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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Abraços afetuosos, fraternais, duplos. Abraços sem fim. Beijos muito fortes. Todos os carinhos do mundo.

Nobel é 'invenção diabólica', escreve Saramago para Jorge Amado em carta

Fernanda Mena

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Abraços afetuosos, fraternais, duplos. Abraços sem fim. Beijos muito fortes. Todos os carinhos do mundo.

É nesses termos que dois dos maiores escritores da nossa língua, o baiano Jorge Amado (1912-2001) e o português José Saramago (1922-2010), derramavam-se, um ao outro, em correspondências reunidas agora no volume "Com o Mar por Meio" (Companhia das Letras).

A amizade tardia foi vivida intensamente pela dupla de missivistas e por suas famílias e emerge no diálogo travado por meio de cartas, faxes e bilhetes trocados a partir de 1992.

"Saramago já havia encontrado com Jorge Amado em várias ocasiões. Como ele estava sempre rodeado de gente, Saramago tinha receio de incomodá-lo, além de suspeitar que talvez o baiano não o tivesse lido", lembra Pilar del Río, companheira de vida do escritor português e hoje presidente da Fundação José Saramago. "Quando finalmente conversaram, a empatia foi tão grande que perceberam que já se conheciam", diz.

Na correspondência, os autores falam do mundo, de política, de literatura e das constantes especulações em torno de prêmios como o Camões e o Nobel, que Saramago define como "invenção diabólica".

"Todo mês de outubro começava a mesma tensão em casa", conta Paloma Amado, filha do escritor baiano.

"Papai foi indicado ao Nobel por 34 anos seguidos e a pressão e a cobrança em torno do prêmio era muito grande. Não da parte dele, mas dos outros. O clima pesava nas semanas que antecediam o anúncio por causa disso", diz.

A expectativa de ambos em relação a um prêmio para a literatura em língua portuguesa, no entanto, é permeada de ironias e deboches.

Para dizer toda a verdade, devo convir que os 950 mil dólares do Nobel cairiam muito bem no bolso de um romancista português ou brasileiro, pobre de marré, marré", brincou Amado em carta de 1994. "Não podemos viver como se a salvação de nossas duas pátrias dependesse de termos ou não prêmio Nobel. Mas como cairia bem esse dinheiro!...", respondeu Saramago, laureado em 1998.

Na ocasião, já cego, Jorge Amado pediu à filha que telefonasse para o casal, o que fez sem sucesso. O escritor então pediu que anotasse o ditado de uma carta ao amigo, de uma nota para a imprensa, não sem antes colocar uma garrafa de champanhe para gelar, com o qual brindariam o prêmio.

Para Paloma, além da literatura e da política, era a simplicidade que marcava a amizade dos escritores. Pilar lembra, às gargalhadas, do dia em que o casal foi conhecer o apartamento do autor de "Capitães de Areia" em Paris.

"A mesa era sempre repleta de correspondência, de modo que tínhamos de fazer todas as refeições fora. E, logo que entrei, Jorge me levou até o banheiro para me mostrar, fascinado, o bidê", ri.

"Eu pensava: não acredito que estou assistindo a Jorge Amado e Saramago contemplando um bidê. Ninguém acreditaria nessa cena."

SINTONIA

"Quando começamos a abrir as cartas de papai na Fundação Casa de Jorge Amado, separei aquelas recebidas de Saramago", conta a filha do escritor baiano. "Na mesma semana descobri que Pilar havia enviado toda a correspondência de Saramago para a Biblioteca Nacional de Portugal, menos as cartas recebidas de papai. É incrível como até hoje cultivamos essa sintonia tão grande", diz.

Tamanha conexão, que Pilar chama de "buena onda", rendeu até convite de casamento. "Depois que Saramago morreu, Paloma se separou, e propus a ela que nos casássemos, algo permitido para duas mulheres em Portugal, para que ela pudesse vir viver comigo. Mas fui rejeitada", lembra, entre risos, a jornalista e tradutora espanhola que hoje preside a Fundação José Saramago.

Ambas as fundações se uniram para celebrar a memória de Amado e Saramago numa casa com programação própria na Flip.

A relação com o mar por meio era tão forte que Pilar del Río, sem planejar, evocou Jorge Amado na cerimônia improvisada de cremação do corpo do marido.

"Estávamos no crematório e me dei conta de que não haveria nenhuma cerimônia, porque somos ateus. Entendi que teria de falar algo. E resolvi contar uma história de Jorge Amado. Ele tinha medo de avião e, durante um voo turbulento, quando achou que morreria ali, pediu a Zélia [Gattai, sua mulher] que lhe passasse o jornal com urgência, dizendo: 'Não posso morrer sem saber o que se passa no mundo'", conta a espanhola. "E completei: 'Hoje vou dizer a José Saramago o que os jornais dizem que se passou no mundo: morreu um homem bom'. Desta maneira, no último momento, quando ele virava cinzas, uni a memória de Jorge e José."
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COM O MAR POR MEIO - UMA AMIZADE EM CARTAS
AUTORES José Saramago e Jorge Amado
ORGANIZAÇÃO Bete Capinan
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 59 (120 págs.)

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