Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.

terça-feira, 14 de março de 2017

“mulher brasileira”,figura poderosa, sedutora e dona de uma linguagem corporal que desafiaria os modelos clássicos da mulher oprimida dos países metropolitanos.

D. Federalina de Lavras

Rachel de Queiroz
Heloisa Buarque de Hollanda (*)


FIDERALINA AUGUSTO LIMA


Em uma conversa sobre mulheres, feminismo e literatura chegamos às matriarcas nordestinas. Partimos da ideia tradicional da “mulher brasileira”,figura poderosa, sedutora e dona de uma linguagem corporal que desafiaria os modelos clássicos da mulher oprimida dos países metropolitanos. É uma imagem que, apesar de não corresponder necessariamente à realidade da vida social brasileira, não deixa de ter uma imensa força simbólica no nosso imaginário cultural. Procuramos então suspender qualquer juízo de valor sobre a justeza da ideia que se faz sobre a “mulher brasileira” e pensar qual seria a versão nacional correspondente à mulher européia da era vitoriana. 

Foi neste ponto que vieram à tona,de forma quase inesperada, os feitos e as figuras de personagens com D. Federalina de Lavras, D. Bárbara de Alencar ou a mais obscura Marica Macedo até hoje lembradas e recriadas nas histórias da região do Cariri. Foram elas matriarcas semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais.

Como apontou Joaquim Falcão, num texto muito interessante a respeito dos pressupostos deste levantamento, o poder das matriarcas não era necessariamente vinculado ao poder político ou econômico da região, ainda que, subsidiariamente, tenham desenvolvido atividades e ocupado posições de controle nessas áreas. De forma sintomática surgem elas em cena a partir da posição ocupada na estrutura familiar. São chefes de família, ou melhor, tornam-se chefes de família devido à ausência do patriarca, por morte, ou por viagens constantes. Raramente são solteiras ou sem família. A manipulação de filhos, parentes e agregados, parece ser o foco inicial do poder e do raio de influência das matriarcas. Começam a exercer seu controle em um âmbito mais restrito, o familiar, e terminam por englobar a rede de poderes que liga, de forma bastante específica no interior do Nordeste, o Estado, a Igreja e a família.

Do ponto de vista do imaginário social brasileiro, a figura da matriarca mostra até hoje uma enorme vitalidade. Não há nordestino que não conheça pelo menos a história de uma dessas mulheres, corrente na família ou em de casos narrados por terceiros. Em certas regiões, chegam as matriarcas a fazer parte do patrimônio cultural local. Suas façanhas são conhecidas e prodigamente divulgadas. Entretanto, a vida sexual das matriarcas é sempre mencionada com restrições, por respeito às famílias tradicionais a que pertenciam. Assim, seus romances audaciosos ou irregulares são prudentemente mantidos à sombra.

Em um primeiro contato com estes relatos, o que chama atenção é o grau de interesse e fascínio que invariavelmente despertam. A cumplicidade imediata que se estabelece entre narradores e ouvintes através da evocação destas poderosas mulheres arrogantes, arbitrárias, descritas com hábitos e gestos masculinos, confirma nossa hipótese inicial a respeito da natureza arquetipíca da figura das matriarcas.

O termo matriarca, apesar de inadequado conceitualmente na forma como usado neste caso, conduz entretanto a algumas pistas quanto à dimensão simbólica que adquirem a vida e os feitos, verdadeiros ou não, das senhoras do sertão. Na vida pública, se se aproximam da imagem do patriarca, são contudo, descritas como mais capazes do que ele, de violências refinadas no exercício do poder familiar, político e econômico. Quando mais modernas, lembram um “coronel de saias”, como é comum serem chamadas. Em ambos os casos, a idéia de matriarca vem derterminada pelo controle que exerce e pelo poder que detém e demonstra ter. A vida íntima dessas mulheres também é motivo de especulações. Fantasias sobre sua agressividade sexual, a submissão de belos e jovens serviçais e até sequestros de ciganos, alimentam as histórias – contadas respeitosamente em sotto voce – que acompanham o mito das matriarcas. A violência de sua sexualidade seria a contraface “natural” do sadismo e dos requintes e da arbitrariedade que marcaram quase sem exceção a vida dessas personagens. Em tais casos é que se evidencia a estranheza do termo matriarca. Nem o comportamento, nem a inserção social e as formas de sexualidade que as caracterizam escapam do modelo patriarcal no seu pior estilo. A natureza autoritária de sua liderança e a gramática erótica baseada na sujeição de parceiros de condição social inferior não correspondem à expectativa libertária que a noção de matriarcado sugere.

Sem dúvida, mesmo reforçando a lógica do patriarcalismo rural brasileiro, a história das matriarcas e sua extensa repercussão no tempo e no espaço de certa forma desmontam os modelos tradicionais com que se costuma caracterizar a submissão feminina. Em que medida o arquétipo das matriarcas e o violento poder que decorre da estrutura familiar no Brasil moldam os nossos sentimentos e fantasias sobre a “mulher brasileira”?

A partir dos depoimentos de familiares, amigos e pessoas que tiveram contato direto ou indireto com D. Federalina de Lavras e com a ajuda da Prof. Tereza Haguete (cf. grafia) do….. e o conhecimento enciclopédico de Joarivar, aliás Professor Joaquim Lobo de Macedo, levantamos uma parte das histórias que ainda hoje correm no interior do Ceará. Em nenhum momento,dada a perspectiva que adotamos em relação a estes relatos, nos pareceu importante procurar saber se as histórias sobre as matriarcas eram verdadeiras ou não. No caso, vale a lenda, tanto quanto a verdade.


Tá aqui que Dona Federalina mandou

Dona Federalina reuniu no Sítio do Tatu os cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Deu ordens para que seguissem rumo a Princesa, na Paraíba. O grupo de cangaceiros iria vingar a morte de seu nego, Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo após formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissão em Princesa, terra de seu pai, Luís Leônidas Lacerda Leite (Legítimo Ladrão de Lavras – diz o povo), marido de Joana Augusto Leite, filha de Federalina.

Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, coronel Erasmo Alves Campos. Com esse casamento, o Doutor precipitava a própria sorte. Manoel Florentino desejava ter Dulce por esposa. Enraivado vendo-a casar-se com o forasteiro Ildefonso resolveu vingar-se. Junta-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba, ligado ao vigário de Princesa, Manoel Raimundo Donato Pito. O vigário se opunha ao doutor, acusando-o de ateu. Em 6 de janeiro, feriado do Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram, com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o nego de Federalina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para acudir aos antojos da mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia, deixaram o corpo com os pés de fora.

Vingança pior aguardava a dupla de assassinos. A velha Fidera despachara o seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas de seus inimigos mortos: queria aumentar a coleção.

Esse crime de Princesa, ocorrido em 1903, marca o início da projeção de dona Federalina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado. Nascida em 1832, em Lavras, batizou-se por Federalina, graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824. Familiarizou-se desde cedo com o poder. Era a mais velha de doze irmãos; o pai, chefe político na região de Lavras, João Carlos Augusto, descendia de família poderosa. Teve ele por padrinho de batismo o então presidente da Província do Ceará, João Carlos Augusto de Oyenhausen e Gravemburg, marquês de Aracati, em cuja homenagem recebeu o nome.

A mãe de Federalina também se envolvia com política. Isabel Rita de São José, a velha Zabilinha, era neta de Francisco Xavier, segundo capitão-mor e comandante geral da vila de Lavras, sesmeiro da ribeira do rio Salgado, proprietário de grandes extensões de terra.

Se o pai, João Carlos Augusto, era afilhado do presidente da Província, o batismo de Federalina já é prenúncio de sua força de vontade, de seu desprezo por regras estabelecidas, de seu temperamento forte, de só fazer o que desejava. O padrinho da filha podia não ser de igual importância, mas em compensação o celebrante da cerimônia foi o padre Verdeixa, figura antológica e curiosíssima dos sertões nordestinos. Pai de família, era o Padre Verdeixa nascido no Crato, ou em Goiana, ou em Olinda; foi vigário de Lavras de 1830 a 1832. Mestre em ações indecorosas, fazia propostas imorais às noivas dos casamentos que celebrava. Foi mesmo espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre.

Quando João Carlos Augusto morreu, aos 56 anos, vítima de um atentado político, Federalina, já estava casada; sendo a mais velha de três irmãos fracos e de oito irmãs que não viam a mulher em posição de mando, assumiu o poder como herança maior.

Casara-se nova, aos 15, 16 anos, com Ildefonso Correa Lima, major da Guarda Nacional, nascido em Várzea Alegre, distrito de Lavras; filho do tenente Raimundo Duarte Bezerra e de Ana Correa Lima, donos de muitas fazendas. Recém-casada, Federalina já tinha fama de mandona, tanto que a família do marido não aprovou a união. Eram contra, não queriam ver Ildefonso submisso à mulher. Mas não foi uma submissão duradoura. Ele morreu ainda jovem, aos 42 anos, depois de ser presidente da Câmara de Levras. Deixou uma dúzia de filhos e um certo poder político que logo foi assumido pela mulher.

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada ao poderio, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria até contra a Igreja. Monsenhor Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, de 1879 a 1925, que ousou opor-se a Federalina, provou-lhe o ódio. Era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha a admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Federalina levou a peito tornar público o erro do vigário. Monsenhor Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Federalina. Errou: passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram eleger o prefeito. Mesmo o sucessor de Monsenhor Miceno, Padre Raimundo Augusto Bezerra, sobrinho-neto de Federalina e líder oposicionista, sofreu muito nas mãos de Fidera. As piores calúnias foram levantadas contra ele.

Mas Federalina não tinha inimigos só entre os estranhos, a família também a enfrentava. Seu filho, Honório Correa Lima, foi uma das vítimas da ira materna. Após certo tempo na prefeitura de Lavras, foi eleito deputado, tendo que permanecer longo tempo em Fortaleza. E Honório acreditava estar perdendo suas bases políticas com as longas estadas na capital. Assim, com o prestígio conseguido junto ao presidente da província, articula, à revelia da mãe, sua nomeação para retornar à prefeitura de Lavras. Para isso seria necessária a deposição do prefeito Manuel José de Barros, homem da confiança de Federalina.

Estava criada a confusão. A velha, com o orgulho ferido e influenciada por um outro filho, Gustavo Augusto, tenta primeiro convencer Honório a abdicar do cargo. Apela para os nove meses em que o carregou na barriga. O argumento não surtiu efeito. Honório respondeu que, se o problema era o tempo de gestação, poderiam fazer um trato: ela que afinasse a cabeça para lhe entrar pela “traseira”, e ele a carregaria durante nove meses sem reclamação.

Mas Fidera era incansável. Teimou em convencer o filho até o dia em que ele tomou de um rifle e apontou para a barriga da mãe. Essa afronta, somada à morte de Ernesto Rolim, cabra de confiança da velha, atribuída a Honório, e às ameaças de Honório ao irmão Joaquinzinho, a quem proibiu de aparecer na casa da mãe, por acreditar que fosse ele a origem das atitudes da velha, levaram-na a reunir um bando de cabras com os coronéis mais fortes do sertão: Domingos Furtado de Milagres, Sant’Anna de Missão Velha, e Eliera Cruz.

Esses jagunços, em grande parte recrutados no Sertão de Pernambuco, – Serra do Araripe, região do Riacho do Navio, Pajeú de Flores -, (que viria a ser o berço de Lampião), eram homens que faziam do cangaço sua vida, e foram os responsáveis pela deposição do “Torto”, apelido de Honório, que era caolho. Escorraçaram-no de Lavras, com mulher e filhos; mudou-se para Fortaleza, e posteriormente para Caririaçu. É a primeira vez em que a misericórdia dá mostras de existir em Federalina. Em casos de deposição, matava-se o deposto. Mas, na deposição de Honório, os homens tiveram ordem expressa de não acertar sequer um tiro no Prefeito. A velha Fidera avisou que quem o fizesse pagaria com a própria vida. Ninguém desobedeceu.

Desse mesmo episódio deriva a briga de Federalina com a irmã Pombinha. Era privilégio da matriarca orientar os casamentos da família; destinou ela a Honório e Gustavo, as filhas de Pombinha, Petronila e Joaninha, primas em primeiro grau. E, para malde Fidera, o filho que ela escorraçara de Lavras era o genro preferido de Pombinha, que jamais lhe perdoou a ofensa. Na primeira vez em que Federalina perdeu o poder no município, para os rabelistas, a irmã atravessou a cidade de joelhos, em direção à igreja. Defronte ao altar de São Vicente, ficou beijando o chão, em sinal de agradecimento. E quando, antes de morrer, Federalina pediu a presença da irmã, obteve fria e dura resposta: “Se ela quer me pedir perdão, diga que perdôo. Mas ir vê-la, diga que não vou”.

Voltando às intrigas políticas de Federalina; com o intuito de afastar o filho Gustavo da Prefeitura, sob desculpa de honrar a palavra dada, reconduziu Manuel José de Barros ao antigo lugar, retirado por Honório; convenceu Gustavo a concorrer como deputado estadual. Depois, vencido o mandato de Gustavo, ela lhe daria todo apoio para que fosse prefeito; e com ele passou a dividir todo o poder acumulado até então. Mas Gustavo, após pouco tempo frente à Prefeitura de Lavras, sofreu uma tentativa de deposição. Tratava-se, na verdade, de um complô contra a própria Fidera.

O poder herdado do pai e do marido foi habilmente mantido. Fidera conseguia sempre estar bem com os governos. De monarquista converteu-se em republicana; o que lhe interessava era dominar a região de Lavras da Mangabeira. Mas por volta de 1911 surgiram movimentos contra as oligarquias no Ceará. A derrubada da família Nogueira Acioli levou de roldão Federalina e os coronéis do Sertão do Cariri. Pombinha, seus filhos, genros e aliados, queixosos desde a queda de Honório, insurgiam-se contra a tirania da matriarca; davam resposta a tudo que até então tinham ouvido calados.

Proprietária de alguns sítios, todos situados na região árida e pobre, intermediária entre o Sertão Seco e a rica área verde do Cariri, a família Augusto quando ainda unida, vivia no Sítio do Tatu. Era uma propriedade comum: casa grande com alpendre, açude, engenho, uma fileira de casas de taipa para os negros; seria uma das únicas da região a ter uma capela. Tratava-se da área de maior concentração de escravos nos sertões, a ponto de existirem quadrinhas abordando esse estranho recorde: “Caraíba é prata fina/Sussuarana, ouro em pó/Xique Xique é mala véia/E o Tatu é negro só”e “O Tatu para criar negros/Sobradim prá criação/São Francisco para fuxico/Calabaço prá algodão”. Talvez o grande número de escravos no Sítio do Tatu se devesse ao fato de Federalina possuir um grupo de escravas que eram usadas como parideiras de moleques, que após algum tempo eram vendidos ao aparecer comprador.

Uma das histórias de crueldade de Dona Federalina (que deve ser mentirosa) versa sobre uma dessas negras parideiras e o filho que seria vendido, embora já estivesse com ela há mais de um ano. A escrava, agarrada à criança, correu para o mato, mas Federalina deu ordem para que fossem atrás e trouxessem o menino. Na tentativa de proteger o filho, a negra foi apunhalada; ainda correu para casa, e lá, a patroa mandou que mãe e filho fossem embebidos com querosene, e ela própria lhes ateou fogo. A escrava, soltando o filho, debateu-se até morrer. Conta-se que as marcas de sangue da negra não saíam nunca da parede, mesmo que a caiassem continuamente. O reboco teve que ser retirado, e um outro feito em seu lugar.

Soma-se a essa história, o episódio de Luís Preto, um escravo, que aos oito anos de idade, junto com os filhos da Senhora, ousou tomar banho na cacimba de água limpa de onde Federalina bebia. Levou tamanha surra que, durante os mais de cem anos que viveu, nunca mais tomou banho e não saía de casa quando ameaçava chover.

Entre os negros da fazenda do Tatu, quatro deles, dos mais fortes, deviam estar sempre prontos para carregar a liteira de Dona Federalina, nas suas idas à cidade. Corpulenta, medidas avantajadas, quadris largos, rosto cheio, bonita – diziam, trocou a liteira pelo cabriolé (espécie de charrete), e, depois de velha, estranhamente, começou a andar a cavalo, inspirando uma crônica ao juiz Alvaro Dias Martins, assustado com a vitalidade da velha cavaleira.

Temida pelo povo, não era só medo que ela despertava nas pessoas. Quando viajava de Lavras para Iguatu, onde tomava o trem para Fortaleza, e se hospedava na casa do chefe político da cidade, despertava imensa curiosidade. O povo ia à casa do coronel para vê-la, corria às calçadas a fim de lhe assistir a passagem e, na hora do embarque, uma multidão se comprimia na plataforma da estação ferroviária para ver aquela mulher perigosa, valente, cheia de coragem, que mandava matar gente. Essas viagens faziam parte de seu relacionamento com o Presidente da Província. Mas Federalina abusava às vezes dessas boas relações. Chegou a exigir em carta ao Presidente que nomeasse um amigo analfabeto para o posto de professor de grego do Liceu de Fortaleza. Provavelmente era ela mesma quem escrevia as próprias cartas. Tinha uma bela letra e assinava Federalina, com a letra E no lugar do I, como era conhecida.

Graças a seu poder político e econômico, Dona Federalina podia manter certos hábitos interditos à mulher. Falava o que lhe viesse à cabeça, usava palavrões em qualquer oportunidade, alteava a voz com os homens. Conta-se que, hospedava na casa do filho mais moço, Chico Correa, em Lavras, não mais de duas léguas do Tatu, pôs-se a tomar a fresca, vestida com uma espécie de camisa, quando o cunhado, tenente Raimundo Tomás de Aquino, marido de sua irmã Florípes, disse-lhe que não era hora de rapariga estar na janela. Rapidamente recebeu sua resposta: “Nem de homem macho estar na rua”.

Os hábitos de Federalina não diferiam muito dos costumes do coronelado da região. Tinha um grupo de cabras para proteger a propriedade e garantir a família, andava sempre com um bacamarte sobre as pernas, ou ao alcance das mãos, tinha um filho cujo padrinho era o Padre Cícero, e era muito religiosa. Rezava diariamente, com a família e as escravas, o rosário, – provavelmente o folclórico, confeccionado de orelhas – que, segundo parentes, não foi acrescido das orelhas dos assassinos de seu neto. É que quando o bando chefiado por Zuza Lacerda, cangaceiro renomado, chegou à cidade de Princesa não encontrou mais os criminosos. Haviam padecido de estranha febre epidêmica. No entanto, os adversários de Federalina, bem como o povo, juram que essas orelhas vieram a enriquecer o seu famoso rosário.

Ficou como tradição a frase sacramental dos matadores enviados por Dona Federalina no momento em que atacavam os inimigos da velha senhora: “Tá aqui que Dona Federalina mandou”.

Talvez viesse desse estranho rosário a capacidade que a velha possuía de atrair e manter o poder. O tempo em que ele fugiu de suas mãos, após a queda dos Acioli, quando seus parentes, partidários do oposicionista Franco Rabelo, mandaram em Lavras, foi insignificante em relação ao período em que esteve com ela. Depressa retomou o domínio da situação, tornando a fazer jus a certas quadrinhas populares. “O Belém manda no Crato/Padre Cícero em Juazeiro/Na Missão Velha, Antônio Rosa/Barbalha, Neco Ribeiro/Das Lavras, Federalina/Quer mandar no mundo inteiro.”

Em 1914 reuniu cabras, armas e munições, e enviou, aos cuidados do filho Gustavo, como ajuda a sues partidários, numa tentativa de retomar o poder, apoiando a “Revolução de 14″. O episódio, vitorioso, chamado pelos rebelistas “A Cedição de Juazeiro”, devolveu o poder às oliguarquias antigas, dele alijadas após o movimento popular ocorrido por volta de 1911. Essa participação foi imortalizada em folheto de cordel. “Nós íamos relando o chão/Temendo a bala ferina/Mas quando ele conheceu/Que lá havia ruína/Correu com medo dos cabras/Da dona Federalina”. Dois anos antes de morrer, a sua grande influência fez chegar a Lavras a via férrea que tornaria mais fáceis e menos lentas as viagens à capital. No dia da inauguração da estação, a velha mostrava-se alegre, forte; com seu vasto corpo jogado numa cadeira de balanço conversava em altos brados. Sempre gritou. Na primeira vez em que baixou a voz, teve-se a certeza de que realmente chegara a doença que a levaria à morte, aos 87 anos.

Em agosto de 1919 termina a história de Federalina, mas não a do seu reinado. Gustavo substituiu a mãe, dando lugar a seus próprios filhos, João Augusto e Raimundo Augusto, fortes e violentos. A oligarquia só largou o poder – e por força dos acontecimentos – mais de meio século após a morte da matriarca. Na década de 70, pela primeira vez, os Augusto não conseguiram eleger o prefeito de Lavras.

Mas Federalina não foi a única matriarca famosa por aquelas bandas. Marica Macedo, que fez uma aliança política com Fidera, e muito antes Bárbara de Alencar, foram “coronéis” de grande destaque. Bárbara de Alencar, foram “coronéis” de grande destaque. Bárbara, apesar de ser considerada uma heroína cearense, não era natural da província do Ceará. Nasceu em Freguesia do Cabo, às margens do São Francisco, hoje área do município de Exu, no Pernambuco, em 11 de fevereiro de 1760. Mudou-se para o Crato, com o marido, José Gonçalves dos Santos, comerciante português, e três filhos pequenos. Lá se estabeleceram, tornando-se grandes proprietários e constituindo família de vasta influência política.

Seus 3 filhos nasceram ainda no século XVIII, estando sempre presentes na vida política da mãe.

No entanto, 1817 é o marco da carreira de Bárbara como força política, quando começou a obter notoriedade. Republicana em tempos de monarquia, não só deu completo apoio ao filho, o padre Alencar, (pai do romancista José de Alencar), emissário da revolução pernambucana de 17, responsável pela sua deflagração no Ceará; ela também assumiu o comando do movimento, deixando a liderança apenas para que seu filho, José Martiniano de Alencar, subisse no púlpito em frente à igreja e proclamasse a República na região, a República do Jasmim, nome de uma propriedade sua. Bárbara se viu impossibilitada de fazer a proclamação ela mesma. Não era atitude própria de uma senhora dona.

A Corte não perdoou a ousadia de Bárbara. Durante cerca de 4 anos, ela, bem como os filhos, andou presa, algemada, constantemente tranferida de uma capital para outra, do Ceará à Bahia. É posta em liberdade em 17 de novembro de 1920. Retorna à sua região, e em 1824 junto ao seu filho Tristão, é a maior figura da “Confederação do Equador”. Dona de influência bem maior que a da velha Fidera por ter alcançado celebridade em terra estranha, com o marido ainda vivo, após livrar-se da cadeia, passou a morar em uma fazenda no Piauí, nos mesmos moldes do Tatu de Federalina – agricultura de subsistência e engenho.

Também como Federalina, colecionava desafetos políticos, responsáveis pela divulgação da história de que alguns de seus muitos filhos não eram do marido, mas do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha. Os Alencar estavam fadados a ver punidos com força desmesurada, quaisquer suspeitas que sobre eles recaíssem. O assassinato de Pinto Madeira, monarquista ferrenho, atribuído a um dos filhos de Bárbara, valeu ao rapaz execução sumária. Em julgamento suspeito cassaram seu direito à vida. Pouco se sabe sobre a vida de Bárbara de Alencar. A matriarca, avó do escritor José de Alencar, morreu na década de 60 do século XIX.

Contemporânea de Federalina, Maria da Soledade Landin, conhecida por Marica Macedo ou Marica do Tipi, nasceu em Missão Velha, no Sítio Gameleira, logo mudando-se para Aurora, onde se casou com José Antônio Macedo, ou Cazuza Macedo, da mesma família dela. Cazuza Macedo morreu bem cedo, deixando cerca de dez filhos ainda pequenos, nove homens e uma mulher, Joana da Soledade, a preferida de Marica.

Marica e Federalina tiveram muito em comum: uma aliança de defesa mútua que previa desde ajuda com cabras, em determinadas questões, até acobertamento de parentes que tivessem cometido crimes. Não tinham disputas, ambas eram poderosas, situacionistas ferrenhas, sempre no partido do governo, e exerciam com grande violência o seu matriarcado. Mas os pontos comuns terminam por aí. Marica, viúva muito cedo, não guardou eterno luto. Casou-se, apesar da oposição dos filhos, com Antônio Abel, oriundo de Barbalha, junto à Serra do Araripe; ele também viúvo, conhecido por sua burrice incomum, sua tolice sem tamanho, sua grande ingenuidade. Quando os filhos alegaram junto à mãe a imbecilidade do padrasto, ouviram esta resposta ríspida: “Não quero saber se é besta, não quero saber de nada. Quero saber que ele me dê o que eu quero”.

A cerimônia do casamento de Marica foi uma verdadeira apologia ao entrelaçamento de famílias. Casaram-se conjuntamente seu irmão, Manoel Inácio da Cruz, com Maria Abel, filha de Antônio, e Raimundo Macedo, o Mundoca, filho de Marica, com a prima, filha de Manoel Inácio da Cruz. A festa realizou-se no dia 3 de janeiro de 1903, em Lavras, pois o vigário, Monsenhor Miceno, que ainda não havia se desgraçado com a velha Fidera, tinha que estar na cidade para celebrar missa por seu aniversário.

A notoriedade de Marica está diretamente ligada à Questão de 1908, em Aurora. Antônio Leite, irmão de uma das cunhadas de Marica, casada com seu irmão, José Francisco, e grande amigo do falecido Cazuza Macedo, era prefeito, intendente e coletor do município de Aurora, numa época em que as deposições de chefes políticos haviam se tornado freqüentes; justamente o tempo em que Honório, de Lavras da Mangabeira, filho de Fidera, foi deposto pela própria mãe. O tio do prefeito, Teotônio Leite, pai de Vicente Macedo, casado com a filha única de Marica, Joaninha, decidiu depor o sobrinho, chamando os Macedo para tomarem parte na campanha de deposição. Os filhos de Marica participaram de algumas reuniões, até que a matriarca, usando a sua autoridade, pediu que eles não comparecessem mais às reuniões, dadas as relações estreitas que o prefeito tinha com parentes deles.

Os filhos não hesitaram. Rapidamente avisaram Teotônio Leite de que estavam deixando o movimento, causando um esvaziamento geral. A campanha se apoiava na força e coragem dos Macedo. O coronel Teotônio nãp perdoou esse falsete e decidiu vingar-se com um cerco ao Sítio Tipi, seguido de um incêndio em todas as dependências. Mas o filho de Teotônio, Vicente Macedo, tratou de avisar a esposa que, para avisar à mãe perfez a galope, no lombo de um cavalo, as quatro léguas, cerca de 24 quilômetros, que separavam a cidade do sítio onde vivia a velha Marica.

Marica, sem perder tempo, reuniu os animais, e partiu com todos rumo a Missão Velha, cujo chefe político, Joaquim de Sant’Anna, era seu parente próximo e do marido; poderia ir também em direção a Barbalha, onde mandava João Raimundo Macedo, o Joca do Brejão, tio de seu primeiro marido.

Na mesma época em que Marica teve que se retirar do Tipi, havia na região uma briga séria entre os Santos, do Sítio do Taveira, e os Leite, com respeito à demarcação de terras ricas em cobre. Quando os Leite chegaram no Sítio do Taveira, à procura de Marica, houve luta, sendo morto seu filho caçula, Cazuza Macedo, de 14 anos, que junto com toda a família estava refugiado no local. Marica não se deixou abalar. Aos filhos que choravam a morte do irmão disse: “Não, deixa disso. Encosta ele num pé de parede e vamos lutar”. E ela mesma levou o filho até a parede, retornando à briga.

Aliás, disposição para lutar era o que não lhe faltava. Junto com vários coronéis da região, reuniu cerca de 600 homens, um verdadeiro exército que devastou Aurora. Os cangaceiros incendiaram casas e fazendas, estupraram moças de família, guardando o pior tratamento para as pessoas ligadas ao coronel Teotônio Leite. Essa investida dos jagunços, mandados por dona Marica, ajudada pelos coronéis mais fortes do sertão, Domingos Furtado de Milagres, Raimundo Sant’Anna de Missão Velha, o coronel Joca do Brejão e o coronel José Inácio de Barros, não foi reprimida; o grupo de chefes políticos já havia telegrafado ao presidente do Estado, representante dos Acioli, para que retirasse a força policial da cidade. E foram prontamente atendidos.

Depois de ter conseguido reunir seu exército de cabras, Marica Macedo ganhou o respeito do povo e dos coronéis, tendo sido uma das únicas mulheres, senão a única na época, a ocupar um cargo de decisão. Quando seu filho, Antônio Macedo, esteve à frente da prefeitura, o município foi dividido em partes para ser melhor administrado. Coube uma dessas áreas, a que se estendia em direção à Paraíba, à Marica, que aliás foi excelente administradora. Magra, rosto fino, onde se destacava um nariz grande, comprido e afilado, estatura mediana, tinha uma riqueza apoiada no tripé engenho/agricultura/pecuária, que orientava a produção de suas propriedades. Fez do Tipi um famoso coito de cangaceiros, esconderijo perfeito para o espaço ocioso entre uma pilhagem e outra; com eles Marica mantinha ótimo relacionamento, tendo-os à disposição sempre que precisasse.

A matriarca dos Macedo teve estranha morte, em 1926. Muito religiosa, Marica rezava todos os dias, e em suas preces diárias, pedia que Deus lhe concedesse a graça de jamais ver a morte de outro filho. Certo dia foram chamá-la às pressas no Tipi, pois Joana estava muito doente. As preces de Marica não foram em vão: quando entrou no quarto da filha foi acometida de estranho ataque que a levou à morte instantânea. Não viu morrer a filha, que só veio a falecer três ou seis dias depois. Quando foi feita a exumação dos ossos de Marica, encontraram sua dentadura na altura das costelas. Acredita-se que morreu asfixiada após engolir os dentes postiços.



O Casamento (por Rachel de Queiroz)

Na família – o ramo Saboia de minha avó Maria Luisa – vivia a lenda de Dona Federalina, a matriarca de Lavras, chefe do clã dos Augustos, senhores de baraço e cutelo na sua região.

Esse interesse dos Saboia pela dama sertaneja, dona da fazenda do Tatu, se explica: não é que nas últimas décadas do século XIX (lá entre 80 e 90) meu tio avô, o Doutor Gilberto Saboia, recém-formado bacharel em Recife, fora nomeado promotor de Lavras, e como tal integrado na elite social lavrense. Como tal foi convidado a uma festa, dada na fazenda do Tatu.

Doutor Gilberto era moço bonito, usava pince-nez, bigodinho louro e num retrato do álbum de família, aparece de terno claro, colete estampado, flor na botoeira – o que já era uma ousadia de dandy. Já então gostava de tomar umas e outras – principalmente quando o caso era de festa.

A festa tinha banquete e tinha danças – quadrilhas e polcas. As moças se enfileiravam sentadas, ao longo de uma parede e quando a música rompia os galãs vinham, curvados, solicitar a honra daquela valsa. Tal e qual nos romances do Doutor Macedinho.

Tio Gilberto não sei porque se engraçou de uma mocinha meio inssossa, encabulada, talvez feiosa. Por nome Zefinha – E só na quarta contradança ele descobriu que se tratava da própria filha da dona da casa. E pela boca de Zefinha mesma, que também tomara os seus cálices de ponche, e enquanto saltitavam numa polca, piscou o olho pra ele:

– A mãe já está de olho em nós, Doutor Gilberto.
– Mãe? Que mãe?
– Que mãe? Minha mãe! A velha Fidera, olhe!

Realmente, na sua cadeira de balanço austríaca (importada. Nesse tempo era tudo importado), Dona Federalina traçava o seu copinho de conhaque, dava uma palavra ou outra ao vigário sentado perto; e punha um rabo de olho especial no novo par constante. Doutor Gilberto teve até a impressão de que a dona também piscava para ele, e piscou de volta.

Zefinha mostrava-se meio agitada. Para a acalmar e acalmar-se levou à mesa do ponche, enquanto ele próprio se fortalecia com um licor mais vigoroso.

A vigilância da velha parece que os espicaçou. E até à saída dos músicos, manhã já clara, dançaram todo o tempo juntos, “de feição” como se diz lá.

De um em um saíam os convidados. Mas um pequeno grupo ia ficando. Afinal o Dr. Promotor, mais que alegrete, despediu-se floridamente de Zefinha, cheia de rubores, – e foi beijar a mão da dona do Tatu. Dona Federalina deu um balancinho na cadeira:

– Já quer ir doutor? Tenha paciência, a espera agora é pouca.

Doutor Gilberto ficou nervoso, não sabia bem porquê, devia ser a fama da brabeza da velha.

– Espera de quê, minha senhora?

A velha Fidera sorriu, tomou um gole de zinebra:

– Do casamento, doutor. O padre foi buscar os paramentos. Doutor Gilberto não entendia, ainda, e exclamou eufórico:

– Casamento? Eu adoro casamento. De quem?

Dona Fidera se levantou.

– O casamento seu com a Zefinha. Então o senhor pensava que ia passar a noite inteira dançando de feição com a minha filha e de manhã não casava com ela?

O primeiro impulso do promotor foi fugir. Mas em cada porta de saída do salão esvaziado avistou um cabra armado, cara fechada, cumprindo ordens.

Chegou o moleque com os paramentos do padre, trouxeram uns santos do oratório. Nesse tempo, ainda não tinha casamento civil.

Doutor Gilberto levou a mulher para o Amazonas, onde fez nome como advogado em Manaus. O casal teve muitos filhos e uma das meninas se batizou por Federalina, a minha prima Sinhá, que morava em Santos, tinha umas filhas lindas, fumava charuto e herdara de certo modo o temperamento da avó.

Doutor Gilberto nunca mostrou ressentimento à sogra, ia passar as férias no Ceará, ficavam os dois bebericando e contando casos pelas noites, no Tatu.

Zefinha é que nunca mereceu status – nem da mãe nem do marido. Era de partir e criar; não se sentava à mesa com ele, não aparecia às visitas, e nas férias em casa da mãe, preferia ficar na cozinha com as cunhãs; e até a morte o chamou, como no primeiro dia, de Doutor Gilberto.

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(*) PAPÉIS AVULSOS, n. 24, 1990. Coordenação Interdisciplinar de Estudos Culturais (CIEC/ECO/UFRJ)

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