Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 26 de março de 2017

Quem iria se preocupar com as crianças que continuavam a morrer na África?

Sem geladeira 

Fernando Reinach 




É difícil imaginar que uma grande inovação, capaz de salvar milhões de vida, consiste no simples fato de criar algo que não necessita ser refrigerado. É o caso da nova vacina contra rotavírus. Quem já foi infectado por um rotavírus sabe - é horrível. Meu filho passou três dias com diarreia, vomitando. No segundo dia, minha mulher estava prostrada com um balde do lado da cama; no terceiro dia, me juntei ao grupo.

Apesar de quase todas as crianças serem infectadas pelo vírus, o estrago é mesmo feito nos países pobres. Nos Estados Unidos, entre 1993 e 2003, antes da primeira vacina estar disponível, eram 2,7 milhões de casos graves por ano, 60 mil hospitalizações, mas somente 37 mortes. Em países pobres, a situação é diferente. Os rotavírus são responsáveis por 37% das mortes infantis por diarreia, causando todos os anos 215 mil mortes em crianças com menos de 5 anos.

Que essas diarreias são causadas por um vírus é sabido desde 1942, mas ele só foi identificado em 1973. O vírus é transmitido pela via oro-fecal, o que torna quase impossível o controle em locais sem esgoto e água tratada. Como não existem medicamentos específicos, a reidratação é a base do tratamento. Vacinas foram desenvolvidas. Em 2009, a Organização Mundial da Saúde recomendou sua inclusão nos calendários de imunização. Aos poucos, as vacinas foram sendo introduzidas em mais de cem países e as hospitalizações por rotavírus foram reduzidas em até 90% nos países desenvolvidos.

Mas, como sempre, são os países pobres, principalmente na África subsaariana, que têm mais dificuldade em vacinar as crianças. E as razões são velhas conhecidas: alto custo e dificuldades logísticas. Entre as maiores dificuldades está o fato de as vacinas existentes, desenvolvidas por grandes empresas farmacêuticas, terem de ser estocadas e mantidas refrigeradas. Essa limitação, que não impede o uso da vacina nos mercados mais ricos, é uma barreira enorme nesses países.

Esse estado de coisas parecia fadado a se perpetuar. Os mercados capazes de pagar pelo produto não possuem dificuldades de refrigeração e as crianças estavam sendo salvas. Quem iria se preocupar com as crianças que continuavam a morrer na África? Daí a beleza dessa nova iniciativa. Uma empresa na Índia conseguiu desenvolver uma vacina que não precisa ser refrigerada. Ela continua ativa por dois anos se estocada a 37°C e por seis meses se guardada a 40°C.

Mas quem estaria disposto a pagar pelos testes? As grandes farmacêuticas não desejavam um concorrente, a empresa da Índia não tinha dinheiro, os governos dos países interessados tampouco. Foi então que a organização Médicos Sem Fronteira, uma ONG europeia que recruta médicos que desejam trabalhar em países pobres (e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1999), resolveu encampar o projeto. Em menos de três anos, começando em 2014, os Médicos Sem Fronteira organizaram e executaram um estudo clínico na Nigéria com mais de 4 mil crianças. Esse estudo, comparando a vacina a um placebo em estudo duplo-cego (onde nem quem aplica a vacina nem quem examina os doentes sabe quem recebeu vacina e quem recebeu placebo) acabou este ano e os resultados foram publicados.

Eles mostram que a vacina indiana é tão ou mais eficiente que as existentes no mercado. Como ela não necessita de refrigeração e seu custo de produção é menor, o custo por criança vacinada pode ser muito reduzido. Fora essa vantagem econômica, a vacina pode viabilizar a imunização em massa nos países pobres, o que provavelmente significa quase 90 mil mortes evitadas todos os anos.

É uma nova tecnologia, capaz de salvar milhões de vidas, e o que há de novo? Que ela funciona sem geladeira! O interessante é que foi a combinação de uma empresa indiana, que entendia o que é a falta de uma geladeira, e uma ONG, que trabalha há décadas nesse ambiente, que garantiu o desenvolvimento da vacina. Algo que provavelmente não teria acontecido se dependêssemos somente das grandes farmacêuticas.

MAIS INFORMAÇÕES:EFFICACY OF A LOW-COST, HEAT-STABLE ORAL ROTAVIRUS VACCINE IN NIGER. NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE. VOL. 376, PÁG. 1.121 (2017)
* É BIÓLOGO

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