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quarta-feira, 12 de abril de 2017

há artistas que encerram a vida com obras plenas de serenidade e sapiência.

Dylan tardio e canto desencantado 


Mario Sergio Conti 





O álbum recém-lançado de Bob Dylan tem um ar de Grande Hotel numa noite para sempre perdida. No bar vazio, um senhor canta os seus desenganos. Desamparado, decanta o fel do desencanto, essa dor que não vai, esse fim que não vem.

Com três CDs, cada um com meia hora e dez músicas, "Triplicate" é todo feito com o cânone da canção americana do século passado.

Há desde cansados cavalos de batalha, como "As Time Goes By", até a bizarria de "There's a Flaw in my Flue". Dylan canta tudo sem nostalgia.

A voz roufenha está talvez mais áspera. Registra os calafrios de quem transita do lusco-fusco do fim para as trevas da morte. Príncipe solitário num império de espectros, o cantor percorre a trilha que passa pelo alheamento do alvoroço contemporâneo e desemboca na desagregação pessoal. Porta o que pode, a voz.

"Na história da arte, as obras tardias são a catástrofe", escreveu Adorno. Quando corpo e alma desmoronam, cada qual para um lado, até artistas maiores só conseguem repetir a si mesmos; e tome caça-níqueis. O crítico alemão, contudo, viu que a catástrofe pode ser fecunda. Falava do Beethoven do fim, o da "Missa Solemnis".

A "Missa" não cede à realidade do mundo, da música e mesmo do velho Beethoven, surdo e sozinho. Com uma massa sonora insólita, que salpica quistos arcaicos na polifonia excêntrica, o seu estilo tardio expõe contradições íntimas, e não as supera. Arrisca ser obscuro, quiçá inacessível.

Há algo dessa tensão, mutatis mutandis, em "Triplicate". Tanto que uma de suas duas inspirações foi "Trilogy", que Sinatra gravou em 1980. Não cabe confrontar a água clara do álbum antigo ao turvo charco do lançado agora. Ninguém é páreo para Sinatra em técnica vocal. Em contrapartida, Dylan combina subjetividade dissonante e objetividade harmônica.

O velho morto, que tinha 65 anos ao cantar "Trilogy", conformou-se ao que sabia bem –o que fez com que às vezes fosse mecânico. Já o velho vivo, que tem dez anos a mais, assumiu a errância sem ser piegas. E com um risco a mais: "Triplicate" nega o seu folk & rock.

A segunda inspiração declarada de Dylan foi "Oréstia", trilogia de Ésquilo na qual o pai mata a filha; a mulher, o marido; e o filho, a mãe. Dela, reteve a forma: três atos encadeados em dores pavorosas, cada um com um tema, até a catarse pacificadora.

Ao aprofundar o tema levantado por Adorno, Edward Said escreveu que há artistas que encerram a vida com obras plenas de serenidade e sapiência. É o caso do Sófocles de "Édipo em Colono" e do Shakespeare de "A Tempestade".
Já no estilo tardio, disse o crítico palestino, as obras são nervosas, ariscas. Inovam quando "repetem, reinterpretam e revisam um material familiar". Nessa abordagem, cabem o Mozart de "Così Fan Tutte" e o Lampedusa de "O Leopardo". (Seria possível acrescentar o Machado das "Memórias Póstumas".)

Para Said, o estilo tardio permite o "prolongamento de gestos desinteressados, quase puramente formais, que elaboram, embelezam e ilustram o ato trágico". A reelaboração de canções ímpares, que são repostas de pé a partir dos seus escombros, dá forma ao Dylan dos últimos tempos.

João Gilberto, relembre-se, desenvolveu uma concepção semelhante desde sempre. Imbricou esse seu projeto na formação nacional. Como ela não se completou, deu um passo além: silenciou. Na arte e na vida, o prazer e a privacidade permanecem em João Gilberto e Bob Dylan.

"Triplicate" seria então um belo álbum de alguém que se aproxima do fim? A resposta fica com outro artista de estilo tardio, o Thomas Mann de "Doutor Fausto":

"A palavra 'belo' sempre repugna um pouco, há nela um quê de tolice, e, ao falar dela, fica-se lascivo e lânguido. Mas acho que é bom, inteiramente bom, não poderia ser melhor. Talvez não devesse ser melhor.''

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