Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

O último artigo

Com este texto, encerro minha colaboração como colunista da Folha

Vladimir Safatle 




A ideia era escrever um artigo de encerramento no qual anunciaria o término de minha colaboração como colunista desta Folha. Mas eu só conseguia me lembrar de uma passagem de "Minima Moralia", de Adorno, na qual ele disserta sobre como seria atualmente impossível fechar portas.

Segundo Adorno, as pessoas teriam perdido a capacidade de fechar sem bater, de fazer os gestos curvos de quem leva uma porta a seu, digamos, lugar natural. As portas seriam feitas hoje de forma tal a convidarem os sujeitos a soltá-las com força, como quem está muito apressado, mesmo que não tenha nada realmente para fazer. Nessa mutação dos gestos de fechar uma porta, seria possível ler toda a sutil disciplina dos corpos a que nós estaríamos submetidos.

Bem, Teddie, depois de certo tempo, as ilusões sobre si vão embora. É verdade, acho que nunca aprendi a fechar uma porta. Todos os términos foram feitos como quem, meio sem querer, deixa a porta escapar, ouve o barulho produzido involuntariamente e diz: "Droga, não era nada disso".

É, fechar uma porta é arte que poucos têm. De toda forma, escrever um artigo que deveria ser o último também não é nada simples. Talvez isso sempre será mesmo algo da ordem do impossível.

Afinal, se ele fosse possível, eu escreveria, inicialmente, que agradeço a todos os leitores que, nesses praticamente dez anos (comecei em meados de 2010), acompanharam meus escritos semanais com comentários, sugestões e apoio.

Escreveria também que agradeceria inclusive aos leitores que esperavam minha coluna para sempre criticá-la, pois várias dessas críticas me foram úteis e preciosas.

Por fim, agradeceria ao jornal que me deu uma rara liberdade total de escolha de temas e de escrita durante um longo prazo de tempo, mesmo em situações nas quais eu discordava de maneira explícita de editoriais e opiniões expressas por seu corpo editorial.

Mas, como vocês podem ver, o problema é que se foi aí apenas um parágrafo e, bem, de um artigo se espera um pouco mais. E, nesta hora, pensei nos artigos que gostaria de ter escrito: um sobre a poesia de Óssip Mandelstam, outro sobre a poesia de Paul Celan, sobre Jacques Tati e a arte de tropeçar no cenário, sobre Nick Cave (é, eu deveria ter aproveitado o momento de seu show e escrito algo), sobre Gerhard Richter, sobre os que não sabem fechar portas, sobre o pensamento motívico em Pierre Boulez (mas esse ninguém ia ler mesmo).

O problema é que sempre havia uma sucessão impressionante de fatos de um país em decomposição. Como este último, que seria meu tema desta coluna, ligado à revelação de uma das histórias mais sórdidas de um país repleto de histórias sórdidas.

A história de um juiz que se associa à Promotoria de forma criminosa, retirando todo o direito do acusado em ser julgado por alguém isento e equidistante ("Nada de mais", não é mesmo Sergio?), prendendo-o ao final para retirá-lo de um pleito presidencial no qual ele estava à frente, para depois ser nomeado ministro da Justiça por aquele que ajudou a eleger e pavimentar suas próprias pretensões presidenciais para 2022.

A história do juiz que teria se tornado presidente prendendo seu próprio maior opositor. É difícil pensar em algo mais escandaloso.

Quando reeditou seu "História da Loucura", Michel Foucault se viu diante da necessidade de escrever um novo prefácio. Sem saber muito como fazê-lo, ele suprimiu o prefácio antigo e tentou justificar a impossibilidade de fazer um novo prefácio. Ao final, só lhe restou escrever duas frases: "Mas você acabou de escrever um prefácio" e "ao menos, ele foi curto".

Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

é bom que se diga

Amiguinhos, parem com isso, Moro não vai renunciar. Moro não vai sequer admitir que fez alguma coisa errada. Sérgio Moro é um alpinista político, de ambições gigantescas, que subiu até este ponto em marcha acelerada e avalia estar bem perto do topo. Descer para o sopé e viver uma vida sem glória, justo agora quando multidões de moristas gritam "sobe!,sobe, que a gente não deixa eles te pegarem!"? Não há hipótese. Recuar é morrer. Moro só desce se for jogado. Moro não tem princípios, Moro tem é apetite. E pressa. Moro sabe que Jair só está guardando o seu lugar. Vai, Moro, vai!

Por que é difícil sair desta crise?

País tem síndrome múltipla, 40 anos de crise crônica e uma década de loucura

Vinicius Torres Freire

A construção civil acha que vai crescer 0,5% neste 2019. Em janeiro, esperava avançar ainda medíocres 2%. A estimativa é da FGV, feita para o SindusCon de São Paulo, anunciada nesta terça-feira (11).



Sem obras, vai ser difícil sair da crise. Metade do investimento (em máquinas, moradias, instalações produtivas) vem da construção. É do investimento que vêm as viradas da economia. O setor, que emprega uns 8% dos trabalhadores, foi o mais arruinado na recessão (vide gráfico).

É impossível dar tratamento tópico, específico, aos problemas da construção sem cuidar também da síndrome depressiva multidimensional que desgraça a economia. Mas, no meio do caminho da cura, é preciso dar atenção à pedra das obras.

Sim, síndrome múltipla. A julgar por estudos dos economistas, a economia entrou em recessão extravagante e derivou para a depressão porque:

1) em 2014, estava inflacionada. O IPCA devia estar entre os 6% da média 2010-2014 e abaixo dos 11% de 2015, quando acabaram os tabelamentos de preços. O déficit externo (uma medida de excesso de consumo) chegava ao nível de alerta de 4% do PIB. A indústria estagnara desde 2010. Por problemas de preço e qualidade, o país importava bens industriais, parte do crescimento "vazava" para o exterior. Era uma economia sem musculatura e agilidade para correr no ritmo em que vinha no terço final dos anos petistas;

2) é baixa a produtividade, problema crônico faz 40 anos e evidente na situação da indústria mesmo nos anos do pico do PIB: vivia estagnada;

3) quando PIB e arrecadação de impostos chegavam ao pico, em 2014, a despesa fixa do governo estava nas alturas. Com a crise e, pois, perda de receita, o buraco nas contas públicas, o déficit, passou a abrir de modo desastroso;

4) alta de juros e déficit fizeram a dívida pública explodir;

5) há choques políticos faz seis anos: Junho de 2013, eleição de 2014, estelionato eleitoral e campanha da deposição de Dilma Rousseff em 2015, impeachment em 2016, Joesley Day e fiasco das reformas de Michel Temer em 2017, caminhonaço e eleição de 2018. Tal tumulto deprime a confiança de consumidores e empresas;

6) a economia mundial ficou lerda;

7) a intervenção inepta na economia contribuiu para avariar setores (petróleo, álcool, elétrico) e desperdiçar capital em investimento ruim (refinarias e petroquímicas, obras de Copa e Olimpíada, excesso de fábricas de carros, obras de infraestrutura mal planejadas, paradas pelo caminho etc.). As reduções de impostos para empresas e o meio trilhão de reais de endividamento público para subsidiar investimento privado a juros baixinhos deram em nada;

8) a penúria do governo redundou no corte brutal do investimento em obras, ainda mais reduzido por causa da crise dos estados, quebrados pelo gasto excessivo em salários e Previdência;

9) a dívida federal ainda cresce sem limite, e o governo faz déficit para pagar despesas correntes. Assim, aumentar despesa de investimento a fim de estimular a economia é um problema nada trivial;

A sucessão rápida de governos (três em quatro anos), inépcia, instabilidade macroeconômica e velhos problemas regulatórios prejudicam as concessões de obras de infraestrutura para a iniciativa privada. Tal programa pode em parte compensar a depressão dos investimentos governamentais e das demais empresas privadas, na retranca por excesso de dívida, de capacidade ociosa e por medo crônico da crise sem fim.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

pingos nos iis.

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Moro é o exu-tranca-ruas. Dallagnol, a galinha morta.

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a besta de Uirauna, parece, acordou.

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terça-feira, 11 de junho de 2019

ora se vale!

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os operadores do direito não necessitam ler o presente texto, eles já sabiam mas se faziam de bobos.

Vou explicar algo que pode ser óbvio para os advogados, mas é desconhecido por muitos. Se o juiz é flagrado orientando uma das partes no processo, ele se torna suspeito, pois perde a imparcialidade necessária ao julgamento. 

Trata-se de pressuposto de validade do processo e o aconselhamento de parte é previsto como elemento de suspeição no artigo 261 do Código de Processo Penal. Nestes casos, todos os atos do juiz suspeito são nulos, devendo o processo recomeçar com a condução de outro magistrado. Logo, do ponto de vista processual, não interessa mais a análise das provas colhidas ou o mérito das decisões no processo que condenou Lula. A parte já revelada das gravações, cujo conteúdo não foi negado pelos interlocutores, revela, na melhor das hipóteses, uma orientação sistemática do ex-juiz Sérgio Moro aos procuradores, que representam uma parte no processo penal. O resultado é a nulidade absoluta do processo, ainda que as intenções do magistrado fossem as melhores possíveis. Um juiz nunca pode orientar ou aconselhar o advogado de uma das partes, sob pena de tornar-se suspeito. O julgamento por um juiz imparcial é um direito incluído na Declaração Universal dos Direitos do Homem e foi consagrado na Carta Magna Inglesa de 1.215. Lula deve ser libertado como forma de preservar o que ainda existe de Estado de Direito em nosso país.

Sergio Batalha Mendes

acunha! é assim que se diz lá no Nordeste.

Brasil é incluído em “lista suja” da OIT sobre leis trabalhistas... 



chama o encanador

"Renato Janine mostra porque sempre precisamos de filósofos: ajudam a organizar ideias, a passar tudo no prisma e achar respostas."



Renato Janine Ribeiro
Brilhante, a estratégia de Glenn Greenwald:
1. Assumiu o protagonismo do jogo. Seus alvos estão fazendo exatamente o que ele quis ou previu. Ele controla o tabuleiro. Pela primeira vez desde 2015, a extrema-direita perdeu a iniciativa.
2. Os procuradores e Moro responderam a ele justamente o que ele queria: confirmaram a autenticidade das fitas. Foram debater a forma, não o conteúdo. Assim disseram: você, Glenn, diz a verdade.
3. Ele previu até o argumento que iam usar: a defesa da lei e da privacidade. E respondeu a isso domingo, antes mesmo da reação do grupo: vcs não fizeram isso com Dilma? Que moral têm? Assim, tirou deles o argumento moral, que era o principal da LavaJato e que esta conduziu para a ideia de que os fins justificam os meios.
4. Enquadrou a mídia pátria. A imprensa internacional caiu matando. A Folha de hoje tem um relato bom das reações no estrangeiro. E os jornais de fora que li chamam todos nosso governo de exceção de “extrema-direita”. Nenhum usa o eufemismo “direita” (direita é Merkel, cara-pálida!) ou “liberal” (liberal é o Economist, stupid!). Vai ser difícil passar pano por muito tempo.
5. Ao dizer que não divulgaria as intimidades dos membros do grupo, mostrou-se superior a eles (que publicaram conversas privadas de dona Mariza - sem falar na subtração do iPad do pequeno, hoje falecido, Artur) - e deve ter causado medo de que divulgue. Acuou-os.
6. Finalmente, anunciou que soltará mais dados a conta-gotas. Tornou-se senhor do tempo ou, se quiserem, é quem decide quais serão as próximas etapas, o desdobramento do assunto (até porque ninguém sabe o que ele sabe).

Laerte genial

Conservadores não radicais falam sobre como pensam o Brasil hoje

Veja depoimentos de brasileiros com visão 'intermediária' no aspecto político e econômico

Folha de SP



Para uma pesquisa sobre conservadorismo no Brasil, a Fundação Tide Setubal, em parceria com a empresa Plano CDE, entrevistou 120 cidadãos brasileiros considerados “intermediários”, que não estão entre aqueles de renda mais baixa ou alta; não são adeptos mais extremos de opiniões tidas como conservadoras, mas certamente não são de esquerda ou seus eleitores recentes.

Os resultados da pesquisa foram apresentados durante o debate O Conservadorismo e as Questões Sociais, realizado pela Fundação Tide Setubal, com apoio da Folha, no auditório do jornal, na segunda-feira (10).

Para reportagem sobre o evento, a Folha colheu depoimentos de brasileiros com perfil semelhante ao dos que aparecem na pesquisa, e que vivem nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife (PE).

Carioca, Leonardo Gonçalves França, 41, trabalhava até o ano passado como vendedor. A empresa, segundo ele mal-administrada, fechou durante a crise. Gonçalves vive agora do táxi.

Casado há dois anos, tem um filho e um enteado. O taxista diz que o brasileiro não se tornou mais conservador, sempre foi.

Viemos de vários governos onde as coisas foram ficando mais difíceis: a criminalidade, a economia, a corrupção. O Bolsonaro foi uma aposta, feita para ver se conseguimos mudar um pouco.

Não acredito que o Brasil tenha se tornado mais conservador. Sempre fomos. As pessoas falam que apoiam os filhos mesmo que sejam gays ou usuários de drogas. Apoiam mesmo. Mas não gostariam que fosse assim. São mães que gostariam de ter netos e vê-los crescer perto da nora ou do genro. No fundo sempre fomos conservadores.

O que houve foi que aumentou essa história de politicamente correto, com novelas com casais que sempre soubemos que existiram, mas que nunca haviam sido mostrados em rede nacional. As pessoas começaram a reagir.

Por mais de 20 anos fui ateu. Vários acontecimentos me fizeram voltar a acreditar em Deus e Jesus. Hoje sou espírita, mas isso não influencia o meu voto. Procuro ver um pouco da história de cada político.

Fiquei anos, mais de quatro eleições sem votar. Não tinha vontade, achava que não tinha uma opção que me agradasse, não me identificava com nenhum político. Então não votava, depois ia lá e pagava a multa.

Em 2005, os políticos nos deram um golpe: quase 64% da população era contra o Estatuto do Desarmamento, mas mesmo assim o Congresso fez a pauta. Eu sou favor da posse, porque hoje qualquer bandido armado sabe que se ele não esbarrar com um policial, bombeiro, agente penitenciário ou delegado, ele não vai encontrar resistência. Mas sou contra o porte.

Hoje a direita assumiu o poder depois de décadas de governos de esquerda. O tempo que tivemos até agora, de cinco meses, o governo está enxugando os gastos, fechando algumas torneiras. Acho que eu esperava algo maior, ou melhor. Mas não dá para fazer uma avaliação do Bolsonaro, ainda está muito cedo.

Nataly Gomes da Silva tem 27 anos e está desempregada há três. Já foi auxiliar administrativa e porteira. Nascida em Ferreiros, no interior de Pernambuco, veio com a família para São Paulo aos cinco anos.

Cresceu e mora até hoje na favela São Remo, ao lado da USP, na zona oeste. Não tem religião. Frequenta um cursinho popular e estuda para passar em pedagogia —quer trabalhar com crianças pequenas.

Seu marido, segurança de prédio, acha que ainda não está na hora de ter filhos. Os dois votaram em Bolsonaro nos dois turnos no ano passado.

Não sou muito de ver política. Votei no Bolsonaro para colocar uma pessoa nova no poder. É difícil votar várias vezes na mesma pessoa e ver que não está resolvendo.

Ele chegou ao poder sem dinheiro e tem quatro anos para arrumar o país. Se não, ninguém vota nele de novo.

Eu votei na Dilma, votei bastante no PT, que fez muitas coisas boas. Onde a avó do meu marido mora, no interior da Bahia, não tinha luz nem água antes do PT. Mas teve coisas ruins que nós temos que falar também.

Não me considero nem de esquerda, nem de direita. O que importa é o bem da sociedade. Se o cara do PT tivesse vencido, eu apoiaria para ele fazer o que tivesse de fazer para mudar.

O pessoal critica muito o Bolsonaro, dizem que ele não faz nada. Você tem que pensar que o outro partido ficou sei lá quantos anos no poder, e um monte de coisa foi cortado, só que ninguém reivindicou. Aí o cara fala que vai cortar verba porque não tem dinheiro e a gente sabe que tem muito estudante que vai na universidade mas não é para estudar.

É muito fácil falar, ‘Ah, ele é machista’. Qualquer um pode ser machista hoje. Tudo que acontece de ruim cai sobre o presidente. Eu acho que não é machista, não. Não vejo nada que me desagrade.

A mídia manipula muito o Bolsonaro, dizendo que ele não gosta de negro, não gosta de gays. Não acho que é verdade. Cada um tem o seu gosto. Quantos aí também não gostam de negro, não gostam de gay? Não é porque ele é presidente que ele não pode dar a opinião dele.

Meu marido é negro e votou nele. Tem muita gente negra que votou nele sem essa burocracia de racismo. Se ele não gostasse dos gays, não ia botar essa lei que ele aprovou agora, da homofobia.

Como também concordo que a maioridade penal deveria diminuir. Se uma pessoa de 11 anos matou [alguém], ela tem que ficar lá [na prisão] pelo resto da vida. Para mim não tinha nem que ter visita íntima, só do pai e da mãe. Vejo muita gente não fazendo nada [na Fundação Casa], voltam cada vez piores.

Acho que, quanto mais polícia na rua, menos bandido vai ficar à solta. Porque eles não vão botar a cara a bater. Tem que ter controle do policiamento, controlar a corrupção dentro da polícia, dentro da política, de todos. Igual esse Coaf, que tiraram do Moro. Por que o pessoal tirou dele? Porque quem é corrupto não quer ser pego.

O povo acha que ele [Bolsonaro] vai aprovar a lei da arma e você vai achar na prateleira do supermercado. É o que muitos acreditam! A violência está ruim. O armamento não vai adiantar em nada. Não sou contra nem a favor, fico no meio-termo. Os policiais é que devem ter arma, nós não. A pessoa já é estressada no dia-a-dia. Com uma arma na mão, ela só vai fazer mais cagada. A arma mais barata deve ser a partir de R$ 5 mil. Eu não tenho nem R$ 2 mil! Então quem tem dinheiro [para comprar]? Quem é classe média-alta, né. Porque na comunidade vai ser muito difícil você achar alguém armado.

Quando a gente parar de criticar e fizer, o mundo vai para frente. Tem que fazer pelo próximo, e não esperar o próximo fazer pela gente.

Evangélico, o servidor público Severino Gonçalves da Silva, 45, acredita que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) está sendo criticado por contrariar interesses históricos no âmbito político.

Agente de ressocialização na secretaria estadual de Pernambuco, ex-segurança privado, Silva é a favor de flexibilizar a posse de armas, acredita que a família tradicional é a base da sociedade e defende que a educação sexual fique longe do ambiente escolar.

Eleitor de Bolsonaro nos dois turnos, diz que a religião é o fundamento de tudo. Divorciado e pai de uma adolescente de 17 anos, Severino ganha R$ 1,3 mil e tem esperança em dias melhores para a economia brasileira.

A família é uma instituição divina que precisa ser bastante sólida. É a base necessária para enfrentarmos os problemas individuais e coletivos.

Temos atravessado uma fase muito difícil no nosso país, com diversos escândalos nos mais variados setores.

Os políticos fazem promessas durante a campanha e aproveitam o pouco esclarecimento da população e ausência de meios de fiscalização para perpetuar esta enganação. De uma maneira genérica, é assim que os vejo.

É decepcionante para o eleitor quando promessas não são cumpridas. Acho que, de certa maneira, o presidente Jair Bolsonaro, como tem pouco tempo ainda, está sendo muito firme e determinado naquilo que propôs ao país.

Ainda não é possível fazer uma análise profunda. Até agora, têm aparecido críticas em relação a diversas coisas.

Dizem que ele atua com radicalismo. Não vejo assim. Ele tem contrariado certos interesses no âmbito político e enfrenta obstáculos para executar suas ideias.

A flexibilização da posse de armas é um dos pontos. Eu não sou contra. Evidente que requer bastante cuidado. Em que mãos essas armas estarão? O controle é necessário para não ser algo que gere mais violência.

Defendo os direitos humanos. Acho que são valores importantes. A gente escuta muita gente falar que direitos humanos só servem para defender bandidos. Não é bem assim.

Tudo precisa ter ligação com a religião. É a nossa ligação com Deus. O homem que não tem Deus em sua vida pratica aberrações.

Os homossexuais, por exemplo, do ponto de vista bíblico, estão errados. O homossexualismo desconstrói a base da família.

Não pode existir família constituída entre pessoas do mesmo sexo. A palavra de Deus criou o homem e a mulher. Criou Adão e Eva. Não criou Adão e Ivo.

A sociedade quer impor uma mudança radical contra os princípios bíblicos. Daí a gente observa situações difíceis porque os princípios morais não são preservados.

A questão da educação sexual, por exemplo, não deve ser tema do ambiente escolar. Educação sexual deve ser papel da família, do pai e da mãe. Não da escola.

Eu

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muito

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'Vaza, vaza, balão'

As festas juninas vêm aí e, apesar das proibições, o Brasil continua a soltar balões; domingo, um dos mais longevos e bem-sucedidos vazou: a Lava-Jato


 Arnaldo Bloch


As festas juninas vêm aí e, apesar das proibições, o Brasil continua a soltar balões: só o presidente da República alça pelo menos um balão de ensaio por dia, que se choca com os balões parlamentares e judiciários, entornando a canjica do povo. Domingo, a quatro dias de Santo Antônio, um de nossos balões mais longevos e bem-sucedidos vazou: a Lava-Jato, num estouro imediatamente hashtagueado sob a alcunha de #vazajato e visto como criminoso por baloneiros de carteirinha.

Sejamos francos: faz já um bom tempo que o Brasil é movido a vazamentos. Legalmente ou extrajudicialmente, seletivamente ou de um só estouro, a bexiga nacional é disputada a tapas, agulhadas, beliscões e delações. Já faz dois anos que Joesley gravou e vazou os balões de Temer e Aécio, mandando para o espaço um zeppelin de “certezas”. Antes, Moro lançou ao ar o sigilo telefônico da então presidente da República, vazando o balão da constitucionalidade.

Foi um festival de balões, com seus furos e contrafuros. Moro acabou, autocraticamente, estufando e empinando o seu próprio balão, apesar das escusas. Dirigíveis vermelhos murcharam nos céus num apito atroz. Balões exóticos, como o de Bessias, na verdade Jorge Messias, profetizaram a vinda de outro Messias, Jair, sob cuja rédea o país ora ora (advérbio e verbo).

Mais recentemente, em perfeito timing pré-eleitoral, o juiz alçou um pombo sem asas à guisa de balão, que vazou em proveito do mesmo Messias, que, de tanto não dizer ao que vinha, veio. E, junto com ele, foi também o juiz que queria ser rei, numa apoteose de artifícios.

Por isso soa tão irônico, como uma troça de São João, ver essa estrela insurgir-se, com suas rugas e rusgas, contra os azares dos seus vazares pessoais imiscuídos na função pública. Afinal, ele é autoridade em tornar público o que é privado, e depois escusar-se, em nome da pátria, esse balão cultural.

O ofício de Moro em vazar valeu-lhe seu quinhão na cena política. A vaidade rude que sempre emoldurou, nas têmporas tensas, seu sorriso crispado, vem contudo sendo vazada pelo senhor capitão. A cada passagem pela fogueira, chamusca-se a lona.

No fim da via crucis , na távola do olimpo magistral, ele vê uma cadeira caramelo para chamar de sua. Irá o povo às ruas pelo seu legado alardeado em palestras e outras festas? Quem soprará o fole, impedindo que vaze de vez o aeróstato de São Juiz? Ou, quem sabe, levando-o, acidentalmente, aos patamares temidos pelo grande irmão baloneiro?

Poderia ele ter levado a cabo sua missão, que lá com todas as suas contradições, excessos, conduções, alçapões, coerções, tinha os seus muitos méritos. Teria sido, ao menos, coerente com o que se propôs.

Mas sua sede de tudo poder, de tudo mudar, de se sobrepor às instituições; sua pretensão de chamamento divino (que hoje habita o delírio de metade dos homens públicos) e outras fraquezas fizeram que o seu hindenburg superaquecesse. Agora, uma nuvem de chumbo, hélio, enxofre, hidrogênio, escapou do tanque da história. “Olha a chuva! É mentira!”, já ecoam os arraiais. Se não for um dilúvio, teremos tempo de aprender que um dos sinônimos de balão é balela.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

As conversas da Lava Jato

A tese de que Lula não foi julgado dentro da normalidade jurídica ganhou força 

Celso Rocha de Barros



O site Intercept Brasil divulgou neste domingo (9) o conteúdo de mensagens trocadas entre Sergio Moro e procuradores da Lava Jato em momentos-chave da história da operação.

É coisa séria, é coisa grande, e é coisa que deve ter efeitos sobre o diálogo político nacional.

Antes de mais nada, vamos ao que os vazamentos até o momento não mostram (o Intercept Brasil anunciou que há mais material a ser publicado): não há falsificação de provas ou coisas do gênero. Ninguém foi inocentado pelos vazamentos do Intercept.

No geral, as conclusões gerais da Lava Jato sobre como o cartel das empreiteiras financiava todos os grandes partidos políticos continuam de pé.

Mas o quadro que emerge sobre o julgamento de Lula é ruim. Não há nada nos vazamentos que prove que Lula é inocente, mas há sinais fortes de que seu julgamento não foi normal.

Em uma conversa de 7 de dezembro de 2015, Moro deu uma pista relativa ao caso Lula para que Dallagnol investigasse: "Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodado por ter sido ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transferência de propriedade de um dos filhos do ex-Presidente".

Moro era o juiz do caso. Não poderia ajudar nem a defesa nem a acusação.

No episódio em que a entrevista de Lula para a Folha durante a campanha foi censurada pelo STF, procuradores falaram abertamente em passar para outros órgãos de imprensa —em especial o site O Antagonista— um modelo de petição para também participar da entrevista.

A ideia seria "tentar ampliar para outros, para o circo ser menor armado e preparado. Com a chance de, com a possível confusão, não acontecer".

E, para quem tinha dúvidas, fica claro que não há grande simpatia pelo Partido dos Trabalhadores na força-tarefa. Em uma conversa, uma pessoa identificada como CarolPGR diz que está rezando para que o PT não volte ao poder, e recebe como resposta de Dallagnol: "reze sim".

O que fica disso?

Há a possibilidade real do julgamento de Lula ser contestado, e dessa vez com mais razão.

Haverá argumentos jurídicos e pressão política de todos os lados, ninguém pode prever o que vai acontecer, mas o fato é que a tese de que Lula não foi julgado dentro da normalidade jurídica ganhou força.

Se a história for essa mesmo que emerge dos vazamentos, é uma história triste. Sempre votei em Lula, mas não contestei sua prisão nesta coluna. É bem ruim que não tenha sido tratado equanimemente.

O caso da censura à entrevista durante a campanha eleitoral também é péssimo.

O efeito eleitoral da entrevista —uma procuradora chega a dizer "Pode eleger o Haddad"— não deveria ter qualquer efeito na decisão do caso.

Se Lula, como preso, tinha o direito de dar entrevistas —e, baseado no precedente de outros presos, era claro que tinha— seu caso deveria ter sido tratado como o de qualquer outro cidadão.

É uma hora difícil para pedir nuance e equilíbrio, mas vamos lá: a Lava Jato não foi desmoralizada, ninguém foi inocentado.

Mas há bons motivos para suspeitar que não houve equidistância no entusiasmo com que os dois lados da disputa política foram tratados.

O ministro Sergio Moro parece ter cruzado linhas importantes no julgamento de Lula.

Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

"Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico Do objeto-sim resplandecente descerá o índio."

Mensagens de Moro colocam em dúvida equidistância da Justiça, diz Marco Aurélio Mello


Para ministro do STF, relação entre juiz e procurador tem que ser 'no processo, com ampla publicidade' 


O ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), disse neste domingo (9) que a troca de colaborações entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, vista em mensagens publicadas pelo site Intercept Brasil, põe em xeque a equidistância da Justiça.

"Apenas coloca em dúvida, principalmente ao olhar do leigo, a equidistância do órgão julgador, que tem ser absoluta. Agora, as consequências, eu não sei. Temos que aguardar", afirmou o magistrado.

"Isso [relação do juiz e procurador] tem que ser tratado no processo, com ampla publicidade. De forma pública, com absoluta transparência", acrescentou.

Marco Aurélio evitou, no entanto, comentar detalhes do caso. Ele disse que é preciso aguardar para analisar se as revelações terão alguma interferência na Operação Lava Jato.

O conteúdo divulgado neste domingo expõe como Moro sugeriu ao MPF (Ministério Público Federal) trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão judicial.

Moro, em nota, negou que haja no material revelado "qualquer anormalidade ou direcionamento" da sua atuação como juiz. Ele deixou a carreira na magistratura em novembro, quando aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para ser ministro da Justiça e da Segurança Pública.

Após a publicação da reportagem, a equipe de procuradores da operação divulgou nota chamando a revelação das mensagens de "ataque criminoso à Lava Jato" e disse que o caso põe em risco a segurança dos integrantes do órgão.

Entre as mensagens que vieram a público, estão conversas de procuradores do MPF reagindo com indignação à decisão do STF de autorizar a Folha a entrevistar Lula pouco antes do primeiro turno da eleição de 2018. Depois de idas e vindas na corte, o caso teria desfecho apenas neste ano —o jornal só recebeu permissão para falar com o petista em abril.

Segundo o Intercept, o procurador Athayde Ribeiro Costa sugeriu na época que a Polícia Federal adotasse uma manobra para adiar a entrevista para depois da eleição, sem deixar de cumprir a decisão da Justiça.

A procuradora Laura Tessler fez referência aos ministros do Supremo: "Que piada!!! Revoltante!!! Lá vai o cara fazer palanque na cadeia. Um verdadeiro circo. E depois de Mônica Bergamo [colunista da Folha], pela isonomia, devem vir tantos outros jornalistas… e a gente aqui fica só fazendo papel de palhaço com um Supremo desse…"

"Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!", respondeu a procuradora Isabel Groba.

Tessler, na sequência, afirmou: "Sei lá…mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad", referindo-se ao candidato que substituiu Lula na campanha do PT ao Planalto.

O ex-presidenciável Fernando Haddad escreveu neste domingo em uma rede social que a situação exposta pela reportagem deve ser apurada, para que se esclareça o que ele chamou de farsa.

"Podemos estar diante do maior escândalo institucional da história da República. Muitos seriam presos, processos teriam que ser anulados e uma grande farsa seria revelada ao mundo. Vamos acompanhar com toda cautela, mas não podemos nos deter. Que se apure toda a verdade!", afirmou Haddad.

"Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência."

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Almodóvar tem razão, que evento mais perturbador.

'A velhice é um massacre', diz Almodóvar após lançamento de filme autobiográfico 


Em 'Dor e Glória', diretor espanhol baixa o tom e renega visual berrante que o consagrou 




Pedro Almodóvar está numa cruzada contra o almodovarismo. Ele se queixa que seus colaboradores novatos querem ser mais realistas que o rei e exagerar no visual berrante dos cenários e nos elementos kitsch da ambientação. Só que, prestes a completar 70 anos, o cineasta espanhol não se vê mais tão almodovariano assim.

“Fiz muitos filmes coloridos, agora evito. E sou cada vez menos capaz de fazer comédias”, diz a este repórter, entre um gole e outro de sua Coca-Cola Light, à beira da praia, durante o Festival de Cannes, no mês passado.

Depois de um breve silêncio, ele se apressa em dizer que isso não tem nada a ver com ter perdido o bom humor. “Ainda adoro uma fofoca, adoro falar mal dos outros.”

No filme “Dor e Glória”, que estreia nesta quinta (13), sua notória estridência está uns dez tons abaixo. Ainda assim, talvez seja a mais coerente de suas obras —se não em estilo, ao menos em temática.

Semiautobiográfico, o enredo sobre a crise de um bem-sucedido diretor sexagenário o obrigou a expor seus espectros e passado nas telas. “Quando comecei, senti uma hesitação. Queria mesmo me ver assim tão de perto? Depois fluiu”, diz Almodóvar.

Embora diga que o resultado tenha sido terapêutico, seu intuito inicial com um filme tão pessoal não era exatamente psicanalítico.


“Eu queria me sentir mais confortável com a ideia de o tempo estar passando. Sou ateu, ou seja, não tenho nenhum apoio psicológico. A velhice é um massacre.”

Na ficção, quem carrega o martírio da idade é Antonio Banderas, vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel. Ele faz Salvador Mallo, um diretor macambúzio que estourou nos anos 1980 e agora se vê forçado a revisitar sua carreira quando recebe uma homenagem.

O enredo se debruça sobre tormentos do sujeito nesse filme que marca um retorno aos dramas mais masculinos de Almodóvar —e que renderam alguns de seus melhores títulos, como “A Lei do Desejo” (1987) e “Má Educação” (2004).

Além da semelhança física e do apego por filmes um tanto atrevidos, o protagonista compartilha com seu criador a angústia primal de um bloqueio criativo.

“Sei que soa muito forte, mas a ideia de não ter um projeto em vista me tira o sentido da vida”, diz o cineasta. “É por isso que sempre estou envolvido com algum filme, nem que seja com a burocracia dele.”

E nas horas que restam? “Aí eu caminho por Madri, por disciplina porque não é algo que me apetece, e vou ao cinema e à ópera”, responde. “E ainda faço amor, embora menos do que antes.”

Mallo só desperta de sua letargia pela lembrança do desejo —sempre ele, uma chave para compreender a obra de Almodóvar, imantada de tanto erotismo que às vezes beira o sexy-histriônico.

Na mais marcante cena de “Dor e Glória”, uma das mais belas de toda a filmografia almodovariana, o protagonista relembra a primeira vez que sentiu tesão.

Aos nove anos, flagrou um jovem camponês se banhando no pátio, debaixo do sol do verão. O desejo lhe é tão insuportável e tão misterioso, invadindo os seus poros pela primeira vez, que o garoto até desmaia.

Rodar a cena era preocupante. “Porque ao mesmo tempo que envolvia uma criança, eu tinha que passar ao espectador que era carregada de sensualidade”, diz o cineasta, que se lembra de ter experimentado seu primeiro tesão também na infância, apaixonado por um colega de escola.

O desejo também cruza com Mallo na forma de um antigo amor, um argentino vivido por Leonardo Sbaraglia que o reencontra depois de anos de distanciamento. O revival é mote para a obra trazer uma cena, tão rara no cinema, de atração sexual entre dois homens envelhecidos.

Almodóvar, que diz se opor ao casamento como instituição, sai pela tangente quando o assunto é ter ou não experimentado um amor impossível, como o do personagem.

“É difícil responder a isso. O que posso dizer é que tenho um cara comigo há uns 30 anos, mas transo com outras pessoas. Só não publique isso na Espanha, por favor.”

O diretor só fica mais confortável quando aborda outros aspectos centrais do filme, como a intensa relação do protagonista com a mãe, uma mulher amargurada, vivida por Penélope Cruz na juventude, e por Julieta Serrano na velhice.

“Há algo com as espanholas que sofreram o rescaldo da Guerra Civil que faz com que não seja raro que elas se comportem de forma cruel com os filhos”, diz. “Elas chegam à velhice e concluem que a vida não foi justa com elas, então agem assim.”

Para rodar esse que é o seu filme mais íntimo, o cineasta se cercou de atores que são seus velhos conhecidos —sua “família emocional”, como ele mesmo descreve.

Sobre Banderas, seu parceiro em quase uma dezena de filmes, diz que é como um “irmão mais novo”. “Somos dois caras formados naquelas noites de Madri dos anos 1980”, diz o diretor, que é o nome mais conhecido da “movida madrileña”, o fervo cultural e boêmio que tomou o país após a dureza do franquismo.

Com Penélope Cruz é diferente. “Houve um tempo, no filme ‘Volver’, em que eu estava fisgado por ela, que realmente a desejava. Ela me faz sentir heterossexual.”

Poucas horas antes de dar esta entrevista, Almodóvar havia se derramado de amores pelo Brasil em conversa com os jornalistas em Cannes. “Era como se, mesmo sem ter estado ali, aquelas cores já fossem as que eu punha nos meus filmes”, disse, emendando pesar pela “fase difícil” que o país atravessa.

Brasileiros ou não, esses tons tendem a ficar mais opacas na obra do espanhol. “Minha ideia de conceber o visual sempre passava por cores vivas. Mas mudei de opinião sobre as coisas. E há uma melancolia nesse filme que também faz parte da minha vida.”

sábado, 8 de junho de 2019

era só o que faltava. pqp!

Imprensa internacional noticia medo de Wagner Moura retornar ao Brasil

Ator está participando do Festival de Cinema de Sydney, na Austrália, e falou sobre situação ao Daily Telegraph


Wagner Moura (Foto: Getty Images)

Wagner Moura é um dos atores mais bem sucedidos do Brasil. Após construir uma carreira sólida no país, o ator tem conseguido conquistar seu espaço também na indústria internacional. Tanto que, após estrelar a série 'Narcos', Wagner decidiu apostar no seu olhar atrás das câmeras e fez sua estreia como diretor no filme 'Marighella', o qual está divulgando no Festival de Cinema de Sydney, na Austrália. 

Durante o evento, no qual ele faz parte do painel de jurados, Wagner expressou sua preocupação em voltar ao Brasil, e diz que teme por sua segurança em meio às tensões políticas. Em conversa com o portal The Daily Telegraph (via Daily Mail), o ator de 42 anos disse que "pela primeira vez na vida, senti que poderia estar em perigo".

Pôster de 'Marighella' (Foto: Divulgação)

"Sempre que vou ao Rio ou a São Paulo, tenho que tomar cuidado. É de partir o coração", contou o ator, segundo relatos do tablóide internacional. Wagner insistiu que não deixará suas preocupações de segurança impedi-lo de voltar, mas disse que isso pode mudar se "as coisas aumentarem ainda mais". No site oficial do Festival de Cinema de Sydney, há uma descrição do filme que ilustra o motivo por trás desse receio:

"Após sua estréia na Berlinale, 'Marighella' foi duramente criticado no Brasil - inclusive pelo presidente Jair Bolsonaro - apesar do filme não ter sido lançado lá. Este emocionante thriller é uma celebração de Carlos Marighella, interpretado brilhantemente pelo músico e ator Jorge (A Vida Marinha com Steve Zissou, Cidade de Deus). No Brasil dos anos 1960, governado por uma violenta ditadura militar, Marighella lidera um pequeno grupo de guerrilheiros em uma luta armada contra o regime. Implacavelmente perseguido como o inimigo número um do governo, Marighella inteligentemente evita a captura, enquanto continua a causar danos e enfurecer ainda mais seus perseguidores. Com seqüências de ação estimulantes, esse empolgante filme histórico tem poderosa ressonância no presente, no Brasil e além".

Wagner acrescentou que o filme 'Marighella' é considerado uma "ameaça" para os distribuidores de filmes brasileiros, já que tem uma "conexão clara" com a atual situação política que se desenrola. "Eu estava preparado para o filme polarizar as pessoas e para as críticas, mas não estava preparado para nossos distribuidores não terem coragem de lançar o filme", ​​disse o ator.

Wagner Moura e Seu Jorge em Marighella (2019) (Foto: Divulgação)