Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 26 de março de 2017

detalhes tao pequenos...

Personagens gordas não fazem mais o perfil 'rejeitada', diz Mariana Xavier 

Mônica Bergamo


"Vou perguntar pra ela quanto tá o pneu. Vou precisar de dois" ou "Nem esteira te aguenta, miss Diabete".
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Essas foram algumas reações de internautas à publicação pela atriz Mariana Xavier de uma foto dela com biquíni em uma praia no Rio, no fim de janeiro. Aos 36 anos, ela tem 1,57 m e 82 kg.
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Nos dias seguintes à publicação, a atriz gravou um vídeo sobre o tema em seu canal no YouTube, o Mundo Gordelícia. O que poderia se tornar um embate entre ela e os "haters" da internet ganhou um tom descontraído, mas assertivo da atriz.
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Mariana diz que os comentários negativos foram exceção. Prevaleceram gracejos como "linda" e "gostosa". "Quem me dá pedrada não vai me derrubar. Para mim, conta muito mais quando escrevem agradecendo, dizendo que virei exemplo de aceitação", afirma ela ao repórter Naief Haddad.
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Lançado em dezembro de 2016, o canal de vídeos é só uma das novidades que movimentam o cotidiano da atriz carioca no melhor momento da sua carreira.
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Também no fim do ano passado, entrou em cartaz o filme "Minha Mãe É uma Peça 2". Na comédia, Mariana retoma o papel de Marcelina, a filha de Dona Hermínia (Paulo Gustavo, também produtor do longa). Na continuação, a personagem, jovem aspirante a atriz, deixa a casa da mãe, em Niterói, para fazer teatro em São Paulo.
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Ela imaginava que a sequência seria bem-sucedida, como o primeiro filme, pelo talento de Paulo Gustavo ("tem um timing de comédia extremamente preciso"). Mas não esperava o fenômeno que o filme se tornou. Com mais de 9 milhões de espectadores, obteve o recorde de arrecadação do cinema brasileiro.
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A participação no primeiro "Minha Mãe É uma Peça", que estreou em 2013, foi o "grande acontecimento da minha carreira", diz Mariana. O êxito da parceria com Paulo Gustavo contribuiu para a ascensão da atriz na TV.
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No próximo dia 3, estreia na Globo a novela "A Força do Querer", que dará a Mariana seu principal trabalho na teledramaturgia desde sua estreia em 2007, no especial de fim de ano da emissora "Casos e Acasos" —ela tinha uma única fala, "Ahã", e em seguida saía correndo. Na novela de Glória Perez, que vai ocupar o horário das 21h, vive uma secretária que, a certa altura da trama, torna-se uma bem-sucedida modelo do universo "plus size".
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Também em abril, entra em cartaz outra comédia com Mariana. Em "Gostosas, Lindas e Sexies", ela interpreta Marilu ("uma gordinha sensual e bem resolvida"). Além dela, o filme tem Cacau Protásio, Carolinie Figueiredo e Lyv Ziese, "mulheres fora do padrão esquelético que querem enfiar goela abaixo da gente", na síntese de Mariana.
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"Ninguém reclamou do fato de as quatro atrizes serem magras na série 'Sex and the City'. Por que irão contestar que são quatro gordas no nosso filme?", indaga. Mariana afirma, porém, que não se trata de um filme com jeito de manifesto. "Não é um apartheid adiposo", ela brinca, lembrando que as questões estéticas estão presentes na produção, mas surgem em plano secundário.
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Em "Gostosas, Lindas e Sexies", ela gravou sua primeira cena de sexo na carreira. "Foi tenso!", enfatiza. "Na véspera, me deu uma angústia, fiquei com medo de travar e prejudicar a personagem. Tive uma crise de choro."
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Para conseguir filmar a cena, Mariana teve o apoio das colegas de elenco. "Pensa nas mulheres que você vai representar, que não costumam ser vistas como mulheres com vida sexual ativa", disse a ela Carolinie Figueiredo.
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As novidades vão além dos filmes e da novela. Também em abril, sai o livro "Gordelícias", com crônicas de Mariana e outras atrizes como Fabiana Karla. A obra é um desdobramento de uma campanha sobre autoestima lançada por elas em 2014.
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Na sessão de fotos para a coluna, no hotel Meliá Nacional, em São Conrado, no Rio, ela observa os comentários de internautas sobre uma imagem que havia acabado de publicar nas redes sociais. Na foto, tirada no fim de 2008, Mariana aparece junto com Juliana Paes e Rodrigo Lombardi num intervalo das gravações da novela "Caminho das Índias", em que ela fez pequena participação.
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Aquele era um período atribulado. Tinha acabado de se separar. Havia feito algumas peças, mas não conseguia se firmar na TV, seu principal objetivo àquela altura. Na época, seu avô lhe dizia que poderia bancar aulas para ela prestar concurso público. "Obrigada, vô, mas esse é meu plano Z. Tem todo um alfabeto antes", respondia.
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Convicta desde criança de que gostaria de ser atriz, Mariana participou de espetáculos amadores no Rio, onde nasceu, e em Vitória, onde passou parte da infância. Mas foi um longo caminho para ter estabilidade na profissão.
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Na adolescência, deu aulas particulares de matemática. Anos depois, foi professora de lambaeróbica em uma casa noturna e monitora de gramática em um colégio no Rio. A carreira no teatro ganhou fôlego em 2005 com uma adaptação de "A Cantora Careca", de Eugène Ionesco.
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A projeção nacional, porém, só veio mesmo com o filme ao lado de Paulo Gustavo. "Na rua, as pessoas me chamam de Marcelina", conta.
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"Até pouco tempo atrás, as personagens gordas eram sempre as rejeitadas. Isso tem mudado. Hoje há personagens gordas que se aceitam, que têm desejos e são desejadas", ela avalia. "O que falta agora é chegar ao meio-termo. Nem pessoas deprimidas nem muito bem resolvidas... 

Por que não 

uma personagem que seja advogada, casada, com filhos e que vista modelo 46?"

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