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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"Corrupto" insulta tanto quanto quem xinga esquerda comunista de esquerda comunista

Adjetivos e metáforas sangrentas já não dão conta da realidade

Heloisa Helvecia 



Faltam palavras para bater. Termos pejorativos perdem expressão por excesso de trabalho e de debate democrático.
Mesmo assim enfileirados, ladrão, capanga, mafioso, bandido notório, chefe de quadrilha, paneleiro, golpista salafrário, mortadela e praga de aposentado não me atingem, venham de baixo, de cima ou do mesmo nível.

E um simples "corrupto", então. Teve toda a sua potência surrupiada por overdose de surra. Não quer dizer mais nada, apenas aumenta o monturo de detritos digitais. Tem um poder ofensivo similar ao do feio, bobo e malvado de pátio de escola.

"Corrupto" insulta tanto quanto quem xinga esquerda comunista de esquerda comunista —como fizeram uns deputados lá, naquela votação em que se sucediam em sins e nãos lobos e carneiros, traidores e fiéis, não necessariamente nessa ordem, e construíam em nome do povo, do desempregado, da estabilidade, da família, da democracia, do município e da mulher-cidadã essa fábula sem moral que engavetou a denúncia por corrupção passiva contra o presidente da República.

Faltam palavras para bater e para assoprar. Quem quiser algum efeito dramático em mesa de bar, praça de alimentação, Casa do Povo e redes tantas vezes antissociais pode tentar elogios e vilipêndios "customizados" –já que o ponto aqui é palavra batida, vamos gastar. Alguns adjetivos precisam de aposentadoria já. Tão cansados e improdutivos, operam em combos "inconsistentes, frágeis, capengas, mancos e anêmicos", como neste plágio da defesa de Temer.

Capengas, mancos e anêmicos: um afastamento, ainda que temporário, ia bem aqui. É que também faltam palavras para ilustrar a realidade.

Um povo paciente, que aguentou anos de metáforas boleiras seguidas de comparações sem cabeça nem pé não merecia, agora, esta epidemia de economia que respira por aparelhos, de país saindo de UTI, de remédio amargo, de políticos que sangram e de barriga aberta no centro cirúrgico. Sabe-se que o quadro é grave, mas metáforas médicas dão vontade de morrer.

O desconforto com a retórica vazia liga a pátria em um só coração, como ficou evidente no pronunciamento pós-vitória em que o próprio Temer avisou: "Vou dizer o óbvio", e quase se desculpou por precisar ser "repetitivo".

Como não ser. Como vender reformas, retomadas e transição sem recorrer a "narrativas" com trilhos, trens, pontes ou pinguelas "que nos conduzirão ao grande futuro".
Enquanto o discurso novo não vem, faz bem quem poupa seu latim e aposenta um léxico estragado em tanto serviço prestado a conversas republicanas –mais um adjetivo antipaticíssimo que segue em processo de "ressignificação".


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