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terça-feira, 14 de março de 2017

O filme de Scorsese é a melhor adaptação de "Silêncio" que conheço.

'Silêncio' é um livro infilmável porque a alma de um crente também é 

JP Coutinho 

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Um aviso: se o leitor não assistiu ao filme "Silêncio", o melhor é não prosseguir com a leitura. Haverá revelações que podem estragar o prazer cinéfilo, embora "prazer" não seja a palavra certa para resumir a história que o filme adapta.

Foi em 1966. O escritor japonês Shusaku Endo, católico, publicava o romance que Scorsese leu e nunca esqueceu. História conhecida: dois jesuítas portugueses partem para o Japão em busca do padre Ferreira. Teria ele apostatado, como se dizia? Em meados do século 17, a perseguição aos cristãos no Oriente exercia-se com arrepiante brutalidade.

Os jesuítas chegam às ilhas nipônicas. Encontram as primeiras comunidades clandestinas, que mendigam batismos e confissões. Mas a opressão das autoridades abate-se sobre os crentes. Na alma do padre Rodrigues, personagem central, a dúvida instala-se: onde está Deus perante o sofrimento dos seus filhos?

Silêncio. Quando os mártires japoneses são crucificados no mar, o que assombra Rodrigues é a indiferença das ondas e a banalidade da morte.

Rodrigues será também capturado: um dos seus "discípulos", o trágico e cômico Kichijiro, atraiçoa-o por 300 moedas de prata. E se escrevo a palavra "discípulo" é porque o romance de Endo permite vislumbrar uma "imitação de Cristo" na conduta de Rodrigues: perante todos os tormentos, ele debate-se com a sua fé. Mas compara-se sempre ao exemplo supremo do filho de Deus: Ele também foi atraiçoado; também padeceu angústias e tormentos; também entregou a vida para salvar todas as vidas.

Rodrigues, confrontado com o dilema crucial da história –renegar a fé para salvar o rebanho ou continuar fiel aos evangelhos e permitir que os japoneses sejam sacrificados–, acaba por apostatar. O sacrifício está consumado.

Acontece que "Silêncio" pode ter outra interpretação –e Scorsese sabe qual é: em prefácio para a nova edição do romance, o diretor relembra-nos a figura de Judas.

Em "Silêncio", existe um Judas literal –Kichijiro. Mas a questão é outra: não será Rodrigues, apesar da soberba com que se compara a Cristo, apenas um imitador de Judas? E não será a sua apostasia o preço necessário para que se cumpra um plano que é superior à vida de Rodrigues?

Quando li "Silêncio", concordei com Scorsese e vi no destino de Rodrigues essa mesma "via sacra": não a "via sacra" de quem cumpre os passos de Cristo; mas a "via sacra" interior de quem aceita finalmente a fraqueza de Judas. E, apesar disso, ou por causa disso, fortalece e salva a sua fé.

O filme de Scorsese é a melhor adaptação de "Silêncio" que conheço. Até porque existiu outra: em 1971, Masahiro Shinoda filmou o romance de Shusaku Endo com a colaboração no roteiro do próprio Endo.

Foi um desastre de proporções bíblicas, com o escritor a afastar-se publicamente do produto e a deplorar o final escolhido: Rodrigues, depois da apostasia, entrega-se aos prazeres carnais com uma paradoxal mistura de alívio e desespero.

Scorsese corrige essa versão grotesca com absoluta fidelidade à letra (e ao espírito) do romance. Mas é preciso reconhecer que o filme, arrastado e ilustrativo, só raramente atinge a densidade que a palavra escrita contém.

A culpa, se "culpa" é o termo adequado, não é de Scorsese. "Silêncio" sempre me pareceu um romance infilmável, porque infilmável é o tom da dúvida, da oração, da meditação, do orgulho, da humilhação e da compaixão que habitam a alma de Rodrigues. "Silêncio" é infilmável porque a alma de um crente também é.

Na "New Yorker", o sempre brilhante Anthony Lane escreveu, a propósito de "Silêncio", que Scorsese nunca foi um cineasta de "interioridades" (como Ingmar Bergman, por exemplo). Os seus melhores filmes precisam de "exterioridades" –grandes arenas de conflito espiritual habitadas por "touros indomáveis".

Concordo com ele. E digo mais: os melhores filmes religiosos de Scorsese não são os filmes literalmente religiosos (como "A Última Tentação de Cristo", "Kundun" ou "Silêncio").

A religiosidade profunda do diretor encontra-se nos dilemas de "Caminhos Perigosos"; no calvário de Travis Bickle (em "Taxi Driver"); ou na mais bela crucificação que o cinema já viu: a de Jake LaMotta, no ringue, golpeado por Sugar Ray Robinson (em "Touro Indomável").
Um conselho?

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