Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

o Brasil (eu ia dizer o mundo, mas sejamos modestos) chafurda num atoleiro de palavras disfuncionais.

Além de política, econômica e moral, nossa crise é de linguagem

Sergio Rodrigues 



A crise brasileira assusta pela amplitude: é política, econômica, institucional, moral e quantos adjetivos se quiser acrescentar. É uma crise de linguagem também. Talvez não seja este o menor dos problemas.

Faz tempo que a linguagem –o conjunto de símbolos com que tentamos dar conta do mundo, um do outro, de nós mesmos– foi rebaixada à segunda divisão de nossas preocupações.

Vista como acessória, mero instrumento ou reflexo de instâncias mais sérias na administração da máquina-mundo, ela seria o domínio da irrelevância que no máximo distrai, representada pela literatura, ou da retórica que no mínimo engana, arte de políticos e marqueteiros.

Sem o poder de iluminar a escuridão que outras épocas lhe atribuíram, o isqueirinho Bic que restou desse fogo de Prometeu se apequenou diante do que, segundo todos, importa de verdade: finanças, tecnologia, ciência, planejamento econômico e outras concretudes de um mundo adulto e sem frescura.

Convém repensar essa hierarquia. Não para rebaixar as dignas atividades do parágrafo anterior, mas para revalorizar a linguagem sem a qual elas correm o risco de girar em falso num universo esvaziado de sentido.

Fabricar sentido é pedreira, sempre foi, e num tempo de mudanças tão aceleradas fica mais desafiador. "As coisas para as quais encontramos palavras são as que já dominamos", escreveu Nietzsche.

A frase aponta a liga de sucesso e fracasso em que é moldada a linguagem: com ela domamos o mundo chucro, mas este nunca para de dar pinotes e exigir novas formulações.

Ninguém precisa de filosofia para perceber que o Brasil (eu ia dizer o mundo, mas sejamos modestos) chafurda num atoleiro de palavras disfuncionais. A impressão de que chegamos –ah, agora chegamos mesmo!– a um beco sem saída tem muito a ver com isso.

Nosso brejo semântico apinhado de vaquinhas amplia seu rebanho toda vez que um liberal é chamado de "fascista" e um populista de centro-esquerda, de "comunista".

Ou quando os arautos do "golpe" tratam como denotativo esse uso figurado da palavra, enquanto a turma que suspira por "intervenção militar" evita chamar seu objeto de desejo pelo nome inescapável de golpe.

Nossa saúde cognitiva desce mais um degrau a cada negação cínica da evidência ululante, cada divergência de opinião tratada como falha moral, cada afago na cabeça do bandido pelo qual torcemos.

Não, neutralidade não existe: a guerra simbólica nunca vai dar trégua. Mas sem um mínimo solo comum, pactuado, social, as palavras tombam como mariposas úmidas e até uma guerra simbólica decente é impossível. Vira zona.

A lendária "palavra justa" perseguida por Gustave Flaubert não é justa só por ser exata. É justa por fazer justiça também.

Reconstruir esse solo comum não vai ser mole, mas a velha sabedoria cristalizada nos provérbios pode ajudar. Quando a Bíblia diz, no Deuteronômio, que não se devem usar "dois pesos e duas medidas", está perto do xis da questão.

Anos atrás, começou a circular na internet a lenda de que a expressão correta é "um peso e duas medidas". Como se as fontes históricas não existissem e a linguagem pudesse ser recriada na base do voluntarismo ignorante. Se não foi essa a origem de todo o problema, que lhe sirva ao menos de metáfora. 

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