Almanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

o cara tá bem assessorado, non?

O presidente eleito disse ter tomado conhecimento de que o banco estatal gastara "cerca de R$ 2,5 bilhões em publicidade e patrocínio neste último ano". A Caixa nega a veracidade da informação
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diplomado ganha dois prêmios na França. não é preciso saber francês para entender, né?

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Aéreas já são estrangeiras

Reserva de mercado é quase ficção ou empecilho que pode dificultar investimentos.

Vinicius T Freire 


As companhias aéreas que fazem voos domésticos são controladas por brasileiros, como manda a lei? Sim, se a gente acredita em ficções burocráticas. Sim, se a gente ignora a composição do capital total dessas empresas e outras parcerias, fatores que determinam o rumo das operações dessas firmas.

O governo baixou medida provisória (MP) que dá cabo dessa quase ficção nacionalista, da determinação legal de que 80% das ações com direito a voto das companhias aéreas sejam de propriedade de brasileiros.

Editar MP com essa finalidade é uma esculhambação, é verdade, até porque a única urgência da medida é facilitar injeção de capital na Avianca, empresa no bico do corvo. Ainda assim, essa nova regra dá cabo de uma regulação que pode criar empecilhos a investimentos e era de interesse de um ou outro empresário, não do mercado de aviação.

Importante é saber como regular o negócio, evitar oligopólio, sabotagens várias das regras de mercado e descaso em geral com o consumidor. Disso pouco se fala.

A Gol é a empresa com maior participação brasileira no total de seu capital, a família Constantino. Mesmo assim, mais de um terço da companhia está na mão de terceiros, em especial da Delta, da Air France KLM e de um monte de fundos de investimento.

A Gol tem uma parceria operacional com a Air France KLM, que aliás é em parte propriedade da Delta.

A Gol tem 33,3% do mercado de passageiros. Em segundo lugar, vem a Latam, com 30,4%. A Latam do Brasil é na prática subsidiária de uma multinacional sob controle de uma família chilena, os Cueto, embora com participação relevante ainda da família Amaro nos negócios.

A Azul tem 22,9% do mercado. É controlada por David Neeleman, que é brasileiro e americano, embora a nacionalidade seja irrelevante, em termos de negócio. Neeleman tem pouco mais de 5% do capital total e, ele mesmo, é uma espécie de multinacional do setor, com participação relevante na TAP portuguesa, por exemplo.

A Azul é ainda das famílias donas da Trip, da United Airlines e de um monte de fundões internacionais de investimento.

A Avianca, que pediu recuperação judicial, tem 12,6% do mercado. É na prática de Germán Efromovich, que é um pouco ou simultaneamente brasileiro, colombiano, polonês e boliviano, embora tal peculiaridade também não seja o essencial.

Ele é controlador de uma holding que tem companhias aéreas em vários países, também uma espécie de múlti.

Nota-se, portanto, que o mercado é quase 100% dominado por empresas em processo mais ou menos avançado de internacionalização de capital, gestão e operação. Suponha-se, no entanto, que alguém apareça com bons argumentos a favor da maioria brasileira no controle dessas empresas. E daí?

Como será possível impor tal decisão caso brasileiros não tenham capital bastante ou não queiram controlar tais empresas? Por que, mesmo sob reserva legal de mercado para brasileiros, as empresas não se tornaram cada vez mais "nacionais"? Na verdade, as empresas nacionais quebraram operisticamente, mesmo com favores do Estado, ou se associaram a estrangeiros.

Sem abertura do mercado, haveria investimentos suficientes nas empresas domésticas? Note-se, enfim, que o capital estrangeiro terá de constituir empresas aqui no Brasil, a fim de operar no mercado aéreo doméstico, como o fazem montadoras de carros ou de eletrodomésticos, siderúrgicas, distribuidores de eletricidade e até varejistas.

vinicius.torres@grupofolha.com.br

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

o Brasil que 'queremos'.


Paris queima

O modelo de neoliberalismo com rosto humano entrou em colapso - 

Vladimir Safatle


As cenas da França em chamas há semanas são fortes o suficiente para causar um impacto mundial. Mesmo diante das concessões do governo Macron às exigências dos manifestantes, as mobilizações parecem não esmorecer.

Estudantes secundaristas bloqueiam escolas, universidades estão paradas, há ameaças de greves e discussão sobre uma paralisação geral.

É claro que o modelo de um "neoliberalismo com rosto humano" entrou em colapso em um período muito curto de tempo. A saída por tentar recuperar o que seria uma espécie de centro político liberal só se sustenta com doses cada vez maiores de violência policial e estado de segurança máxima.

Só nas manifestações do dia 8 de dezembro houve mais de 1.500 prisões. Isso diz muito a respeito dos modelos de resposta do governo francês.

Não deixa de ter sua ironia o fato de os manifestantes se identificarem pelo uso de um colete amarelo, normalmente usado em situações de emergência ou em situação nas quais trabalhadores devem se fazer visíveis.

Há dois problemas de base, para além da dispersão natural de pautas e grupos: a invisibilidade e a pauperização. Ou seja, uma invisibilidade que é, ao mesmo tempo, política e econômica.

Ela é a expressão de uma inexistência política, de uma massa que deve a todo momento se submeter aos ditames da tecnocracia do Estado e das pressões da "racionalidade" dos agentes econômicos hegemônicos, sem nunca ser ouvida em suas inquietudes e inteligência prática. Massa que se resume à operadora de constituição de eleitores conscientes em períodos esparsos.

Por isso, mobilizações da natureza que a França conhece (e elas serão cada vez mais constantes, em todos os lugares) são inicialmente a tomada de consciência da impossibilidade de se governar —ou, ao menos, da impossibilidade de se governar como até o momento se governou.

Nossas sociedades se batem contra as suas próprias paredes para tentarem se livrar de uma forma de governo que não lhes serve mais. E isso pode nos levar tanto ao pior quanto ao melhor.

Pois talvez estejamos a assistir ao embrião de um longo processo histórico de invenção de uma democracia que está por vir, mas que no seu caminho encontrará derivas e regressões sociais autoritárias.

Mas esse talvez seja o caminho inevitável para a constituição de um verdadeiro poder popular, no qual as decisões e deliberações estarão em vínculo contínuo com aqueles que até então foram invisíveis.

Mas é claro que tal invenção política é motivada pela consciência cada vez mais clara daquilo que não engana, daquilo que nenhum discurso saberia como esconder ou negar, a saber, a pobreza.

A experiência material do empobrecimento não poderá ser escondida por mais tempo sob a capa da responsabilização individual dos fracassos, do "você não foi capaz de ser o empreendedor de si mesmo, de inovar".

Chega uma hora em que o empobrecimento mostra aquilo que ele realmente é: o mecanismo fundamental de sujeição social e de consolidação de interesses de classe.

Quando a pauperização fala em todos os poros da vida social, "vencedores" de sempre à parte, a solidariedade em relação à crença de que somos governados da melhor forma cai por terra.

No entanto, como vemos que a crise econômica não é mais um momento de "destruição criativa", mas uma forma estável de governo, e que a crise é uma forma de gestão social que não passará, o caráter explosivo da espoliação econômica tende a passar à frente dos fatos.

Que Paris seja uma das primeiras cidades a queimar, eis algo que parece querer repetir outros momentos históricos. Sem esquecer que, quando as ruas queimam, o fogo rapidamente se alastra.

Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

essa família realmente possui um certificado de 'boa conduta'.

Ex-assessora de Flávio Bolsonaro acumulava cargo na Alerj, emprego e estudo... 

Reprodução/Facebook

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Não tem jeito. É a natureza do escorpião.

A natureza do escorpião


Mariliz Pereira Jorge 


Damares Alves entremeia declarações lúcidas com outras que beiram a insanidade; 


Damares Alves, futura ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, tinha me deixado uma impressão razoável numa de suas primeiras entrevistas. “Casamento gay é um direito civil adquirido”, disse sobre o assunto que tem tirado o sono dos homossexuais.

Mostrou empatia ao se manifestar sobre a violência que sofrem transexuais e prostitutas. Colocou-se a favor dos indígenas e afirmou que “nenhum homem vai ganhar mais que uma mulher”. Outra prioridade será a proteção de crianças e adolescentes. Vítima de abuso sexual aos seis anos, Damares tem uma luta pessoal no combate à pedofilia.

Mas, como na parábola em que a natureza do escorpião não impede que ele mate o sapo, a pastora não demorou a mostrar que, apesar de parecer bem-intencionada, muitas das suas ideias são arraigadas em uma essência religiosa. Ela entremeia declarações lúcidas com outras que beiram a insanidade. A grande dúvida desde já é o quanto o estado laico será afrontado por propostas conservadoras atreladas aos seus preconceitos.

Bobagem perguntar o que ela pensa sobre o aborto. É contra, claro. Mas é bom lembrar que ter uma mulher num cargo emblemático não garante a defesa de causas feministas. Tivemos uma presidente, de esquerda, que jamais levantou a bandeira de ampliação dos direitos reprodutivos. O grande problema é que esse governo incite e apoie um Congresso também conservador a tornar o aborto ilegal até em casos de estupro.

O Estatuto do Nascituro, defendido por Damares, se for aprovado, prevê uma bolsa para a mulher que foi estuprada e decidiu não interromper a gravidez. Ela diz que não altera o que está previsto no Código Penal. Duvido. Não vai demorar para que alguém defenda que o apoio financeiro do Estado é suficiente para que abortos sejam proibidos mesmo nesses casos.

Não tem jeito. É a natureza do escorpião.

Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.

habemos chicos

Preocupa al Papa la suerte judicial de líderes en América Latina
Francisco recibe un informe detallado sobre los procesos judiciales afrontados por ex presidentes latinoamericanos y otros líderes sociales de la región; muestra preocupación por el uso selectivo de la justicia por intereses políticos


50 anos essa noite. Tempo para refletir.

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excelente

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"Não pensei, não penso e não pensarei"

Para a história

Janio de Freitas

A discussão sobre o AI-5 é feita com incorreção histórica ou dúvidas. 



Os 50 anos do AI-5 foram percorridos, de ponta a ponta, por um problema de incorreção histórica ou, no mínimo, de dúvida. Sua intocada existência em nada influencia a visão estabelecida do Ato brutal, mas importa para a caracterização do que o antecedeu e o seguiu.

O entendimento de que o AI-5 foi um golpe dentro da ditadura ainda é, apesar de sua fundamentação, secundário na interpretação do episódio. Desde o primeiro momento, prevaleceu a dedução de que o endurecimento do regime refletia o ditador Costa e Silva. Assim foi, ou porque se sucediam contestações à ordem ditatorial, e o AI-5 repunha a primazia da força, ou porque Costa e Silva ficara identificado como chefe da linha mais dura. Motivos que, aliás, se completavam.

Muitos fatos não se encaixam nas duas explicações. A começar da reunião, nos primeiros dias pós-golpe, de alguns governadores chamados por Costa e Silva ao então Ministério da Guerra, no Rio. A Presidência estava com o interino de sempre, Ranieri Mazzilli, e o Congresso vivia as vésperas de indicar o presidente para complementar o mandato interrompido. Disso o general queria falar. Para advertir os governadores de que se enganavam no apoio ao chefe do Estado-Maior do Exército, general Castello Branco, da corrente militar contrária à devolução do poder aos civis, no tempo previsto. Não foi explícito, mas a insinuação de um civil para o cargo não era imperceptível na exposição.

Carlos Lacerda, pré-candidato nas eleições presidenciais do ano seguinte, insurgiu-se contra as informações e argumentos de Costa e Silva, que traduziu como manobra para prejudicá-lo: Castello também era udenista, e Costa e Silva tinha proximidade com o PSD de Juscelino. O general insistiu em vão. Os udenistas Magalhães Pinto e Ney Braga, também aspirantes à Presidência, reforçaram Lacerda.

Ao final dos três anos seguintes, que Castello presidiu com a supressão das eleições presidenciais, Costa e Silva venceu a dura batalha interna para sucedê-lo. Seu primeiro ano de presidente foi tranquilo, com plena liberdade de imprensa, nenhuma cassação, Congresso livre de pressões, a oposição ativa a ponto de Lacerda, Juscelino e Jango se juntarem em Frente Ampla pela redemocratização. O chefe da linha dura fazia o país entrever liberdades e direitos. Os estudantes aproveitaram.

O que diziam ser a linha branda, exemplificada em Castello, passou a cobrar com parte da imprensa (a de sempre) providências contra "os agitadores". Costa e Silva abriu 1968 com resposta inesperada: no primeiro dia 2, mandou ouvir os estudantes. Lacerda elevou o tom, propagando que os vencedores e os vencidos de 64 iam fazer, unidos, "a verdadeira revolução". Os indícios de inquietação dos extremistas militares se sucediam. Costa e Silva, sob pressões múltiplas, em março foi falar na Escola Superior de Guerra. E, para irritados e aliviados, defendeu a oposição como necessária para vigiar o governo.

A morte do estudante Edson Luís provocou um movimento de massas sem precedente. Houve choques numerosos com as PMs em vários estados. Os apoiadores civis da ditadura, como se pôde ver na imprensa, estavam atônitos. O recurso a ato institucional, arma de Castello, voltava a ser cobrado. A proposta de estado de sítio logo aparecia. Ambos eram assuntos diários. Costa e Silva os abordou um mês depois da fala na ESG: "Não pensei, não penso e não pensarei" nessas medidas. E, para pasmo de todos os lados, se dispôs a conversar com uma comissão representativa das manifestações.

A ditadura estava dividida entre Costa e Silva e uma titubeante articulação contra a linha do governo. Em dezembro, o AI-5 foi levado a Costa e Silva, um texto produzido por seu ministro da Justiça, Gama e Silva. Traição? Sendo, não foi única no ministério. Costa e Silva jogou o jogo. Assinou o Ato. O que lhe restava era repetir o que fez para derrotar a obstrução dos castelistas e chegar à Presidência: levantar forças a seu favor. Morreu antes disso. Seu acidente vascular cerebral foi dado por muitos como efeito do golpe que sofrera.

Quando divulgou sua equipe para o governo, entre jornalistas, escritores e políticos houve uma surpresa: Heraclio Salles, intelectual de alto nível, machadiano, crítico brilhante de literatura, jornalista de política extraordinário, democrata inabalável, seria o secretário de imprensa do ditador Costa e Silva. Emitido o AI-5, Heraclio Salles se demitiu. Na preparação do governo, Costa e Silva convencera-o de que mudaria o regime, e precisava do seu auxílio.

Costa e Silva como governante e seus anos na Presidência esperam ser estudados, para que o país saiba o que foram, afinal: o do AI-5 ou da redemocratização que o golpismo retardou por mais de 15 anos.

Janio de Freitas
Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha

Os aiatolás e o comércio brasileiro

Parte dos responsáveis pela política externa de Bxonaro tem ideias ideológicas

Vinicius Torres Freire




O acordo para facilitar o comércio entre o Mercosul e a União Europeia vai ficar mais difícil no governo de Jair Bolsonaro, disse Angela Merkel, chanceler da Alemanha, o que causava um certo alarido na mídia desta quarta-feira (12).

Não era para tanto nem pelo motivo certo. Mais importante é saber se as ideias da futura equipe econômica sobre comércio exterior vão predominar ou se devem ser sabotadas pela bizarrice jacu e intelectualmente lúmpen de responsáveis pela política externa no bolsonarismo.

Preocupam mais certas respostas estereotipadas que parte da turma bolsonarista dá a qualquer questão de política de comércio exterior: “Mais acordos bilaterais, menos acordos com blocos econômicos”. A frase feita não quer dizer grande coisa, quando não é mera macaquice do trumpismo.

Relações bilaterais com mais quem? Cerca de 23% das exportações brasileiras vão para a China, que vem sendo espezinhada por aiatolás do bolsonarismo. Cerca de 16% das vendas vão para a União Europeia, um bloco; 12% para os Estados Unidos, 9% para o Mercosul, outro bloco. O restante vai ficando meio picado.

Note-se, em primeiro lugar, que o Brasil vende metade de suas mercadorias para as três principais economias do mundo e já tem relações comerciais com quase todos os países que se interessem em comprar alguma coisa daqui, com peso desproporcionalmente pequeno talvez para o Japão.

Em segundo lugar, entre os mercados maiores, a União Europeia é o que relativamente mais encrenca para os produtos brasileiros.

Terceiro, acordos são apenas parte do negócio e da história das relações comerciais, é constrangedor ter de escrever tal coisa.

A fim de vender mais, o Brasil tem de produzir mais e melhor, o que depende em parte de importar mais máquinas e insumos de qualidade. Ou seja, depende da implementação prudente e capaz do programa do Ministério da Fazenda, não o dos aiatolás.

Por fim, ocioso dizer também que não escolhemos clientes.

Baseada em ignorância sobre os benefícios do comércio exterior, muita gente diz que os Estados Unidos compram do Brasil mais “bens de maior valor agregado” do que os chineses. Não compram por boniteza, mas por precisão; um acordo comercial melhorado com os americanos não vai mudar muito essa situação.

Nossos maiores produtos de exportação são soja, petróleo, material de transporte (carros, aviões e partes) e minérios. Sim, mais da metade do valor das vendas de aviões do Brasil vai para os Estados Unidos (US$ 2 bilhões de US$ 217 bilhões do total de exportações brasileiras em 2017). Representa 0,07% do total das importações americanas.

O país não vende mais aviões para lá por falta de produto competitivo ou por falta de acordo comercial? Por falta de dinheiro americano é que não é.

Os chineses compram 65% da soja brasileira, 35% do petróleo, 49% dos minérios, 27% da carne.

Compram porque o Brasil tem bom preço e quantidade. Mas podem mudar de ideia, um dia. Sei lá, plantar soja na savana africana, comprar mais petróleo do Oriente Médio, mais ferro da Austrália.

Em suma, os problemas do comércio são tão multifacetados quanto os clientes e produtos do país. 
Não há política geral —isso é ideologia, como dizem bolsonaristas.

Importante é aumentar o comércio, o que depende de não atrapalhar as empresas, de boa política econômica, reformas e acordos com quem queira fazer negócio, bloco, país ou ilha.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Neblina na aposentadoria e nos juros

Indefinição sobre reforma de  é política e começa a inquietar donos do dinheiro

Vinicius Torres Freire

A mudança nas aposentadorias e nas pensões ainda não tem projeto definido porque Jair Bolsonaro ainda não se ocupou do assunto. Mesmo antes de chegar ao Congresso, a reforma da Previdência do próximo governo enfrenta problemas políticos.

A ala parlamentar bolsonarista diz o que quer sobre a Previdência porque simplesmente não recebeu diretrizes ou ordens do presidente eleito, que, por sua vez, diz nebulosidades preocupantes sobre a reforma porque dá ouvidos a seus articuladores políticos e "bases".

É o que se pode ouvir entre economistas do governo de transição de Bolsonaro. Políticos bolsonaristas e "bases", inclusive nas redes insociáveis, são refratários à mudança e não têm entendimento da crise que pode sobrevir caso a reforma vá para o vinagre ou seja muito aguada.

A inquietação entre negociantes de dinheiro e porta-vozes do mercado se espalha.

Por um lado, ouvem o presidente eleito e seus articuladores políticos dizerem em público que a reforma não pode ser dura, "matar idoso", que pode ser feita em até quatro anos, que não se pode bulir com servidores, que o Congresso vai desidratar qualquer plano de mudança etc.

Por outro lado, gente da futura equipe econômica trata do assunto em conversas informais com conhecidos na praça. Dentro do governo de transição, sentem a mesma indisposição reformista do entorno político imediato do presidente eleito.

Acreditam, porém, que tais conversas não indicariam uma inclinação firme de Bolsonaro. Dizem apenas que Paulo Guedes, futuro überministro da Economia, ainda não levou projeto claro para uma conversa decisiva com o futuro governo.

Os economistas dizem que têm uma reforma em mente, talvez com umas três variantes possíveis de estratégia de implementação, mas nenhum pacote de alternativas teria sido ainda apresentado ao presidente eleito.

De menos incerto é que se pretende apresentar um projeto básico bem assemelhado ao que Michel Temer enviou ao Congresso, com algumas emendas para torná-lo algo "diferente" e para que a economia prevista volte ao nível previsto na versão original da reforma.

Talvez alguma parte do projeto seja apresentada à parte, em particular alguma mudança que não dependa de mexida na Constituição.

O plano de capitalização (de Previdência baseada em contas individuais de poupança) viria de qualquer modo depois de aprovado o "bloco 1" da reforma, a mudança do sistema atual de aposentadorias e pensões, uma urgência fiscal.

Ainda não há sinais inequívocos de descrença no mercado, sinais nos preços, em taxas de juros, por exemplo.

Há taxas de prazo mais longo dando uma esticadinha, mas pode bem ser por qualquer motivo, como a escaladinha do dólar e outras tensões na finança internacional, que voltou a ficar estressada.

O clima doméstico é menos otimista, dada a desconversa sobre reformas, e o mundo lá fora não está ajudando nada, ao contrário.

Nas conversas com economistas da finança, nota-se um certo desânimo sobre as liberdades que Guedes terá para tocar um programa de reforma rápido e duro na Previdência.

No entanto, o povo que de fato mexe os bilhões para lá e para cá acha que, afora surpresas ou vazamentos essenciais, o próximo movimento decisivo ocorre em janeiro.

O fato é que se conhece quase nada dos planos de Guedes para a economia, muito pouco além do que se sabia durante a campanha. Dos planos de Bolsonaro, menos ainda.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

jb queima a largada

Depósito de assessor dispara todos os alarmes de quem investiga corrupção.
A verdade é que ninguém estava pronto para um escândalo desses já agora.

Celso Rocha de Barros



Acabamos de sair da pior campanha eleitoral de nossa história, e mesmo os derrotados da eleição estavam aproveitando a trégua para respirar e se reorganizar. A maioria dos eleitores brasileiros votou em Bolsonaro, e, como convém a maiorias eleitorais no mês entre a eleição e a posse, ainda se permite ter esperança com o novo governo. Em não se tratando de reeleição, alguma lua de mel sempre é concedida ao recém-eleito.

Até porque, qual a probabilidade de aparecer uma denúncia de corrupção quente, antes da posse, que não tenha aparecido na campanha?

Pois é.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou que Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador recém-eleito Flávio Bolsonaro, movimentou em 2016 e 2017 muito mais dinheiro do que poderia, plausivelmente, ter ganho com suas fontes de renda conhecidas. Entre os vários depósitos suspeitos feitos por Fabrício, R$ 24 mil para Michelle Bolsonaro, nossa nova primeira-dama.

O presidente recém-eleito, aparentemente, achou que ainda não estava suficientemente envolvido no escândalo e resolveu dizer que ele, Jair Bolsonaro, emprestou dinheiro para Fabrício Queiroz e que o depósito para a primeira-dama seria pagamento do empréstimo.

Olha, sinceramente, se era para inventar um negócio desses, era melhor ter pedido ajuda ao Olavo. Ele teria contado que Queiroz era do Foro de São Paulo, que o dinheiro havia sido roubado por George Soros usando a Lei Rouanet, que Bolsonaro nasceu no Quênia, enfim, algo que tampouco nos convenceria, mas, ao menos, nos manteria entretidos.

Assessor de político depositando dinheiro para a família do chefe é o tipo de coisa que dispara todos os alarmes de quem investiga corrupção. Na mesma hora em que as denúncias foram publicadas, por exemplo, o cientista político Sérgio Praça lembrou do caso do esquema de distribuição de dinheiro de PC Farias no governo Fernando Collor.

E, falando em gente que investiga corrupção, o que Sergio Moro pretende fazer? O novo ministro da Justiça não poderá continuar evitando perguntas sobre o assunto, e é bem ruim que as tenha evitado até agora.

Se um acusado da Lava Jato, sentado no banco dos réus, contasse essa história do empréstimo, Moro acreditaria?

Os bolsonaristas sabem que sofreram um golpe duro. Excepcionalmente, a bolsosfera calou-se. Afinal, o pessoal precisa manter sua credibilidade, e a tese do empréstimo de Bolsonaro para Fabrício não é tão plausível quanto, digamos, a história de que Haddad distribuiu mamadeiras com bico de pênis nas creches de São Paulo.

Por um lado, é terrível para o governo Bolsonaro que sua imagem de honestidade tenha trincado já na saída. É um governo eleito na onda da Lava Jato, um governo com Sergio Moro no Ministério da Justiça. É muito ruim que tenha sido pego fazendo uma operação com tanta cara de centrão.

Mas também é verdade que o clima de ressaca pós-campanha não favorece o tipo de onda de opinião pública que, com essa denúncia na mão, em outro momento, poderia ameaçar um mandato.

De qualquer forma, é melhor que Bolsonaro tenha como sustentar seu governo em mais do que sua reputação de incorruptibilidade.

Mês que vem começa o ajuste econômico.

Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).