Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

A culpa é efeito do castigo: este comprova que havia algo de errado em mim; prometo ser melhor da próxima vez.

Sonhos dos alemães durante nazismo mostram relação entre medo e desejo

Marcelo Coelho


Contra de 05.jul.2017.

Tenho sonhado muito nos últimos tempos –em geral, com artigos que tenho de escrever–, mas quase nunca aparece algum político nas atividades do meu inconsciente.

Fernando Henrique Cardoso, às vezes, só que não associado ao governo, e sim à minha época de estudante na faculdade de ciências sociais; e assim retorno ao tema dos textos e trabalhos a entregar.

Outro político, estranhamente, apareceu num sonho em que eu estava em algum ponto do mar Morto, descobrindo o que seriam os manuscritos do Quinto Evangelista. Por alguma razão, esse apóstolo se revelava ser o então ministro das Minas e Energia no governo Itamar Franco, Paulino Cícero –cuja fisionomia até hoje desconheço.

Bom sinal, o de que a política se mantenha restrita a camadas superficiais da minha mente.

Não ocorria o mesmo com o sr. S., empresário com cerca de 60 anos, que era simpático às propostas dos sociais-democratas alemães em 1933. Hitler tinha acabado de subir ao poder.

Ele sonha com o ministro da Propaganda nazista, Goebbels, fazendo uma visita à sua fábrica. Os funcionários têm de se organizar em duas filas, uma à esquerda, outra à direita. O sr. S. fica no meio, e deve fazer o gesto de "Heil Hitler".

Não consegue levantar o braço. Goebbels observa sem reagir. Quando S. consegue finalmente fazer a saudação, Goebbels lhe diz: "Não desejo a sua saudação". Retira-se, enquanto S., com o braço ainda erguido, repara no pé torto do nazista, que sai mancando (de fato, Goebbels tinha um pé virado para dentro).

O sonho de S. é contado pela jornalista Charlotte Beradt (1907-1986), autora de um livro que acaba de sair pela editora Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha. Trata-se de "Sonhos no Terceiro Reich", que recolhe e comenta rapidamente diferentes tipos de elaboração onírica a perturbar as noites dos alemães sob o regime de Hitler.

Como psicanalista amador, fui logo tratando de interpretar o sonho de S. A impossibilidade de erguer o braço me pareceu relacionada à impotência sexual. O pé manco de Goebbels retraduzia o tema, levando-me a concluir que S. e Goebbels, no sonho, estavam fundidos na mesma pessoa.

Empresário e socialista, S. ficava entre a fila da esquerda e a da direita, enquanto Goebbels nem aprovava nem reprovava a sua incapacidade de fazer a saudação. No fim, o alívio: o nazista (o próprio S.) não quer a homenagem.

Percebo agora que, seja qual for o mérito dessa interpretação, o aspecto da impotência sexual não esclarece coisa nenhuma. Charlotte Beradt fez bem em excluir do livro as tentações freudianas, que diriam respeito à história particular de cada entrevistado.

Seria aliás interessante conhecer os sonhos que, naquela época, não faziam menção ao nazismo. A autora restringiu seu foco ao que se referia diretamente ao quadro totalitário, e nisso já encontrou pano para mangas.

Dividiu o livro conforme as atitudes possíveis –reconhecidamente poucas– dos indivíduos submetidos ao sistema. Há quem tenha pesadelos de perseguição, há os que sonham com alguma resistência, e também, o que me parece o mais interessante, quem tenha fantasias de ser aceito pelos hitleristas.

Talvez aí esteja um dos aspectos mais perversos de todo terror, político ou não. Você imagina que o carrasco possa te perdoar. Quanto mais frequente a ameaça de castigo, maior a possibilidade de que sua inconformidade, seu espanto, seu susto, se transfigurem em desejo de reconhecimento e de amor.

Não é outro o motivo, imagino, para que os professores tirânicos sejam muitas vezes populares na sala de aula, ou que cônjuges maltratados tenham dificuldade em se livrar do casamento.

A culpa é efeito do castigo: este comprova que havia algo de errado em mim; prometo ser melhor da próxima vez.

O medo não apenas imobiliza e se transmite numa espécie de contágio, mas parece que precisa se transformar em outra coisa. O certo seria responder com ódio ou com revolta: mas, precisamente, o próprio medo impede que essa reação se faça.

Uma coisa que resta –a menos que se sobreviva numa passividade total– é a esperança de ser amado. Reduzidos a uma condição de não-sujeitos, muitos alemães preferiram, pelo que indica o livro, a saída de aderir ao nazismo (porque era uma forma de agir, mesmo que não acreditassem em tudo) ou desejar que o nazismo gostasse deles. 

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