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terça-feira, 21 de março de 2017

Chegamos ao ponto de ninguém mais conseguir almoçar em família sem que esquerdistas e antipetistas se agridam.

A agenda oculta

Pablo Ortellado




Os brasileiros que se interessam por política parecem resolutamente divididos em posições políticas antagônicas e inconciliáveis. Mas será que a despeito da polarização que opõe antipetistas e esquerdistas não encontramos, se buscarmos com atenção, pontos relevantes de convergência?

A polarização em curso não é a oposição político-partidária de outros tempos. Não se trata de mera divergência e disputa, mas de uma intolerância passional e beligerante. Antipetistas não toleram defensores dos governos Lula e Dilma, a quem acusam de complacentes quando não diretamente de cúmplices da corrupção que afundou o país; e esquerdistas não toleram os seus críticos, a quem acusam de elitistas insensíveis que usam o combate à corrupção como pretexto para combater os avanços das políticas sociais. Esse antagonismo, que se exacerbou nas eleições de 2014, se intensificou ainda mais com o impeachment/golpe, visto por uns como triunfo da ética e por outros como interrupção do regime democrático. Chegamos ao ponto de ninguém mais conseguir almoçar em família sem que esquerdistas e antipetistas se agridam.

Apesar da polarização, vimos, recentemente, como a esquerda e os sindicatos, por um lado e comentadores das redes sociais antipetistas, de outro, se encontraram na oposição à reforma da Previdência proposta pelo governo Temer. E esse não é o único ponto de convergência.

Em pesquisa que realizei com Lucia Nader e Esther Solano nas primeiras manifestações anti-Dilma, descobrimos que a defesa da universalidade, da gratuidade e do caráter público dos sistemas de saúde e educação tinha o respaldo de mais de 95% dos manifestantes. Além disso, quando analisamos e medimos o debate nas redes sociais, encontramos o meio ambiente como causa comum aos dois grupos. Por fim, podemos lembrar que os ativistas de esquerda afirmam que não são contra o combate à corrupção, mas apenas contra o seu uso como subterfúgio para a defesa de privilégios.

Direito a aposentadoria, universalidade dos serviços públicos de saúde e educação, cuidado com o meio ambiente e combate à corrupção. Isso tudo compõe um programa politico mais ou menos claro e definido. Por que não temos uma força política que expresse esse consenso? O que vemos, ao contrário, é que dois grupos políticos cindiram esse programa ao meio, cada um jogando metade do Brasil contra a outra, acusada de defender a corrupção ou de se opor aos direitos sociais.

Em seus discursos, as lideranças políticas dos dois campos extrapolam as diferenças que existem, escondendo o que têm em comum. Embora em grau diferente, quando estiveram no poder, ambas limitaram os investimentos constitucionais em saúde e educação; limitaram também a aposentadoria dos trabalhadores, sem mexer significativamente nos abusivos privilégios do sistema; nenhuma delas deu prioridade à proteção ao meio ambiente; e embora se agridam em público, trabalharam em parceria, nos bastidores, para conter os avanços no combate à corrupção.

Elas também têm em comum o fato de terem passado a conta do Estado brasileiro para os trabalhadores mais pobres, se furtando a enfrentar um dos mais importantes problemas do país: a questão tributária. Os mais pobres pagam hoje muito mais imposto que os mais ricos, uma distorção imoral que os economistas dão o nome de "regressividade" e que é condenada em todo mundo.

Ao invés de tumultuarem os almoços de domingo olhando com desconfiança para os parentes filiados ao campo adversário, os brasileiros fariam melhor se redirecionassem esse desgosto para os hiatos ainda maiores que os separam das lideranças políticas.

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