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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Vamos ensinar política e não obrigar a votar, que tal? Que tal, efetivamente, acabar com a imunidade política? Que tal rever a proporcionalidade eleitoral?

Dos filhos deste solo és mãe gentil

Fernanda Young 



Lembro-me da primeira vez em que me ocupei de prestar atenção a um texto político. Foi na época das eleições presidenciais de 1989, eu tinha 19 anos e seria a primeira vez que votaria.

Nasci no emblemático 1º de maio de 1970. Cresci na ditadura, em uma família de classe média, consciente da brutalidade do regime, mas nada engajada. Creio que deveria ser cômodo para a maioria dos meus familiares viver com o falso aconchego de uma pátria ditatorial.

É como ter uma mãe déspota, mas empenhada no crescimento dos filhos. Dura, moralista, asséptica, pouco afetiva, mas atenta. E, é claro, isso não funciona. Para se preservar aquilo que essa mãe entende como certo, há de se usar recursos macabros.

É mesmo um grande erro enxergar a pátria como uma mãe. Não, a pátria não é uma mãe. Essa metáfora só se faz aceitável neste texto, escrito com a humildade de quem logo anuncia não ter ciência sobre política.

Por isso, e só por isso, recorro ao passional quando falo de política. Mesmo assim, não deixo de sentir-me envergonhada. Ao menos não sou a autora do Hino Nacional, que já proclama aos brados: "Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil". Acredite, não quero debochar o verso. O que desejo ressaltar é que se formos ao cerne do romance familiar psicanalítico, isso tudo está fadado a dar merda.

Tenho tatuado o mapa do Brasil no braço, feito há muitos anos, após várias viagens pelo país. Já não era mais a menina que votava aos 19 anos, muito menos a que tinha consciência da perversidade da ditadura militar. Tinha apenas a certeza de ser uma pessoa política.

Fui, sou e serei sempre uma pessoa política. E por isso mesmo exponho os meus ideais, ideais esses que no decorrer dos anos evoluíram com as leituras sobre o assunto, com as equivocadas opiniões, com os votos errados.

Tenho orgulho de que a minha escolaridade tenha sido corrompida, já que a minha formação foi calcada pela música brasileira. Sim, música brasileira. Em meio a uma família sem intelectuais, as músicas que tocavam nas rádios foram os meus primeiros livros de literatura e de política -foi com elas que me abasteci de uma consciência que nasce na própria língua.

Muitos anos mais tarde, tatuei o verso de Fernando Pessoa em cima do mapa do Brasil, "Minha Pátria é a Língua Portuguesa", e assim materializei em meu corpo a importância de nossa precedência.

Dos portugueses malucos, orgiástico, emotivos, navegadores; da beleza dos índios unidos aos negros e emigrantes; de todo o drama,de toda a confusão -que as escolas adoravam esconder- resultou essa gente. Nós.

Uma amálgama de sacaneados, vilipendiados, crentes que a "mãe gentil" irá nos acolher, nos educar, nos perdoar, nos ensinar a sermos honestos, corajosos, a não fugirmos da luta, a temer a morte. Nós.

Mal-educados, egoístas, preguiçosos, presunçosos, tratados como crias incapazes por vis políticos que nos estupram, roubam nossos bens, nossos sonhos, nossas poupanças, nossas riquezas naturais, nossa língua, nossa cultura material e imaterial.

Eu não suporto Temer, não suporto Lula, não suporto Dilma, não suporto Aécio. Porque o meu voto vale algo, e eu exijo isso! A começar acabando com o voto obrigatório.

Vamos ensinar política e não obrigar a votar, que tal? Que tal, efetivamente, acabar com a imunidade política? Que tal rever a proporcionalidade eleitoral?

Quero entender esses elementos que estão empossados como deputados e senadores, em um Congresso que representa causas pessoais. Quero saber o B-A-BA, porque quero saber falar corretamente essa língua que poderá fazer com que eu não desista de vez de habitar essa "mãe obscena".

Eles, políticos, estão pouco se lixando, porque nunca foram mães. Porque toda verdadeira mãe sabe que devemos proteger os nossos filhos. Ninguém parece se importar. Eu choro. Eu sou mãe. Me importo, e irei reclamar e exigir respeito.

FERNANDA YOUNG é escritora e roteirista. Escreveu as séries de TV "Os Normais", "Os Aspones" e "Vade Retro", entre outras

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