Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Poucas políticas públicas criaram mais cizânia entre petistas e tucanos que a política externa.

Morre o principal operador brasileiro de política internacional

Matias Spektor 


(150805) -- MONTEVIDEO, Aug., 2015 (Xinhua) -- Special Advisor for International Affairs of Brazil Marco Aurelio Garcia takes part in the conference "The integration prospects viewed from Brazil and Uruguay", in the seat of the Latin American Integration Association (ALADI), in Montevideo, capital of Uruguay, on August 4, 2015. (Xinhua/Nicolas Celaya)


Marco Aurélio Garcia, assessor diplomático dos governos do PT, morreu em 20 de julho passado, aos 76 anos. Sua vida ilustra como poucas outras a trajetória de quem chegou ao poder na Nova República.

Entrando para a política na adolescência, ele galgou posições no movimento estudantil nos governos de Jânio e Jango. Com o golpe, veio o exílio. À época, sua subsistência dependeu da possante rede transnacional de solidariedade que albergou dezenas de exilados brasileiros em países como Uruguai, Chile, Cuba e França.

Nisso, Marco Aurélio nada teve de singular. A sua é a experiência coletiva de numerosos quadros de partidos como PT, PMDB e PSDB. Juntos, eles viveram o cosmopolitismo internacionalista que nenhum outro conjunto de lideranças políticas, de lá para cá, teve a chance de experimentar.

Quando o ciclo eleitoral começou, em 1989, Marco Aurélio virou o homem de Lula para a área internacional. Na década de trabalho que transcorreu entre as campanhas e a chegada ao Palácio do Planalto, ele construiu um acervo impressionante de contatos. Não há registro histórico de outro político brasileiro -excetuando Lula e FHC- com tamanho acesso a lideranças em tantos países mundo afora.
Marco Aurélio virou assessor diplomático do presidente, mas essa nunca foi a sua única função. Cabia a ele mediar as facções rivais dentro do PT, vazar notícias à imprensa, e montar estratégias de sobrevivência, depois que os escândalos de corrupção começaram a pipocar. Coube a ele preparar Dilma para assumir a Presidência.

Todo mundo pensava nele como ideólogo, mas essa imagem está longe de ser verdade. Marco Aurélio representava o exato oposto: o pragmatismo cru que é marca registrada de seu grupo.

Quando fundou o Foro de São Paulo, ao contrário do que se pensa, seu objetivo nunca foi o de criar uma internacional socialista latino-americana. Antes, ele operava para isolar os grupos que ainda acreditavam na luta armada ou na revolução e, dessa forma, dificultavam o projeto petista de chegar ao poder pela via eleitoral.

Quando Marco Aurélio costurou o apoio brasileiro a Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a Néstor Kirchner e a Rafael Correa, o fez de olho na criação do ambiente regional que ele pensava ser mais vantajoso para o futuro do PT. Por isso, diante de sua atuação externa, o tucanato sentia repugnância. Poucas políticas públicas criaram mais cizânia entre petistas e tucanos que a política externa.

A sua morte coincide com o fim do arco histórico que vai do golpe de 1964 à Operação Lava Jato. Quem escrever sua biografia contará a história do caminho que percorremos até aqui. 

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