Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Foi bonito demais vê-la flutuando pela guerra.

Joana está fecundada 

Tati Bernardi 


Como sempre faço no mês de meu aniversário, dei uma festa em casa. Como acontece todo ano, Joana apareceu já no final. Mas algo estava diferente. Joana sempre usou roupas que, apesar da grifada necessidade de estar confortável e um tanto cômica, mesclavam sua confusão com alguma sensualidade. Nada que lhe entortasse ou afeminasse demais, mas sempre um decote ou uma cintura escassamente marcados. Era como se dissesse "eu gosto dos outros, mas jamais serei menos importante que meus gostos".

Pois este ano Joana chegou tão infindável que ficou difícil delimitá-la até mesmo em fotos. Contudo, veio sem aquela continuação de lápis preto no canto dos olhos, uma tática para alongar as intenções do espírito e dar um falso ar miscigenado às observações mais "não é todo mundo que entende".

Este ano Joana não se enfiou, quase sempre merecedora, nos grupinhos mais intelectualizados e prazenteiros, pois, como disse para mim, enquanto se ocupava (com foco meio abobado) de seu extenso e repetitivo xixi, estava fecundada e pouco se lixando para qualquer pertencimento ou discussão ou jogos mentais ou militância ou gincana de brilhos fálicos.

Foi bonito demais vê-la flutuando pela guerra. Foi das coisas menos sensuais (e, justamente por isso, tão majestosamente feminina) vê-la lidando com eructações de nojo mediante discretos perfumes e seus desalentos doces.

Enquanto alguns se acotovelavam para existir, ela coexistia protegendo a ainda pequena circunferência com um cruzar de braços. Cotovelos ancestrais que poderiam lançar lâminas mortais contra qualquer mínimo abalo. Barbas ralas grisalhas, pélvis retas dançantes, óculos modernos maduros, pontuações másculas e eloquentes. Todas as tríades do sucesso viraram agora desenhos estereotipados em uma pequena TV vagabunda no fundo da padaria. O mundo foi para segundo plano, e junto com ele não foi Joana. Ela e um cookie de chocolate são destaque absoluto no limbo paralelo no qual se recosta mas ainda teme.

Foi bonito ver Joana acariciando uma folha de comigo-ninguém-pode, enquanto todos se vendiam fingindo não terem preço. Depois Joana lavou as mãos e nisso ela se demorou, gostando do quente da água, gostando de se demorar, gostando de estar numa festa sem lembrar muito para o que elas servem. Uma vida inteira enfeitiçada pelo teatro dos membros descontrolados. Era engraçado ver Joana sem entender todos os anos sendo jovem e sendo ativa. Sua bunda hoje em dia caga. Sua boceta hoje em dia mija. E pensar que ela já as botou pra jogo. Que jogo? Joana está fecundada e não precisa de mais nada.

Em Joana agora é tudo coeso e incluído. Ela ri menos, fala menos, fica menos. Se não agradou, nem percebeu. Joana não precisa de homem, mulher, lugar no sofá, destaque nas rodas de embate voluptuoso, elogios quentinhos na solidão adulta dos "prove e me aprove". Joana está fecundada.

Joana chegou nos julgando animais demais para o mundo de emoções que carrega e partiu nos julgando humanos demais para sua falta de concentração e solicitude. Joana fugiu dos cigarros, dos perdigotos, dos estupidamente vaidosos de esquerda, dos honestamente vaidosos (e nem por isso menos chatos) publicitários, das caixas de som, das maledicências, dos deliciosos loucos e de peixe cru. O pouco que me aturou, foi para bater cartão como "entidade boa gente" e a respeitei demais. Não é porque, momentaneamente, a fecundada Joana não se importa com o resto do mundo, que ela, por humanidade, não vai disfarçar que divide tamanha incompletude com nós. 

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