecla da economia, eu falei, prefiro pedir licença, usar minhas milhas em passagem, pagar o hotel e não correr o risco de alguém me ver no Canadá, tirar uma foto e botar no Facebook e dizer que estou indo ao exterior às custas da cidade. Foi uma decisão puramente para não ter chateação.



Você pagou a passagem de Lara Pinheiro?

Eu usei as minhas milhas para as passagens dela também. Eu não podia fazer ela viajar a trabalho oficialmente e pagar sozinha. Então usei as minhas milhas para que ela pudesse ir comigo, e lá a gente dividiu contas.



Está preparado para se defender?

Foi o pior fim de semana dos últimos 19 anos da minha vida. Eu fiquei deprimido, ontem foi um dia horrível. Hoje tá sendo horrível. Ano passado, todo mundo sabe, eu passei por um linchamento moral e, diversas vezes, físico. Tive paciência, apoio do prefeito. Fizemos muita coisa, com um orçamento congelado.

Não falei com a Lara, mas ela veio trabalhar hoje. Chegou e ligou o computador, como se nada tivesse acontecido. Ela não pode estar se sentindo assediada. Ela, através do advogado, diz que até o momento não fez nenhuma denúncia contra o secretário. Não sei se o "até o momento" é uma chantagem dele, ou não, mas eu não quero entender dessa maneira. Quero entender que, se ela não fez nenhuma denúncia e veio trabalhar, eu não posso imaginar que ela realmente se acha assediada.

Portanto, não é Lara que está me acusando. Estão usando uma gravação feita por uma funcionária minha. Em quem eu tinha 100% de confiança. Gravação feita escondido, sem me dizer, e que foi guardada durante dois meses, misturado com uma série de acusações que buscam desestabilizar a secretaria. Me parece que são pessoas da oposição. Pessoas que não estão satisfeitas com o que estamos fazendo aqui.


Conversou com o prefeito João Doria?

Falei com o prefeito no sábado, quando eu soube. Ele disse que eu deveria seguir em frente e responder eventualmente às acusações. 

Autoridades públicas como o presidente do TRF-4 também têm obrigação de agir com responsabilidade e de atuar com isenção, algo que tem faltado a Thompson Flores levando em conta as suas declarações e atitudes no que se refere ao processo do ex-presidente Lula.

Julgamento de Lula é o auge da judicialização da política no Brasil
Decisão será a mais importante da história do Judiciário

KENNEDY ALENCAR 


Com seu périplo ontem por Brasília, o presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Carlos Eduardo Thompson Flores, contribuiu para o acirramento dos ânimos em relação ao julgamento do recurso da defesa do ex-presidente Lula no processo a respeito de um apartamento no Guarujá. Esse julgamento está marcado para a próxima semana, dia 24, em Porto Alegre.

Ao procurar autoridades federais, batendo à porta do Supremo Tribunal Federal, Thompson Flores dá um ar de gravidade ainda maior às ameaças que ele diz que os desembargadores vêm sofrendo. Como presidente do TRF-4, ele tem poder para pedir reforço da segurança individual dos desembargadores e também do prédio do tribunal.

O governo federal já recusou um pedido indevido e irresponsável do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., para envio de tropas federais à capital do Rio Grande do Sul. Auxiliares do presidente Michel Temer dizem que o general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, almoçou ontem com Thompson Flores e não viu justificativa para nenhuma ação de segurança de iniciativa do governo federal.

Ou seja, todas as medidas de segurança podem ser solicitadas às autoridades do Rio Grande do Sul, como as polícias Civil e Militar. Também podem ser solicitadas medidas de apoio à Polícia Federal, que tem uma superintendência no Estado. Não há necessidade de intermediação do Palácio do Planalto.

Até comunicados ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça), presidido por Cármen Lúcia, com quem Thompson Flores se reuniu ontem, poderiam ser feitos diretamente ao departamento do órgão que trata da segurança de juízes. O périplo de Thompson Flores só ajuda a criar alarde. Só produz mais barulho numa hora em que o presidente do tribunal deveria ser o primeiro a agir no sentido contrário. Deveria ajudar a serenar os ânimos, mas foi em busca de palco federal.

Na internet, há relatos de militantes que defendem atos de violência no dia do julgamento. Esses relatos merecem condenação. Ameaças não devem ser minimizadas. Tampouco superestimadas.

Nas redes sociais, bravatas são o que existe hoje em dia em torno do julgamento do recurso da defesa do ex-presidente Lula. Cabe às autoridades pesar corretamente a seriedade, a gravidade e a consistência dessas ameaças, bem como as que teriam sido feitas de outras formas, como telefonemas anônimos ou cartas enviadas ao tribunal. Cabe aos dirigentes do PT e de movimentos que pretendem ir a Porto Alegre dar orientações que evitem violência e que estimulem manifestações pacíficas.

Os aliados de Lula têm todo o direito de se manifestar, mas cometerão um erro grave se um protesto legítimo do ponto de vista democrático enveredar pela violência física.

Convém lembrar que, desde o começo da Operação Lava Jato, procuradores e o juiz Sérgio Moro recorreram à opinião pública para reforçar a investigação. Recorreram à arena política diversas vezes, seja se manifestando por entrevistas, notas ou posts nas redes sociais.

A politização do julgamento de Lula não começou por iniciativa do ex-presidente. Teve início no dia em que o procurador da República Deltan Dallagnol deu uma entrevista, apresentado seu famoso PowerPoint, enfiando uma acusação de crime de organização criminosa que não constava da denúncia. Moro já escreveu artigo sobre a importância do apoio da opinião pública no combate à corrupção.

Quem usa o debate público e político para realizar a sua ação judicial deve ter consciência de que receberá respostas na mesma moeda. Ou seja, receberá uma resposta política, que, aliás, é mais legítima vinda de um político, de partidos políticos e de movimentos sociais do que de integrantes do Poder Judiciário. Integrantes estes que não deveriam agir politicamente.

A absolvição ou condenação do ex-presidente Lula no dia 24, se o julgamento se encerrar nesse dia, como previu nota do próprio TRF-4, será o auge do processo de judicialização da política no Brasil.

Qualquer que seja o resultado, absolvição ou condenação, estaremos diante da decisão de maior impacto histórico da Justiça brasileira.

Nos processos de impeachment de Collor e Dilma, a Justiça teve papel lateral. Essas decisões, tomadas pelo Congresso Nacional, foram muito mais políticas do que jurídicas. O processo de impeachment possui natureza política inegável.

Uma decisão da Justiça que pode viabilizar ou impedir a candidatura ao Palácio do Planalto de um ex-presidente que é líder nas pesquisas terá imenso impacto histórico. Qualquer que seja a decisão, ela significará a maior uma intervenção judicial já feita no processo político-eleitoral do país.

Olhando o passado, em 1955, quando o Supremo impediu a volta de Café Filho ao Palácio do Catete, houve um enorme impacto, porque os espíritos golpistas que teriam sucesso em 1964 estavam animados naquela época _tentando impedir que Juscelino Kubistchek assumisse a Presidência. Getúlio Vargas se matara no ano anterior.

O general Henrique Lott deu o chamado golpe de Estado preventivo para garantir a posse de JK. Na ditadura, o Supremo teve seu poder diminuído. Foi um apetrecho do regime. É positivo que os militares, que tiveram ações decisivas na história do país, adotem atitude profissional hoje em dia.

Se Lula for absolvido no dia 24 ou se for condenado e isso der início a uma série de recursos da defesa do ex-presidente perante as cortes superiores em Brasília, estaremos diante da mais importante decisão da história do Judiciário brasileiro. O momento é grave na vida nacional.

Portanto, dirigentes petistas e líderes sociais devem agir com responsabilidade. Autoridades públicas como o presidente do TRF-4 também têm obrigação de agir com responsabilidade e de atuar com isenção, algo que tem faltado a Thompson Flores levando em conta as suas declarações e atitudes no que se refere ao processo do ex-presidente Lula.

"A Difícil Democracia: Reinventar as Esquerdas"

Uma agenda de reformas progressistas é essencial para refundar a esquerda


Nabil Bonduki 




Poucos artigos desta coluna causaram reações tão contraditórias como "Reforma pela Esquerda". Muitos elogiaram o texto, que aponta para a necessidade de reformas estruturais, outros o criticaram, afirmando que ele contribuía para "as forças políticas que estão destruindo direitos e golpeando a democracia".

No Brasil pós-2016, o termo "reforma" tem sido relacionado, exclusivamente, a propostas defendidas pelo mercado para reduzir o tamanho do Estado e suprimir direitos conquistados no século 20.

Mas ser contra essas "reformas" não significa ignorar as causas estruturais da atual crise nem se omitir em relação a premência de implementar mudanças para enfrentá-la.

Por falta de iniciativas da esquerda, o neoliberalismo vem tentando capturar o termo "reforma". Mas ele sempre esteve ligado, em todo o mundo, ao campo popular e progressista que, no Brasil dos anos 1960, defendia as "Reformas de Base" (agrária, urbana, sanitária, educacional), para modernizar o país com justiça social.

Em "A Difícil Democracia: Reinventar as Esquerdas", Boaventura de Sousa Santos aponta para a urgência de esquerdas reflexivas. Ele defende "refundar as esquerdas, depois do duplo colapso da social democracia e do socialismo real". "Não questiono que haja um futuro para as esquerdas, mas seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado."

"No poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem será o líder nas próximas eleições e as análises ficam vinculadas a esse objetivo. Essa indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida."

A frase, escrita em 2011, é perfeita para o Brasil de 2018. Palavras de ordem, sem reflexão e proposições consistentes, em clima de polarização simplificadora, são insuficientes para enfrentar a crise atual e apontar um futuro promissor para o país.

Para se constituir como uma alternativa, a esquerda precisa construir, em um amplo debate, uma agenda de reformas, que não foram viabilizadas em 13 anos de governo do PT.

O arranjo político com forças conservadoras e interesses corporativos que sustentaram o governo dificultaram ou impediram a implantação de mudanças estruturais, indispensáveis para evitar o colapso do modelo distributivo e garantidor de direitos que se buscou implementar.

Uma esquerda reflexiva, aberta ao debate e críticas, é fundamental para propor alternativas às antirreformas de Temer e formular uma agenda que deve incluir temas como reformas política, tributária, previdenciária, agrária, urbana e do Estado.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

os números demonstram a inviabilidade da atividade futebolística. não seria melhor investir em bilhar?

União cobra R$ 14,4 bilhões de igrejas, clubes e entidades assistenciais

Juca Varella - 27.set.2012/Folhapress
Renascer em Cristo, dos bispos Estevam e Sônia Hernandes, é cobrada pela União
Renascer em Cristo, dos bispos Estevam e Sônia Hernandes, é cobrada pela União

A Receita Federal apertou a fiscalização contra igrejas, clubes esportivos e organizações assistenciais, e hoje a União cobra R$ 14,4 bilhões em dívidas dessas entidades por terem burlado as regras que lhes garantem imunidade do pagamento de tributos.

O fisco já pediu que órgãos competentes investiguem as irregularidades para avaliar quais entidades devem perder o direito à isenção por não terem atuado plenamente como empresas sem fins lucrativos.

Esse processo está em curso, segundo o secretário da Receita, Jorge Rachid. "Só nos últimos cinco anos, autuamos 283 entidades assistenciais e temos um crédito tributário de R$ 5,5 bilhões em impostos devidos, multas e juros", disse à Folha. "A maior parte são pendências previdenciárias."

Via Lei de Acesso à Informação, a Folha obteve a lista das entidades que desfrutam de isenção ou imunidade tributária e estão sendo cobradas pela PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional).

Essa dívida é de R$ 6 bilhões, e a maior parte, R$ 5 bilhões, abrange dois grupos: unidades beneficentes (hospitais e escolas) e clubes de futebol. As pendências de igrejas somam R$ 1 bilhão.

Os R$ 8,4 bilhões restantes são créditos de autuações da Receita em andamento que ainda podem ser discutidas na esfera administrativa. Devido ao sigilo fiscal, o órgão não detalhou quem são esses devedores. Também pela Lei de Acesso, informou somente que, do total, R$ 800 milhões se referem a organizações religiosas e R$ 7,6 bilhões são de entidades beneficentes e clubes esportivos.

Um desses casos, no entanto, ficou público. Segundo a Polícia Federal, fraudes cometidas por um dezena de pastores da Igreja Cristã Maranata (ICM) resultaram em desvios de R$ 23 milhões. Denunciado pelo Ministério Público Estadual do Espírito Santo, em 2016, o grupo nega as irregularidades na Justiça.

Entre as entidades que constam do cadastro da Dívida Ativa da União estão igrejas como a Associação e Distribuição, braço de uma organização criminosa que fraudou em R$ 500 milhões os cofres de São Paulo. Parte desse valor foi desviada pela igreja, que, segundo a PF, era de fachada. A dívida hoje é de R$ 354,6 milhões, de acordo com a PGFN.

A Igreja Renascer em Cristo, dos bispos Estevam e Sônia Hernandes, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares, são cobradas por motivo diferente: o não cumprimento de obrigações trabalhistas, como o pagamento de contribuições patronais. Em 2013, os três religiosos apareceram na lista dos pastores mais ricos da revista "Forbes".


PROFUT

Também devem à Fazenda 84 clubes de futebol. Os campeões são Atlético-MG, Flamengo e Botafogo. No entanto, quase todos aderiram ao programa Profut, uma espécie de Refis lançado pelo governo em 2015 para forçar a regularização tributária dessas organizações.

Segundo os auditores e os procuradores da Fazenda, nas associações beneficentes, são comuns desvios de recursos por gestão temerária ou fraudulenta. Em boa parte, as comunidades dependem dessas instituições para ter educação ou atendimento médico.

Foi o que ocorreu no Hospital Evangélico de Curitiba. Em 2011, a instituição fechou um convênio com o Ministério do Turismo que, segundo a PF, era fraudulento.

Referência na capital paranaense, com 95% dos atendimentos médicos feitos com recursos do SUS, o hospital acumula dívidas de R$ 173,8 milhões, está sob intervenção judicial desde 2014 e deve ser leiloado neste ano como forma de mantê-lo ativo.

REGRAS

A Constituição criou a figura da imunidade tributária para igrejas, partidos políticos, sindicatos e organizações assistenciais como forma de estimular o bem-estar social por meio de terceiros.

A imunidade livra as entidades de pagar impostos, mas, para usufruir dela na prática, é preciso cumprir determinadas condições previstas em uma legislação específica que explicita as isenções.

Segundo a Receita, essas entidades não escapam, por exemplo, dos encargos referentes à contratação de trabalhadores (FGTS e a contribuição previdenciária).
Os ganhos (superavit) gerados pela entidade devem ser integralmente aplicados na atividade assistencial. Um hospital beneficente pode faturar com uma lanchonete, por exemplo, mas o lucro tem de ser usado para a prestação do serviço médico. Caso contrário, pode sofrer autuação como uma empresa comum.
Ganhos com aplicações financeiras devem ser tributados normalmente.

Também se consideram desvios a remuneração para dirigentes (como nos times) e a distribuição de lucros.

Para as entidades assistenciais, a imunidade é garantida por certificados emitidos, em grande maioria, pelos ministérios da Saúde, da Educação e do Desenvolvimento Social. São esses órgãos que, acionados pela Receita, têm de auditar as entidades flagradas em irregularidades.

Já os clubes esportivos não têm imunidade, direito garantido pela Constituição. Eles desfrutam de isenção por meio de legislação ordinária, deixando de pagar tributos sobre sua renda e recolhendo contribuições e encargos trabalhistas com descontos.

ASSOCIAÇÕES AFIRMAM TER REPACTUADO DÍVIDA

Folha procurou as entidades com os maiores débitos inscritos na Dívida Ativa. Aqueles que parcelaram suas dívidas desistiram da discussão jurídica com a Fazenda para manter a imunidade ou a isenção.

A Associação Santamarense de Beneficência do Guarujá afirmou que o Hospital Santo Amaro, administrado pela entidade, está no Prosus, programa que prevê a reestruturação de dívidas de entidades filantrópicas que atuam na área de saúde, e equacionou seus débitos.

O administrador judicial do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, Ladislau Zavadil Neto, informou que a situação chegou ao ponto da intervenção judicial devido à má gestão.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a diretoria da Sociedade Portuguesa de Beneficência afirmou que parte da sua dívida está sendo contestada na Justiça, parte caducou e parte está no Prosus.

FUTEBOL

O Botafogo, que tem dívida de R$ 223,5 milhões, afirma que aderiu ao Profut, programa de refinanciamento de 2015: "Com o acordo, o Botafogo voltou a possuir certidões [negativa de débitos]."

O diretor financeiro do Flamengo, Marcio Garotti, afirmou que o clube mantém a regularidade dos pagamentos de sua dívida desde que aderiu ao Profut. O clube carioca deve R$ 244,3 milhões.

A assessoria do Atlético-MG também afirmou ter repactuado sua dívida pelo programa e que está se enquadrando às exigências.

A reportagem não obteve retorno das seguintes entidades: Vasco da Gama (dívida de R$ 177,6 milhões), Fluminense (R$ 169 milhões), Sociedade Vicente Pallotti (R$ 57,8 milhões), Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário (R$ 28,5 milhões) e Igreja Internacional da Graça de Deus (R$ 85,3 milhões).

Também não conseguiu contato com advogados da Ação e Distribuição (R$ 354,6 milhões), Real Sociedade Portuguesa de Beneficência (R$ 159,8 milhões), Associação Beneficente dos Hospitais Sorocabana (R$ 178,9 milhões) e a Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial (R$ 92,7 milhões).

CONTROVÉRSIA

Advogados tributaristas especializados em terceiro setor consideram que todas as organizações que preencham uma série de requisitos, como não ter fins lucrativos e investir sua renda na entidade, têm direito à imunidade no pagamento de tributos.

Para eles, caso a imunidade seja reconhecida pela Justiça, o direito ao não pagamento de tributos se estende até para as contribuições, como a previdenciária.

É o que afirmam os advogados Guilherme Reis e Renata Lima, do escritório Nelson Wilians e Advogados.

"A imunidade, diferentemente da isenção, é garantida pela Constituição, e não pode ser revertida pelo poder público", afirma Reis.

Esse entendimento diverge do da Receita Federal, que não reconhece o direito ao não pagamento de contribuições e tampouco considera que a imunidade não possa ser cassada quando os requisitos não são cumpridos. 

Obrigado, Senhor.

Querido Deus,

Gregorio Duvivier

Antes de mais nada, desculpa qualquer coisa. Sei que faz tempo que eu não falo com você. A última vez foi naquele meio segundo em que um ônibus veio desgovernado na minha direção. Foi tão rápido que o senhor nem deve lembrar. Ah, o senhor lembra de tudo? Então, era eu.

Tô super em falta, eu sei. E sim, eu sei que é estranho agradecer a alguém que eu costumo achar que não existe. É que o senhor, com todo respeito, deu alguns indícios fortes de que não existia. Aquele avião da Chapecoense, o câncer de uma amiga, o Temer ter sobrevivido àquela pedra. Tudo indicava que o senhor, ou bem não existia, ou bem fazia péssimas escolhas.

Até que minha filha nasceu. E desde que ela nasceu, linda, cabeluda, bochechuda, e risonha, e mama horas seguidas, e arrota no meu ombro um arroto com cheiro de lavanda, e baba uma baba com cheirinho de nuvem e depois suspira e dorme encostada no meu peito, e meu dedo mindinho encosta na palma da mão dela e ela segura com toda a força do mundo, e enquanto isso a palma da minha outra mão sente um pum saindo do bumbum dela, e eu olho pra minha mulher e ela tá rindo o riso mais bonito do planeta, ela tá com o cabelo desgrenhado, o olhar de quem não dorme há três dias e só um peito pra fora todo embebido de gordura de picanha que é a única coisa que faz a dor passar, e, ainda assim, ela é a mulher mais bonita que eu já vi em toda a minha vida, e a gente fica rindo e já nem lembra o porquê, mesmo sabendo que essa noite nenhum de nós três vai dormir, mas quem é que se importa em dormir, dormir é superestimado, sexo é superestimado, sair de casa é superestimado, bom mesmo é sentir o cheiro dessa cabecinha perfumada e dançar os três apertadinhos pelo apartamento, e de repente o som começa a tocar "em algum momento da minha infância ou juventude", é a Fraulein Maria cantando pro Capitão Von Trapp, "eu devo ter feito alguma coisa certa, afinal você tá aqui, na minha frente, me amando", e a gente se olha e começa a chorar, e eu já nem sei se é tarde demais pra dizer: Obrigado, Senhor. [...]

a imagem de um político descontrolado, sem noção e grosseiro quando confrontado.

Cada um por si 

 Leandro Colon 



2018 entra na terceira semana com peças relevantes do tabuleiro da eleição presidencial movimentando-se circunstancialmente, cada qual no seu contexto.

O ex-presidente Lula vai para a reta final de preparação do julgamento que deve nortear o destino político do petista e o do cenário eleitoral.

O que será de Lula e do PT na disputa em outubro dependerá decerto do placar a ser proferido pelos desembargadores do TRF-4 no dia 24.

No outro extremo, Jair Bolsonaro cambaleia após a recente série de reportagens da Folha que revelou seu patrimônio, o uso de auxílio-moradia mesmo com imóvel próprio em Brasília, e o emprego, com verba da Câmara, de uma servidora fantasma que vende açaí em Angra dos Reis.

Ao ser inquirido pelos repórteres Camila Mattoso e Italo Nogueira, Bolsonaro reforçou, sem explicar o que parece ser inexplicável, a imagem de um político descontrolado, sem noção e grosseiro quando confrontado.

A campanha nem começou de fato e o deputado sabe que carregará no percurso até as urnas o carimbo de quem multiplicou o patrimônio às custas da política e adotou práticas reprováveis com o dinheiro público.

Se Lula e Bolsonaro dão a largada de 2018 preocupados em limpar a própria barra nos campos da honestidade e da moral, possíveis nomes de "centro-direita", que poderiam aproveitar o desgaste da dupla acima para arrebanhar votos, optam pela estratégia do "cada um por si".

Henrique Meirelles começa a se dar conta de que somente ele acredita na hipótese de sua candidatura. O seu partido, o PSD, finge acreditar.

O DEM força um ambiente favorável a Rodrigo Maia, que tem peso político, porém carece de potencial de voto, algo básico para estar no páreo.

Alckmin tem a preferência velada de Michel Temer para ser o candidato de centro e do governo. Seu problema - e maior desafio no curto prazo - é decolar e convencer caciques do próprio PSDB - entre eles FHC - de que pode se viabilizar para tanto.

A morte é a aposentadoria, só que mais radical.

No céu, entre livros

 Ruy Castro 


Não consigo passar em frente a um sebo sem entrar. Já me vi apressado a caminho de compromissos em cidades que não a minha e, ao vislumbrar uma porta anunciando livros usados, algo me compeliu a entrar, indiferente ao fato de que chegaria atrasado. Aconteceu certa vez em Curitiba. Estava indo para uma entrevista quando vi, no outro lado da rua, o sebo Fígaro. Entrei -e me esqueci da entrevista. Depois dessa, aprendi. Sempre que vou a Curitiba, já saio do avião direto para o Fígaro.

Em São Paulo, dedico uma tarde inteira aos sebos da praça João Mendes e adjacências. Em Belo Horizonte, faço o mesmo no edifício Maleta. Conheço os sebos de Porto Alegre, Salvador, Natal. Nos do Rio, não me dou apenas com os gatos -sou íntimo até dos ácaros e, a alguns, chamo pelo nome. E não há sebo desprezível. O menor sebo que conheci era quase um buraco na parede, no Flamengo. Nas três primeiras vezes em que o visitei encontrei três preciosidades.

Há um famoso sebo em Nova York, o Strand, na esquina de Broadway e Rua 12, que se anuncia como tendo "18 milhas de livros" -28,96 km de prateleiras, do chão ao teto. Quando entrei nele pela primeira vez, em 1972, disse para mim mesmo a frase que nunca abandonei: "Quando morrer, não quero ir para o céu. Quero vir para este sebo". Com os anos, adaptei-a a muitos outros sebos, principalmente brasileiros, até que acabei por generalizar: não quero ir para este ou aquele sebo, mas para os sebos -todos.

Fred Bass, que herdou o Strand de seu pai nos anos 1950, quando a loja era uma portinha, e a transformou no maior sebo do mundo, morreu na semana passada, aos 89 anos. Depois de uma vida inteira entre estantes, Bass acabara de se aposentar. A morte é a aposentadoria, só que mais radical.

Pelo menos, Fred Bass já passara a vida no céu.

Sob o manto de mártir, há quem veja Lula puxando o substituto na direção do segundo turno da eleição.

A insustentável leveza de ser do PT 

Gaudencio Torquato



O ano eleitoral que se inicia coloca em xeque o dilema que tem afligido o PT ao longo dos últimos anos: arrefecer o peso do discurso, produzindo nova "carta aos brasileiros", à semelhança da que Luiz Inácio Lula da Silva apresentou em 2002, ou continuar a massificar o bordão da luta de classes ("nós e eles"), sob a crença do eterno retorno, conhecido conceito de Nietzsche (1844-1900), ancorado no princípio de que as situações existenciais se repetem indefinidamente no tempo.

A dúvida que paira sobre o PT e seu chefe maior parece levar em conta, de um lado, a perspectiva de melhoria da economia —nesse caso, o discurso radical seria mal recebido por parcela da população— e, de outro, o resgate do legado que a administração lulista se gaba de ter proporcionado ao país: a maior distribuição de renda da história. E que hoje virou fumaça.

A isca com que Lula pretende fisgar o eleitorado, em outubro, seria um elenco de compromissos com o povo, não apenas uma expressão moderada para cooptar o mercado, como se fez em 2002.

O fato é que o petismo está ajustando o discurso de forma a driblar os índices positivos alcançados pelo atual governo, rebater o tiroteio sobre a era petista, com foco no envolvimento de seus protagonistas no mensalão e na operação Lava Jato, e se apresentar como a melhor alternativa para enfrentar a crise (por ele perpetrada).

A identidade do petismo, plasmada ao longo do percurso iniciado em 1980, sempre se pautou pelo viés socializante. Recuperar o eixo histórico ante um Estado que avança na direção de reformas liberais e diminui seu porte não será fácil.

Lula abriu o discurso de posse na Presidência, em 1º de janeiro de 2003, com o verbo mudar. Era o conceito que unia sindicalistas, intelectuais e membros da Igreja Católica, fundadores do PT. Mas o país não mudou sob o mando petista. A leitura atual não perdoa os desvios do ciclo Lula/ Dilma, mesmo sob as glórias do programa distributivista de renda, assentado no Bolsa Família.

O ex-metalúrgico chegou a se autodesignar "metamorfose ambulante", em peroração humorística para explicar o vaivém do PT, ora trafegando na extrema esquerda do arco ideológico —quando grita jargões e ecoa o apartheid social—, ora aliado a siglas que o petismo condena, como o próprio MDB.

Imerso no arquipélago partidário, o PT perdeu o discurso original, sujou-se no lamaçal da corrupção e, incrível, adentrará o campo eleitoral com alianças à direita e à esquerda, maneira de garantir a eleição do maior número de governadores, senadores e deputados.

Lula deu o tom: o PT tem de ser pragmático. Precisa ganhar musculatura e garantir boa posição no ranking. A dúvida persiste: um discurso mais leve, menos radical, fará o gosto da militância? A resposta é não. O petismo tem a militância mais engajada e conta com a CUT e o MST, seus exércitos de retaguarda. Os militantes defendem um discurso virulento para compor a feição oposicionista.

Para voltar a ser competitivo, ao PT sobra a alternativa de voltar a esgrimir a espada com que ataca o statu quo. Ocorre que o resgate da velha identidade só terá êxito caso as reformas do governo Temer derem com os burros n'água.

Só assim o petismo assumirá a condição de maior força oposicionista. Em suma, não se sustenta a leveza de ser do PT. É mais provável que Lula assuma a cara zangada de João Ferrador, dos tempos de metalúrgico, para mostrar raiva e indignação como perseguido do juiz Sergio Moro. Pretende ir às urnas como vítima.

Condenado pelo TRF-4 e impedido de disputar o pleito, teria como modelo a figura do Nazareno carregando a cruz até o calvário. Sob o manto de mártir, há quem veja Lula puxando o substituto na direção do segundo turno da eleição.

GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP (aposentado) e consultor político e de comunicação

a mala do mala

A mala se arrasta 


editorial folha



O poeta T.S. Eliot (1888-1965) escreveu, em versos célebres, que o fim da civilização aconteceria "não em estrondo, mas num sussurro". Caso não menos célebre, para os brasileiros, parece que vai terminando de modo semelhante.

A mala com R$ 500 mil, flagrada nas mãos do ex-assessor do Planalto Rodrigo Rocha Loures, uma semana depois de o presidente Michel Temer (MDB) ter indicado seu nome ao empresário Joesley Batista (JBS), ameaçou explodir toda a ordem política pós-impeachment.

O processo, agora, arrasta-se em entrechoques pronunciados a meia voz. Deram-se há pouco, na Polícia Federal, os depoimentos de Rocha Loures e de um executivo da Rodrimar, supostamente beneficiária -assim como a JBS- de um decreto que prolongava o arrendamento de áreas nos portos do país.

O segundo afirma que o primeiro "era um importante intermediário" nas negociações em torno do decreto, editado em 2017. O ex-auxiliar de Temer nega tudo.

Registraram-se, contudo, contatos entre Rocha Loures e o então ministro dos Transportes, Maurício Quintella, discutindo a medida. Gravação telefônica dá conta das comemorações entre ambos quando o decreto se oficializou. "Foi um golaço", diz o ministro.

Teriam sido um prêmio a Michel Temer os R$ 500 mil recebidos por Loures poucos dias antes?

Embora sejam mais do que convincentes os sinais da atuação de Loures como lobista no centro do poder federal -e comprometedora ao extremo a atitude do presidente ao indicá-lo como interlocutor a um magnata afundado em suspeições-, o caso se dilui agora em meio a minúcias e contra-argumentações processuais.

Sabe-se de antigas ligações entre Temer e as atividades portuárias na cidade de Santos (SP). Ocorre, como ressaltam seus defensores, que o decreto não atendia a reivindicações ligadas a essa área.

Seja como for, restam os fatos essenciais: a mochila, o meio milhão, a conversa apontando Rocha Loures. Os depoimentos divergentes na PF correspondem ao que se espera num ambiente marcado pela completa promiscuidade entre interesses públicos e privados.

Tais aspectos concorrem, naturalmente, para que se imponha o aprofundamento das investigações do caso -em que o presidente da República é, sem dúvida, o responsável pelos sussurros finais.

a história de Ciro não é de maluco, não.

Ciro Gomes é maluco? 

Celso Rocha de Barros 


Certo, depois da entrevista de Jair Bolsonaro para a Folha na quinta passada, o sarrafo para se dizer que alguém falou besteira em entrevista subiu. Mas, enfim, pelo padrão vigente até quarta-feira, Ciro Gomes fala muita besteira em entrevista. Tem alguma coisa que não funciona na cabeça de Ciro e o faz, uma ou duas vezes por ano, perder 50 pontos de QI bem na hora em que devia estar explicando para o grande público por que votar nele seria uma boa ideia. Ou é isso ou Ciro tem um gêmeo burro que de vez em quando pula na frente dos microfones e fala besteira sobre o papel que sua mulher vai ter no seu governo, ou sobre dar tiro nos outros. Se for a segunda explicação, não vai ter jeito, o PDT vai ter que mandar matar esse cara.

Falando em PDT: depois que saiu do PSDB, Ciro fez uma grande peregrinação por pequenas legendas de esquerda, em geral ajudando-as a tornarem-se menos pequenas enquanto o abrigaram. Agora está no PDT, que parece finalmente disposto a deixar de ser só o partido do Brizola, posição difícil de manter depois que Brizola, enfim, morreu.

Para se consolidar como opção de esquerda, Ciro tem adotado um discurso bem mais à esquerda do que seria normal para alguém com sua trajetória.

Talvez dê certo. A viabilidade eleitoral de Ciro só vai começar a ser medida quando Lula for impedido de concorrer pela Justiça. O discurso à esquerda de Ciro procura atrair os lulistas que ficarão sem candidato.

Com isso, à persona de maluco, Ciro soma um discurso econômico que, a esta altura do campeonato, não me parece particularmente são. Pelo amor de Deus, não deixem o gêmeo doido chegar perto do Ministério da Fazenda.

Mas eu tenho o direito de lamentar que a candidatura de Ciro não reflita melhor sua história. Porque a história de Ciro não é de maluco, não.

Ciro foi o primeiro governador eleito pelo PSDB, o único eleito antes do Plano Real. Na maioria das avaliações, foi um bom governador. Participava do grupo de Tasso Jereissati, cujo legado no Ceará foi, no geral, positivo. Foi ministro durante o Plano Real, e foi um ministro razoável. Fez uma grande abertura comercial, aliás. FHC o cogitou para ministro da Saúde, Lula lhe deu ministérios importantes, e em nenhum momento, no exercício desses cargos, Ciro saiu correndo pelado pelo ministério.

Além disso, seu irmão e aliado, Cid Gomes, teve um desempenho muito bom como prefeito de Sobral (CE); eu, particularmente, não voto em ninguém neste ano que não prometa estender a experiência educacional de Sobral para o resto do Brasil. Dilma colocou Cid como ministro da Educação. Eduardo Cunha o tirou do cargo.

Fica, portanto, a questão, que, aliás, já coloquei aqui para Lula: se eu votar em Ciro, estou votando no tucano de esquerda que foi bom ministro de Lula ou no maluco que diz que vai reverter imediatamente todas as reformas de Temer? Porque essa última ideia é tão ruim que, se Bolsonaro a propusesse, pareceria idiota mesmo se comparada às outras ideias de Bolsonaro.

Se Ciro conseguir renovar o programa do PDT com sua experiência de ex-tucano e ex-lulista, a política brasileira sairá melhor, mesmo se Ciro perder. Mas, se for só para repetir o discurso da esquerda dos anos 50, estarei entre os que lamentarão o desperdício de candidato.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

não é todo dia que se vê cobra engolindo lagarto


Fotógrafo registra cobra engolindo lagarto perto de sambódromo no interior de SP
Falsa coral se enrolou no réptil e o devorou em aproximadamente 30 minutos. Zootecnista de Bauru explica que animal faz parte da dieta da cobra, que não é venenosa.

Após sufocar o lagarto ameiva, a falsa coral engoliu começou a engolir sua presa (Foto: Junior Esteves)

Lagarto ficou totalmente imobilizado pela cobra que se enrolou em volta de seu corpo (Foto: Junior Esteves)


Perdoem-me por dizê-lo, mas, se juízes querem agir como revolucionários ou grandes reformadores, escolheram a profissão errada. Deveriam ter abraçado a guerrilha ou, ao menos, a política.

Entre a moralidade e o caos.

Helio Schwartsman 


Perdoem-me por dizê-lo, mas, se juízes querem agir como revolucionários ou grandes reformadores, escolheram a profissão errada. Deveriam ter abraçado a guerrilha ou, ao menos, a política.

Gostemos ou não, o Judiciário foi concebido para ser o mais conservador dos Poderes da República. Sua missão institucional não é a de promover mudanças sociais, mas sim de dar segurança jurídica, isto é, um horizonte de previsibilidade aos diversos agentes sociais. Juízes mais do que quaisquer outros atores deveriam ter alergia a provocar grandes guinadas. Esse papel, que é importantíssimo, cabe a políticos e a movimentos da própria sociedade.

Até acho que existe espaço para o chamado ativismo judicial, mas ele deve limitar-se à ampliação de direitos individuais já contidos em princípios gerais enunciados na Carta que o Parlamento, por alguma razão, não consegue atualizar. Um bom teste prático é olhar para direitos que já tenham sido consolidados num bom número de democracias mais maduras, como a despenalização do consumo de drogas e do aborto. Em casos assim, creio que as cortes podem "inovar", optando pela autocontenção nas demais situações.

Parece-me especialmente contraproducente quando tribunais "inovam" ao tomar decisões sobre o processo político, por mais nobres que pareçam seus motivos. Infelizmente, é o que vem acontecendo numa escala cada vez mais preocupante. Juízes já não hesitam em inventar e desinventar regras para prender políticos e afastá-los de seus cargos e começaram a palpitar até na nomeação de ministros, antigamente uma atribuição do Executivo.

É verdade que o artigo 37 da Constituição diz que todos os atos da administração pública devem ser pautados pela moralidade. Mas existem quase 20 mil juízes no país. Se cada um deles se sentir livre para impor a sua concepção de moralidade, teremos o caos e não a moralidade.

Hoje, com muita tristeza, podemos acrescentar a essa lista selecionada o nome honrado e competente de Carlos Heitor Cony. Já temos saudade dele.

A memória de Cony 

Arnaldo Niskier



Meu conhecimento e consequente amizade com Carlos Heitor Cony caminhavam para os 50 anos. Foi em 1968 que nos conhecemos, na bucólica residência de Betinha Lins do Rego, filha do escritor José Lins do Rego (1901-1957), que era proprietária de uma linda casa em Teresópolis, na serra fluminense.

Cony tinha saído do "Correio da Manhã" e perguntei se gostaria de conhecer Adolpho Bloch (1908-1995). Com a resposta afirmativa, fiz as apresentações. Criou-se uma amizade para toda a vida.

Cony foi uma peça importante na engrenagem que levou a revista "Manchete" à liderança nacional. Não só ele escrevia textos admiráveis, como também livros que fizeram muito sucesso, como os que se referiram à saga de JK no Planalto Central. Além, naturalmente, dos que faziam parte da sua obra literária, como o insubstituível "Quase Memória", escrito em 1995.

Com o seu talento polifacetado, acabou sendo peça-chave de uma série de publicações das empresas Bloch, como as revistas "Fatos & Fotos" e "Ele Ela", além naturalmente da clássica "Manchete".

No ano 2000, tive o privilégio de ser escolhido orador para a recepção de Carlos Heitor Cony na Academia Brasileira de Letras. Fiz seu elogio, com prazer imenso, e com ele convivi nesses 18 anos, acompanhando seu sucesso também nesta Folha e na rede CBN, onde ele se apresentava diariamente. Sempre bem sucedido, curtindo os filhos Regina, Verônica e André.

Cético e irônico, pintor nas horas vagas, Cony escreveu 65 livros, entre os quais "O Ventre; "Pessach, A Travessia; "Pilatos" e o "Quase Memória", este uma mescla de ficção e autobiografia, que marcou a sua volta ao livro, depois de 22 anos sem publicar qualquer romance. Seu estilo foi marcado pela preocupação com a condição humana.

Com dificuldades de dicção, foi matriculado pelos pais no seminário São José, no Rio. No fim da vida, confessou, numa reportagem, que jamais deveria ter abandonado o seminário. Teria sido um bom padre?

Aliás, devo lembrar um encontro que tivemos em Roma, no ano 2000, com o cardeal e acadêmico dom Lucas Moreira Neves (1925-2002). Depois de uma visita ao Vaticano, fomos almoçar num restaurante em Roma. O cardeal pediu para falar a sós com Cony. Era convite para que ele voltasse à Igreja. Naquele momento, a cantada não funcionou.

Cony teve uma grande paixão pela cachorrinha Mila, presente de Adolpho Bloch que lhe fazia companhia enquanto escrevia suas crônicas. Dizia: "Amá-la foi minha resposta, e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam e contra aqueles que não aceitam os que se amam."

Costumava confessar que o sobrenome Cony seria uma corruptela de Cohen, de origem judaica. Mas admiração mesmo tinha pelos escritores cariocas Machado de Assis (1839-1908), Lima Barreto (1881-1922) e Marques Rebelo (1907-1973).

Hoje, com muita tristeza, podemos acrescentar a essa lista selecionada o nome honrado e competente de Carlos Heitor Cony. Já temos saudade dele.

ARNALDO NISKIER, professor e jornalista, é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), presidente do CIEE/RJ (Conselho de Integração Empresa-Escola) e doutor honoris causa pela Unama (Universidade da Amazônia)

Mas eu preferia que dona Adquira tivesse existido.

Laurinda, Olivia e Adquira 

Ruy Castro



Há tempos ("A pranteada senhora", Painel, 4/11/2016), falei aqui de como, ao ler os anúncios funerários do "Globo", pensei ver a comunicação do falecimento de uma senhora chamada Adquira Carneiro Perpétuo.

Não sabia quem era, mas aqueles sobrenomes me diziam alguma coisa —talvez fosse a mãe de um antigo colega de faculdade ou amigo. A curiosidade aumentou quando, pelas semanas seguintes, sucessivamente, o anúncio voltou a sair— e não eram convocações para a missa de sétimo ou 30º dia. Era como se dona Adquira morresse toda semana e cada morte justificasse um anúncio.

Na época, por falta de espaço, não pude falar sobre a curiosidade que seu nome me despertou. Adquira Carneiro Perpétuo me lembrava Laurinda Santos Lobo, protetora das artes no Rio dos anos 1910 e 1920 e por cujo "salon", em Santa Teresa, passaram Caruso, Nijinsky, Isadora Duncan e outros grandes do canto e da dança. Lembrava-me também Olivia Guedes Penteado, sua correspondente paulista, que vivia arrastando Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral para banquetes pela Europa antes que eles aderissem à antropofagia.

Donas Laurinda e Olivia eram mulheres ricas, finas e com paixão por artistas. A cultura brasileira lhes deve muito. Eram de um tempo em que alguns membros da nossa elite reservavam parte de seus ganhos para contribuir para o aprimoramento nacional. Talvez dona Adquira estivesse nesse caso.

E só então caiu-me a miserável ficha. Não havia nenhuma dona Adquira. Alguém estava apenas oferecendo pelo jornal um carneiro perpétuo no Cemitério São João Batista. E dava até o valor: R$ 60 mil. Só sei que, desde então, o carneiro deve ter sido adquirido, porque o anúncio nunca mais saiu.

Se, sem querer, contribuí para esta venda, tudo bem. Mas eu preferia que dona Adquira tivesse existido.

seria a loucura?

O que vem após a religião?

Vladimir Safatle





Não seria difícil reconhecer que uma das questões a assombrar as sociedades contemporâneas é: o que vem após a religião? Ou mesmo se é possível e desejável falar em um após a religião.

É inegável que o laicismo de nossas sociedade ocidentais é, na verdade, uma construção da ordem das ilusões. Deus está presente nas falas do presidente dos Estados Unidos, no nome do partido da primeira-ministra alemã, nos discursos dos infrequentáveis deputados brasileiros, entre tantos outros.

Mas não é apenas nessa dimensão explícita da intervenção política que encontramos Deus.

Não seria possível nem sequer pensar nossa psicologia, ou seja, nossas noções de personalidade, de interioridade, de unidade, identidade, responsabilidade, sem compreender o impacto das construções teológicas como o livre-arbítrio, a revelação e o julgamento das minhas ações.

Não haveria nem sequer a noção de unidade da consciência sem que, antes, houvesse as construções calvinistas sobre a predestinação. Pois, sabendo Deus já de antemão se serei ou não salvo, só me resta agir como se já estivesse salvo, construindo uma unidade de conduta e autoinspeção que não pode mais ser minorada através do recurso a sacramentos como a confissão.

Ou seja, a religião está presente nos pontos mais recônditos da constituição moderna da individualidade.

Mesmo o caráter anticlerical da luta iluminista contra as superstições religiosas e pelo advento de uma história marcada pela teleologia do progresso não poderia ser pensável sem a secularização da noção teológica de providência.

Foi apenas a defesa da irredutibilidade da contingência no interior dos processos de desenvolvimento, sociais ou biológicos, que nos retirou, pela primeira vez, do horizonte estrito do quadro teológico.

Diante disso, as discussões a respeito da laicidade de nossas sociedades tocam, normalmente, pontos muito superficiais do problema. O verdadeiro problema não são apenas os crucifixos em repartições públicas ou o "Deus seja louvado" nas cédulas de dinheiro.

O problema diz respeito ao que nos tornamos depois de séculos de hegemonia religiosa e no que podemos nos tornar depois disso. Pois não teria sido exatamente quando ela deixou de estar explicitamente à frente que a religião ficou mais indestrutível, voltando constantemente à tona de forma, muitas vezes, inesperada?

No entanto livrar-se disso passa por uma operação mais complexa do que a simples redução da religião às formas da regressão social. Mesmo a crítica da estrutura teológico-política foi muitas vezes acusada de se sustentar em outras formas de construções teológicas, como o panteísmo.

De toda forma, seria fácil lembrar aqui o que, da experiência religiosa, é expressão do medo e da esperança. Dois afetos que, cada um a sua maneira, perpetuam estruturas de servidão. Mas –e esta não deixa de ser uma via explorada de forma reiterada pela filosofia do século 20– seria melhor começar por se indagar o que, no interior dessa mesma experiência religiosa, sustenta-se pelo gozo.

Todo poder é uma promessa de gozo, e não poderia ser diferente com a experiência religiosa.

Hegel, por exemplo, colocou-se o problema sobre o após a religião. Ele compreendia que pensar tal questão era uma tarefa filosófica fundamental. Mas sua resposta não passava pela redução da religião à simples forma da regressão social. Na verdade, tratava-se de lembrar o que, na religião, era a forma inicial de algo que só poderia ser desenvolvido fora dela, como se ela germinasse o que precisaria desenvolver realmente apenas em um "após".

Por exemplo, era a religião que produzia, pela primeira vez, as formas sociais da relação à incondicionalidade. Formas essas que acabariam por explodir o caráter representacional do próprio discurso religioso.

Nesse sentido, se a religião retorna com força, não seria por que ela é consciente de uma forma de gozo que outros discursos sociais não são mais capazes de integrar? Pois o entusiasmo não é apenas patologia, que o digam a arte e a política. Mas em um mundo no qual essas duas dimensões da experiência são reguladas pelos limites do possível, o convite para o retorno à religião aparecerá para alguns como irrecusável.