Alamanaqueiras: ou não queiras.

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terça-feira, 21 de março de 2017

"pessoal órgico".

Uma revolução que nasceu em biroscas 

Alvaro Costa e Silva 




Gaguinho, Geraldo Vagabundo, Henrique Cabeça Grande, Nanal e Mãozinha; Julinho, Francelino e João Mina; Saturnino, Brancura e Baiaco. Não, não é o time do camburão. É a turma do Estácio que, no fim dos anos 1920 e começo dos 1930, revolucionou a música brasileira, abrindo caminho para que ela se tornasse, ao lado da americana e da cubana, a mais influente do mundo no século 20.

Eles estão elencados no formidável "Uma História do Samba: As Origens" (Companhia das Letras, 342 págs.), do pesquisador e jornalista Lira Neto. Os citados acima formam uma equipe "alternativa", como se diz hoje. Os titulares eram Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide, Marçal, Mano Edgar, Mano Rubem, o flautista Benedito Lacerda. Aos poucos, foram chegando craques de outras paragens: Noel Rosa, de Vila Isabel; Paulo da Portela, de Osvaldo Cruz; Cartola e Carlos Cachaça, de Mangueira.

Todos jovens, na casa dos 20 anos ou menos, trabalhadores informais (bombeiros hidráulicos, fundidores, lustradores de móveis, torneiros mecânicos, sapateiros, estofadores, pintores de parede) ou sem profissão definida, vivendo de biscates e virações (lavadores e guardadores de carros, jogadores de chapinha, punguistas, cafetões do Mangue). Malandros que não cediam, nas palavras de Lira, "à lógica perversa que condenava negros e mestiços à mendicância, ao desemprego e à pobreza extrema".

Para tirar samba —o moderno, cadenciado, com andamento mais rápido, notas mais longas, versos que abordavam o cotidiano—, reuniam-se no Café do Compadre, na rua Santos Rodrigues, e no Apolo, no largo do Estácio. Duas biroscas onde nasceram maravilhas como "Se Você Jurar" e "Nem É Bom Falar", levadas ao rádio e ao disco por Francisco Alves e Mário Reis.

Não à toa, os jornais da época se referiam a eles como o "pessoal órgico".

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