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sábado, 10 de junho de 2017

"Quero um diálogo com o jovem negro que não teve ninguém para conversar sobre o assunto, mas também com quem nunca pensou sobre ele"

Em livro de memórias, Lázaro Ramos reflete sobre racismo no Brasil

Mauricio Meireles 

SAO PAULO, SP, BRASIL 08-06-2017: O ator Lazaro Ramos no escritorio da Cia das Letras no Itaim, zona sul de SP. O ator lança livro de memórias sobre o racismo. (Diego Padgurschi /Folhapress - ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO ***

Senta, que lá vem textão. Não é assim que se fala, na internet, antes escrever sobre um debate que mobiliza paixões? Pois agora é a vez de Lázaro Ramos publicar o seu, e o assunto é racismo.

Convidado para a sessão de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, ao lado da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, com direção de cena de Felipe Hirsch, o ator baiano lança "Na Minha Pele". No livro de memórias, reflete sobre ser negro no Brasil.

Esta história começa em uma ilhazinha cercada de águas verdes na Baía de Todos os Santos.

Para visitar a Ilha do Paty, onde Lázaro nasceu, é preciso chegar perto da água e gritar "Tomaquê!"(em baianês, isso quer dizer "me tome aqui, do outro lado da margem"). Logo aparece um voluntário para ajudar na travessia.

Como quase todo mundo descendia de negros ou índios no lugar, conta o ator, ele não precisou pensar na cor de sua pele -pelo menos não tão cedo. Nem ouvia a palavra negro dentro da casa. A família dizia apenas "a gente, que é 'assim', tem que andar mais arrumadinho."

Lázaro só foi se dar conta de que havia racismo no mundo ao ir morar em Salvador -fosse ao se sentir excluído na escola particular, que a família fazia esforço para pagar, ou quando encontrava a patroa da mãe, que trabalhava como empregada doméstica.

"Quero um diálogo com o jovem negro que não teve ninguém para conversar sobre o assunto, mas também com quem nunca pensou sobre ele", diz Lázaro.

É curioso quando o ator lembra de comportamentos automáticos que são fruto da infância. Para ele, feijoada só podia ter uma calabresa -uma rodinha para cada um. Mesmo mais velho, com a carreira bem-sucedida, demorou para se dar conta que isso não fazia sentido.

"Comida na geladeira também é militância", ri.

A formação política mais sólida, contudo, só veio quando ele entrou para o Bando de Teatro Olodum, grupo formado por atores negros. A Companhia se dedicava a escrever peças sobre o racismo, a escravidão, Zumbi dos Palmares e temas afins.

Passou a prestar atenção em sutilezas. Um exemplo: diz ter percebido que, no noticiário, a diferença entre "criança" e "menor" costumava ser a cor da pele.

"Não escrevo por talento, mas por necessidade. Identifiquei na minha história elementos que não vi em outros livros. É a voz desse menino que morou em um bairro popular de Salvador e entrou num grupo de atores negros que queria escrever sua própria história", afirma.

Envolvido na militância, portanto, desde os anos 1990, Lázaro tenta se atualizar acompanhando os debates na internet. Na sua época, lembra, não se falava de feminismo negro. Os símbolos estéticos eram apenas o black-power e as trancinhas.

Como a maior parte dos militantes contra o racismo, Lázaro traz um discurso que se alinha à esquerda do espectro político. O repórter o questiona sobre o que acha de Fernando Holiday (DEM -SP), vereador negro que costuma se opor às ações afirmativas.

O clima pesa.

"Você acha mesmo que eu vou dar espaço para o Fernando Holiday na minha entrevista?", afirma Lázaro, acrescentando que não vai responder à pergunta (e, a seu modo, respondendo).

Mas, em termos genéricos, um negro pode ser de direita? "Claro que é possível. Há dores e delícias que nos aproximam, mas cada negro é um indivíduo. Não posso fazer uma análise acusatória de quem não conheço, é isso que defendo o tempo todo."

A reação se repete em um questionamento sobre a ideia de apropriação cultural -segundo a qual seria errado brancos se usarem de símbolos da cultura afro-brasileira- e a controvérsia do turbante.

"Você adora uma frase feita, né? Você quer que eu diga 'adoro branco usando turbante' ou 'branco não devia usar turbante'? É um dilema importante, não vou reduzir numa frase para você", afirma.

Mesmo assim, o ator aponta algo que chama de "apropriação econômica". Diz ver, por exemplo, em manifestações culturais de origem negra, como o samba, o dinheiro circular por mãos brancas.

"Quando você pensa a apropriação nesse âmbito, você vê que tem algo esquisito. É bacana admirar objetos de outra etnia, mas vamos pensar nas oportunidades e direitos que essa outra etnia tem."

Lázaro não se esquiva, no livro, de falar da TV Globo, onde trabalha e estreará um programa em dezembro. Ele lembra uma pesquisa apontando que só 4% das protagonistas em novelas no canal foram interpretadas por mulheres não brancas. E só três atrizes se revezaram nesse papel.

O ator também conta que tem por regra recusar papéis em que aparecerá com uma arma de fogo. Até fez alguns, confessa, mas sempre quando há alguma inadequação entre personagem e objeto.

O ator conta também calcular os momentos de falar sobre o racismo:

"Seleciono tudo. Não podem roubar sua humanidade. Você é um ser mais complexo, que não é descrito apenas pela cor da sua pele."

NA MINHA PELE
AUTOR Lázaro Ramos
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 34,90 (152 págs.)
LANÇAMENTO 6/7, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - av. Paulista, 2073, tel. (11) 3170-4033 

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