Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

há criaturas como a cana: mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura, acredito que mamãe é uma dessas.

José Alves Pereira Filho 

Minha fortaleza: a sapeca da Joana.Mamãe, que hoje completa 92 anos, continua firme e forte; danada ao extremo. 



Liga os motores às cinco da manhã e, silenciosa, começa a fazer o café. Na noite anterior já deixou a vasilha do leite, a garrafa e os outros utensílios postos na mesa da cozinha, para não perder tempo, como se tivesse algum compromisso com ele.



Dos oito filhos que vovô (Francisco Alexandre) e vovó (Maria da Conceição) tiveram, somente ela e um irmão (Joaquim, com 87 anos de idade) estão vivos.

Leitura formal pouco tem, porém lê, com maestria, as angústias dos filhos, das noras e genros; interpreta, como se doutora pós-graduada fosse, os pedidos enigmáticos dos netos e bisnetos.

Inspirando-me na marcante definição de pessoas doces, que Dom Hélder Câmara nos legou, quando disse que há criaturas como a cana: mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura, acredito que mamãe é uma dessas.

Já sentiu a consternação que é uma mãe enterrar um filho, experiência vivida quando faleceram os irmãos Tarciso e Jacinta, mais logo estava no seu cotidiano; já se abalou com as dores da separação, quando sepultou papai, com quem conviveu por quase setenta anos, mais logo estava na luta diária.



Premida por tão acentuadas circunstâncias, continua vivendo cada dia com doçura e, sobretudo, fé.

Simula que é tocadora de sanfona; faz presepada com guarda-chuva como se quisesse pular frevo; incorpora, quem sabe, Maria Bonita ao lado do seu Lampião e encanta-se com a imensidão do mar.


Quisera, mãe, ter um pouco dessa sua determinação e jovialidade.

Beijo suas mãos. Parabéns!

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