Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.

domingo, 9 de julho de 2017

Para minhas duas filhas menores, a televisão representa algo absolutamente diferente daquilo que, um dia, representou para as crianças de minha geração.

A depender das novas gerações, a TV tradicional está com os dias contados

Lira Neto 



Peguei-me indagando, à minha filha de oito anos, em que horário e em qual emissora vai ao ar determinado desenho animado, a que havíamos assistido juntos, dias antes, e que me surpreendera pela estética um tanto quanto psicodélica e pelo desconcertante nonsense da narrativa. Achara aquilo estranhamente engraçado e desejava conferir novos episódios. Ela olhou-me intrigada, como se não houvesse entendido o próprio sentido da pergunta. "Como assim, em que horário vai ao ar, pai? E, como assim, em qual emissora?", devolveu-me.

Caí em mim. Para minhas duas filhas menores, a televisão representa algo absolutamente diferente daquilo que, um dia, representou para as crianças de minha geração. Nascidas na era das transmissões em "streaming" e dos serviços "on demand", elas não compreendem a lógica jurássica de o espectador ter de se submeter, passivamente, às grades de programação impostas pelos canais X, Y ou Z.

Seletivas, montam o próprio cardápio de filmes, vídeos, séries, desenhos e clipes musicais, a partir de variadas fontes, para assisti-los na hora em que bem desejarem, dentro dos limites de seu tempo livre. E fazem isso recorrendo às mais diversas plataformas, seja na tela grande do aparelho da sala de estar ou nas telinhas dos tablets e celulares. Para minhas meninas, o formato engessado das emissoras tradicionais de TV e mesmo dos canais das operadoras por assinatura não fazem o mínimo sentido.

Por essas e outras, assiste-se muito pouca televisão –no sentido arcaico do termo– aqui em casa, com eventuais exceções para os canais de notícias, e estes apenas por dever de ofício (ou masoquismo) dos adultos. Daí meu espanto quando, zapeando entre uma e outra emissora jornalística, deparei-me certa vez com algo que, confesso, até então não imaginava existir em meio à babel e à cacofonia televisiva: um canal específico de arte e cultura, o Arte 1. Um alento de inteligência e sensibilidade no ar durante 24 horas por dia, sem concessões às facilidades e apelos tão típicos a esse tipo de indústria.

A vasta programação engloba artes visuais, arquitetura, cinema, dança, design, fotografia, literatura, teatro, música clássica e popular, tudo em doses generosas e diversificadas. Em uma única semana, por exemplo, pode-se assistir a um documentário sobre o compositor John Cage e a outro sobre a pintura naïf da cearense Ermelinda de Almeida; conferir uma série sobre dança de rua e uma videobiografia da banda Pink Floyd; ver clássicos como "Fitzcarraldo", de Werner Herzog, e uma entrevista com o arquiteto Paulo Jacobsen; extasiar-se tanto com uma interpretação do coreógrafo Maurice Béjart para a Nona Sinfonia de Beethoven quanto com a artesania de Véio, o sergipano que esculpe troncos e galhos de árvore.

Em vez do ritmo frenético e alucinado das imagens e sons que explodem na tela como ocorre na maioria dos outros canais –inclusive naqueles que confundem, de propósito, jornalismo com entretenimento–, as atrações, intervalos e vinhetas do Arte 1 convidam à contemplação e à reflexão, sem abdicarem da modernidade gráfica e sem caírem no tom pedante e elitista. Não menos importante: jamais subestimam a capacidade de decodificação e de envolvimento do espectador.

Cito isso porque, dia desses, uma equipe de reportagem de um canal por assinatura veio até minha casa para me entrevistar sobre a Era Vargas. O repórter que conduziria a conversa advertiu-me, antes de o operador ligar a câmera: "Pense que nosso telespectador típico é aquele sujeito esparramado no sofá, com uma lata de cerveja numa mão e o controle remoto na outra, que esbarrou na nossa reportagem por acaso, durante o intervalo de um filme de ação", detalhou. "É para esse cara que você vai falar; pense nele como alguém com a idade mental de 14 anos."

Sou cortês, mas tenho meus limites. Quase enxotei o colega porta afora, aos pontapés. Respirei fundo e procurei ser didático, sem me esforçar para parecer que estava falando com o Homer Simpson postado ali do outro lado da lente. Afinal, como pai de duas crianças, acredito que há uma enorme distância entre o didatismo e o discurso toleirão, entre a clareza e a parvoíce.

A propósito, não faz muito tempo, uma de minhas filhas, de 13 anos, lançou-me a pergunta que me convenceu, de uma vez por todas, de que a televisão tradicional, se depender das novas gerações, está mesmo com os dias contados: "Pai, quem é um cara chamado Faustão?".

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