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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Viva Caetano: 7.5

Ícone da Tropicália e MPB, Caetano Veloso foi preso e viveu no exílio na ditadura.

Artista, que completa 75 anos, acumula cinco décadas de sucessos e premiações. Polêmico, foi eleito pela ‘Rolling Stone’ o 4º maior artista da música brasileira

 Vanguarda. Caetano Veloso veste parangolé do artista plástico Hélio Oiticica


“Um dia, Caetano chegou pra ficar”, assim dizia o título da reportagem assinada pelo crítico Sérgio Bittencourt, na edição do GLOBO de 25 de novembro de 1966. O texto anunciava a chegada ao Rio de Janeiro de um “compositor jovem, vindo da Bahia”, que acabara de conquistar o prêmio de melhor letra no II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, com a música “Um dia”, interpretada pela cantora Maria Odete. Na ocasião, “o moço simples, de Santo Amaro da Purificação”, decretava, em tom profético:

— Começo a sentir os primeiros sintomas de uma nova virada. Ela está para acontecer, não tenham dúvidas. Eu quero estar na crista dessa virada, com todo o meu coração.

De fato, não demoraria muito para que Caetano Emanuel Viana Teles Veloso viesse a se tornar uma das referências da música popular brasileira. Versátil e universal, o baiano se converteu num dos mais influentes artistas de uma geração de ouro que despontou em fins dos anos 60, contando com os talentos de Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Maria Bethânia, Gal Costa, entre outros. Expoente do tropicalismo, ajudou a fundar e difundir o movimento de vanguarda no meio musical, abalando as estruturas da MPB.

Ao longo de uma carreira musical de mais de cinco décadas, o cantor e compositor gravou quase 50 discos e se tornou aclamado no Brasil e no exterior, acumulando diversas premiações e reconhecimentos. Entre eles estão o do jornal americano “The New York Times”, que, em 2002, o considerou um dos maiores compositores do mundo no século XX, e o da cultuada revista “Rolling Stone”, que, em 2008, o elegeu como o quarto maior artista da música brasileira de todos os tempos (os três primeiros são: Tom Jobim, João Gilberto e Chico Buarque).

No entanto, a biografia do artista também registra momentos difíceis, como a repressão da ditadura militar que o levou a viver no exílio, em Londres, por mais de dois anos. Como autêntico leonino, Caetano possui forte personalidade, traço que marca sua trajetória: com atitudes e opiniões firmes, ele não se esquiva de polêmicas, manifestando-se sobre os mais diversos assuntos, o que desperta ao mesmo tempo reações favoráveis e contrárias.

O menino Caetano nasceu, em 7 de agosto de 1942, na pequena Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Era o quinto dos sete filhos do funcionário público José Teles Velloso, que apreciava música e poesia, e da festeira e musical Dona Canô. Da família, intensamente ligada às tradições folclóricas da região, como o samba de roda, Caetano herdou a vocação artística e musical.

Logo cedo, mostrou interesse em desenho, pintura, cinema e aprendeu a tocar violão. Enquanto acompanhava o trabalho de cantores de rádios e músicos da bossa nova, apaixonou-se pela canção “Chega de saudade” (1959), do disco homônimo de João Gilberto, que se tornou sua principal referência artística. Entre 1960 e 1962, estimulado pelo Cinema Novo, escreveu críticas de filmes para o “Diário de Notícias”, de Salvador. No ano seguinte, iniciou o curso superior em Filosofia, na Universidade Federal da Bahia, e realizou seu primeiro trabalho na música, compondo a trilha sonora para a peça “Boca de ouro”, de Nelson Rodrigues, dirigida por Álvaro Guimarães. Em 1964, participou de espetáculos quase amadores em Salvador, como o musical “Nós, por exemplo”, ao lado da irmã Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé e Gilberto Gil.

Seu primeiro trabalho profissional na música, com pegada bossa-novista, veio em 1965, com o compacto “Cavaleiro/Samba em paz”, lançado pela RCA, enquanto acompanhava Bethânia na turnê do espetáculo “Opinião”, no Rio de Janeiro, cidade que escolheria para viver. Foi Bethânia, aliás, que o lançara ao mercado como compositor, pouco antes, com a gravação em compacto de “É de manhã”. Ainda influenciado pela bossa nova, Caetano gravou seu primeiro LP, “Domingo”, em 1967, em parceria com Gal Costa, emplacando sua primeira canção de sucesso (“Coração vagabundo”), e obtendo reconhecimento da crítica.

Ainda em 1967, casou-se com Dedé Gadelha, em Salvador, e enlouqueceu o público do III Festival de Música Popular, da TV Record, ao apresentar “Alegria, alegria”. Na ocasião, a música cantada por Caetano, acompanhado de guitarras elétricas do grupo argentino “Beat Boys”, causou enorme frisson, terminando em quarto lugar na competição. Junto com “Domingo no Parque”, também executada ao som de guitarras por Gilberto Gil e Os Mutantes, e classificada em segundo lugar, a canção lançou a base do som tropicalista — influenciado pela Jovem Guarda e pelos Beatles —, dando início ao movimento de vanguarda que provocou efervescência na música popular brasileira.

No início de 1968, Caetano lançou seu primeiro LP solo (“Caetano Veloso”), que contou com sucessos como “Soy loco por tí, America” e “Superbacana”, além da própria “Alegria, alegria” e da canção-manifesto “Tropicália” (com o verso “eu organizo o movimento”). O principal marco do Tropicalismo, no entanto, foi o lançamento, no ano seguinte, do álbum “Tropicália” ou “Panis et circensis”, em que Caetano e Gil — ao lado de Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat —, apresentavam uma inusitada mistura de estilos e sonoridades musicais, de raízes brasileiras e estrangeiras, firmando as bases do movimento. Ainda em 1968, em meio ao endurecimento do regime militar, Caetano apresentou no III Festival Internacional da Canção, da TV Globo, a canção “É proibido proibir”, sendo vaiado e desclassificado após realizar histórico discurso de improviso contra o público e o júri: “vocês não estão entendendo nada!”, gritou, na ocasião.
O estilo vanguardista e contestador de Caetano atraiu a atenção do regime militar, até que, em dezembro de 1968, ele foi preso, em São Paulo, junto com Gilberto Gil sob a acusação de terem desrespeitado a bandeira e o hino brasileiros durante uma apresentação. A delação, segundo revelou o compositor anos mais tarde, teria sido feita pelo locutor de rádio Randal Juliano, que noticiou o fato sem checar sua veracidade. Os dois foram levados para o Rio, tiveram as cabeças raspadas, sendo submetidos a interrogatório, e permaneceram detidos num quartel do Exército. Após quase dois meses, Caetano e Gil foram inocentados e autorizados a voltar para Salvador, devendo cumprir, no entanto, prisão domiciliar. Em julho de 1969, os militares decidiram que a situação dos dois só se resolveria com o exílio, e os autorizaram a realizar um show de despedida para arrecadação de fundos, partindo em seguida para Londres, na Inglaterra.

Antes de embarcar, Caetano deixara as bases de voz e violão de seu próximo disco, lançado ainda em 1969, com sucessos como “Atrás do trio elétrico” e “Não identificado”. No Velho Continente, Caetano gravou mais dois álbuns, mesclando canções em português e inglês, com temática saudosa e melancólica, e destaque para o sucesso “London, London”.

Em janeiro de 1971, o artista obteve permissão para retornar ao Brasil para a missa de 40 anos de casamento de seus pais, na Bahia. Na ocasião, foi interrogado por militares e se negou a atender um pedido para fazer uma canção elogiando a construção da rodovia Transamazônica. Caetano também pôde voltar ao Brasil em agosto, quando participou de programas de TV, entre eles um encontro histórico com seu “mestre” João Gilberto e Gal Costa, na TV Tupi.

O regresso definitivo ao país se deu somente em janeiro de 1972, ano em que nasceu Moreno, seu primeiro e único filho com Dedé. Ao longo da década de 70, gravou novos e importantes discos, como o clássico “Doces Bárbaros” (1976), ao lado de Gil, Gal e Bethânia, a partir de um encontro idealizado por esta última, e o elogiado “Cinema transcendental” (1979), com sucessos como “Menino do Rio”, “Lua de São Jorge” e “Beleza pura”.

Nos anos 80, viu sua popularidade crescer no exterior, onde passou a realizar um número maior de shows em grandes festivais, como o de Montreaux, na Suíça, e casas de espetáculos famosas, como o Olympia, em Paris, e o Carnegie Hall, em Nova York. No Brasil, obteve seus primeiros discos de ouro ao atingir a marca de cem mil cópias vendidas com “Outras palavras” (1981), que trazia os hits “Lua e estrela” e “Rapte-me, camaleoa”, e “Cores, nomes” (1982), com os sucessos “Queixa” e “Sina” — de Djavan, que consagrou, na canção, o verbo “caetanear”.

Cada vez mais pop, obteve, em seguida, seu primeiro disco de platina, com “Totalmente demais” (1985), que atingiu a marca de 250 mil cópias vendidas. Gravado ao vivo, a partir de show no Copacabana Palace, o álbum trouxe regravações de canções de outros artistas, com destaque para a faixa-título, proibida pelo regime militar três anos antes. Em 1989, o álbum “Estrangeiro” — já mais distante da pegada comercial dos trabalhos anteriores — foi aclamado pela crítica e rendeu ao cantor o seu primeiro Prêmio Sharp (atual Prêmio da Música Brasileira). Além do hit “Meia-lua inteira”, de Carlinhos Brown, o disco trazia a faixa “Branquinha”, dedicada à sua nova companheira, a atriz Paula Lavigne, com quem teve dois filhos: Zeca, em 1992, e Tom, em 1997.

Nos anos 90, Caetano apresentou novos trabalhos de destaque, como “Circuladô” (1991), “Tropicália 2” (1993), em parceria com Gil, celebrando os 25 anos do movimento, e “Fina estampa” (1994), uma releitura de clássicos latino-americanos, gravado em espanhol. Em 1998, com “Prenda minha”, atingiu pela primeira vez na sua carreira a marca de um milhão de cópias vendidas, obtendo seu primeiro e único disco de diamante, graças ao estrondoso sucesso da canção “Sozinho”, do compositor Peninha. Por fim, o disco “Livro” (1997) rendeu a Caetano seu primeiro Grammy, na categoria world music, e seu primeiro Grammy Latino, na categoria melhor disco de MPB.

Nos anos 2000, o artista retomou a pegada de discos com novas canções autorais, com destaque para “Noites do norte” (2000), Cê (2006) e “Zii e Zie” (2009), flertando com o rock e o underground. Na linha de releituras, gravou, em 2004, “A foreign sound”, seu primeiro disco totalmente em inglês, interpretando standards da música americana.

Somando-se aos trabalhos com Gil, com os Doces Bárbaros, e seu LP de estreia, com Gal Costa, entre os quase 50 álbuns da discografia de Caetano estão discos gravados em parceria com Chico Buarque (em 1972), sua irmã Maria Bethânia (em 1978), Jorge Mautner (em 2002) e o rei Roberto Carlos (em 2008). Suas composições fizeram sucesso ainda na voz de centenas de cantores, sendo um dos mais gravados da história da MPB.

Além de inúmeras vezes gravado no Brasil e no mundo, Caetano é um dos mais laureados da música brasileira, com dezenas de prêmios nacionais e internacionais, com destaque para a conquista de 19 troféus do Prêmio da Música Brasileira (é o terceiro maior ganhador do evento), e de dez Prêmios Grammy (dois no Grammy Awards e oito no Grammy Latino). O currículo de conquistas lhe rendeu a homenagem como “personalidade do ano” na edição do Grammy Latino de 2012.

Mas a trajetória de Caetano e sua importância para a cultura brasileira vão além. Camaleônico, adotou diversos estilos nos palcos, transitando entre os visuais hippie, andrógino, casual e clássico, lançando moda e inspirando novos artistas. Seguindo sua paixão pelo cinema, produziu trilhas sonoras para diversos filmes brasileiros e estrangeiros, e dirigiu o controverso “Cinema falado” (1986), em linguagem experimental, duramente criticado pelo Bonequinho do GLOBO em 4 de dezembro de 1986. Também ganhou as telas de cinema como ator nos filmes “Tabu” (1982) e “Sermões, a história de Antônio Vieira” (1989), de Júlio Bressane; e com sua história, contada nos documentários “Coração Vagabundo” (2008), do diretor Fernando Grostein Andrade, e Tropicália (2012).

Desde os anos 60, atuou como produtor musical e apadrinhou novos artistas. Também escreveu críticas e artigos em importantes jornais e revistas, sendo colunista do GLOBO entre 2010 e 2014. Foi objeto de estudos, tema de livros e escreveu ainda os seus, com destaque para “Verdade tropical” (1997), reunindo lembranças do tropicalismo e relatos sobre sua história de vida e visão de mundo. Na televisão, compôs trilhas sonoras para novelas e minisséries e apresentou os especiais “Divino maravilhoso” (1968), na TV Tupi, e “Chico e Caetano” (1986), na Rede Globo. Em Hollywood, foi o primeiro cantor brasileiro a se apresentar na cerimônia do Oscar, em 2003. Na Sapucaí, foi enredo da Mangueira em 1994, com os Doces Bárbaros, e na Rio-2016, brilhou como um dos destaques da cerimônia de abertura.

Em 2013, causou polêmica ao se colocar como um dos líderes de um movimento de artistas contrários à publicação de biografias não autorizadas de pessoas públicas, o que foi considerado por muitos como uma espécie de apoio à censura. Apesar desses e de outros episódios controversos no cenário cultural — como discussões públicas com outros artistas e jornalistas — é quando se trata de política que Caetano é mais fortemente lembrado como uma figura polêmica, que inspira reações opostas.

Sempre instigado e sem receio de se posicionar, já criticou e ao mesmo tempo defendeu publicamente figuras como os ex-presidentes Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula, e o cacique político baiano Antônio Carlos Magalhães (ACM). Em janeiro de 1990, após criticar duramente a gestão do prefeito de Salvador, Fernando José, sofreu um atentado a bomba e tiros quando passava férias em sua casa, na capital baiana. Na época, Caetano declarou que “culpar a prefeitura seria muito óbvio”, e que, apesar de tudo, continuaria criticando as autoridades quando tomassem atitudes “civicamente intoleráveis”.

Na história recente do Brasil, manifestou-se contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e defendeu a renúncia do presidente Michel Temer, participando de atos públicos em prol da realização de eleições diretas, em 2017.

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