Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.

domingo, 2 de julho de 2017

os vossos dentes me mascando a carne nhaque nhaque nhaque.”

EUTEAMO (II) 

Geraldo Carneiro




Relatei que o eu te amo mais antigo de que eu tinha conhecimento era do poeta Vinicius de Moraes, em carta à sua primeira esposa. Doce ilusão.

Semanas atrás especulei aqui sobre a estreia da expressão eu te amo no Brasil. Nunca imaginei que um tema tão cotidiano despertasse tamanho alvoroço, cara leitora e caro leitor. Relatei que o eu te amo mais antigo de que eu tinha conhecimento era do poeta Vinicius de Moraes, em carta à sua primeira esposa, Beatriz de Moraes, de 1938. Doce ilusão.

A sorte é que tenho o privilégio de frequentar poetas e estudiosos cultíssimos, que me obrigam a ampliar e corrigir minhas vãs suposições. Domicio Proença Filho, por exemplo, sugere que eu faça uma investigação retrospectiva, passando pelos poetas barrocos, os renascentistas, pelo poeta Ovídio — o Vinicius de Moraes de Roma —, até chegar ao Éden, o jardim onde ficava o cafofo de Adão e Eva. A única dificuldade é que, assim como o Paraíso, a língua de Adão evaporou.

Já André Seffrin se lembrou de um soneto de Manuel Bandeira, de 1913, dedicado à sua irmã Maria Cândida, que termina assim: “Por isso eu te amo, e, na miséria minha, Suplico aos céus que a mão de Deus te leve E te faça feliz, minha irmãzinha...” Dirá você, ávida/o de romances, que dizer eu te amo para a irmã é tão sem graça quanto dançar com a própria, e isto não seria muito adequado para a nossa lista. Mas, não satisfeito, o Seffrin desencavou outro poema, agora de Alberto de Oliveira, suponho que escrito no início do século XX, que se arremata com seguinte verso: “Junta o rosto ao meu rosto e diz-me: — Eu te amo!” Antonio Carlos Secchin foi ainda mais longe: encontrou o poema “Como eu te amo”, de Gonçalves Dias. A data? 1851. E, como se não bastasse, lançou o desafio de que deveríamos procurar a primeira frase com que o escrivão Pero Vaz de Caminha desencaminha uma nativa do Brasil, ou com que a nativa desencaminha o Caminha. Embora meu conhecimento do tupi não seja dos melhores, imagino que o eu te amo dela fosse qualquer coisa como: “A ukó peró murúne.” E não me atrevo a traduzir a expressão para o português, porque certamente ficaria imprópria para este almanaque dominical.
Seria, contudo, improvável que encontrássemos um bilhetinho ou WhatsApp de amor do Caminha, assim como foi difícil encontrar sua Carta ao rei Dom Manuel, o Venturoso.

Em compensação, imaginei o eu te amo geral do Caminha, feliz com sua chegada ao Novo Mundo, na iminência de ser deglutido pelas indígenas antropófagas do Brasil. Assim: “ó cunhãs, ó indiazinhas em flor quisera ser o vosso Pero Vaz cronista das vergonhas saradinhas. naufragar nestas Índias do Ocidente cheio de fantasias orientais. ser vosso fauno sem après-midi cevado (ai de mim) a aipim e cauim até me converter num querubim e, numa patuscada bem pagã, (Cubanacan ao fundo no atabaque), oferecer o corpo em holocausto para sentir, com a graça de Tupã, os vossos dentes me mascando a carne nhaque nhaque nhaque.”

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