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sábado, 20 de maio de 2017

o que faria você se tivesse que optar entre trair companheiros políticos ou ficar com a filha? Os laços familiares valem mais que os políticos?

De Ravensbrück para o Rio

Mario Sergio Conti 


Ilustração Mario Sergio Conti de 20.mai.2017

Dois livros que saíram há pouco falam de prisões preventivas como método para obter delações premiadas e incriminar políticos. Mas eles não dizem respeito ao que se passa no Brasil de nossos dias. Seu ambiente é a Alemanha de há 80 anos.

"Ravensbrück", editado pela Record, é um cartapácio de 924 páginas com 2.000 fontes na bibliografia. A inglesa Sarah Helm adota como eixo uma questão da atualidade, o feminismo, para contar com emoção a história do único campo de concentração para mulheres, Ravensbrück.

Já "Olga Benario Prestes", publicado pela Boitempo, tem pouco mais de cem páginas e é tão contido que às vezes parece um relatório. Ele se baseia praticamente num só arquivo, o da Gestapo, a polícia secreta do Terceiro Reich. Apesar da frieza, o livro foi escrito por Anita Leocadia Prestes, a filha de Olga Benario.

A história delas é conhecida. Quadro comunista, Olga foi designada pela Internacional para acompanhar Luiz Carlos Prestes na sua volta ao Brasil, em 1935, onde foi presa. Vargas a mandou de volta à Alemanha para adular Hitler. Como estava grávida (de sete meses), sua expulsão teve o beneplácito servil do STF.

Presa "preventivamente" em Ravensbrück, Olga jamais foi processada. Deu à luz na prisão a Anita, que com catorze meses foi entregue à avó paterna. Os nazistas a atormentaram por seis anos a fio para que delatasse seus camaradas. Como prêmio, diziam-lhe, seria libertada, ficaria com a filha.

Olga foi assassinada em abril de 1942. Ao entrar em Ravensbrück, três anos depois, o Exército Vermelho encontrou 3.500 mulheres –das 130 mil que por ali passaram. Com a divisão da Alemanha, o campo ficou na zona soviética. Os stalinistas transformaram Olga em ícone da resistência ao nazismo.

Os arquivos da Gestapo foram levados a Moscou e lá ficaram, trancados. O acesso público a eles começou há apenas dois anos. Descobriu-se um dossiê de 2.000 páginas sobre Olga, a maior coleção de documentos a respeito de uma vítima do nazismo.

O material, riquíssimo em termos históricos, é de cortar o coração por incluir cartas da prisioneira. São nove para Prestes, preso no Rio; 12 para a sogra, que criava Anita; e uma para a própria mãe, Eugenie, com quem estava rompida (pede que a avó conheça a neta, e ela se recusa porque Olga era comunista; Eugenie foi morta anos depois em Auschwitz).

Nos dois livros, Olga aparece então em três registros. Para a Gestapo, ela era uma comunista fanática, uma judia provocadora e astuta. O fanatismo, porém, é dos nazistas: eles lhe confiscam "Iracema" porque o romance de José de Alencar "difama um governo ordeiro".

Em Ravensbrück, era tida por afetuosa e forte. Responsável por um bloco de prisioneiras, certa vez ela permitiu que uma menina cigana de três anos, que estava doente, continuasse na cama de manhã. A criança tinha a mesma idade de Anita. Uma guarda descobriu, pegou a menina pelos cabelos e a afogou.

Nas cartas, Olga finalmente fala por si mesma. O que se vê é uma moça alegre e amorosa, de menos de 30 anos, que não se queixa, consola o marido distante e se preocupa com a educação da filha.

Nas entrelinhas, percebe-se que ela se sabia condenada, como quando diz a Prestes que se vê "construindo castelos de cartas sobre o nosso futuro juntos".

Uma das maneiras de se ler os livros de Sarah Helm e Anita Prestes é trazê-los para o presente. Para indagar: o que faria você se tivesse que optar entre trair companheiros políticos ou ficar com a filha? Os laços familiares valem mais que os políticos?

A resposta positiva é a dos delatores. Eles dizem: preciso salvar a própria pele e cuidar da família, danem-se os aliados de ontem. Isso implica, porém, em concordar com os nazistas: Olga era uma fanática que pôs a política acima do sangue.

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