Alamanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 10 de julho de 2017

A maior parte dos brasileiros gostaria que o voto decidisse o substituto de Temer. Mas ninguém se importa com o que os brasileiros querem.

Se o PMDB trair Temer, reafirmará a vocação de aliado de todos os governos 

Celso Rocha de Barros 


Nos últimos dias da semana passada ganhou força o movimento para substituir Temer por Rodrigo Maia na Presidência da República. Não chega a ser um embate que empolgue as massas. A maior parte dos brasileiros gostaria que o voto decidisse o substituto de Temer. Mas ninguém se importa com o que os brasileiros querem.

Assistiremos, portanto, nas próximas semanas, a uma disputa pela Presidência entre dois marmanjos que não venceriam eleições para presidente do Bangu.

Temer ainda tem aliados de peso. Muita gente no empresariado ainda o defende. A máquina peemedebista é poderosa, e joga pesado. Ainda é possível achar editoriais de jornais importantes defendendo Temer. Dilma não tinha nada disso em sua fase terminal.

Mas, justamente porque Maia não representa qualquer mudança substancial, o custo de abandonar Temer é muito baixo. Maia não está parado por não querer fazer campanha contra Temer. A campanha dele é ficar parado e prometer permanecer nessa posição por um ano e meio, enquanto tudo ao redor continua exatamente como está. Seu slogan é "o outro cara está caindo, eu sei ficar parado em pé". Maia quer deixar de ser vice, mas aceita sem problemas continuar decorativo.

Nesse ponto, Temer é mais frágil do que Dilma. Mesmo setores de esquerda que disputavam com o PT a hegemonia na esquerda (PDT, PSOL etc.) foram contra o impeachment, porque Temer já havia apresentado "Ponte para o Futuro" como seu programa de governo. Se o vice de Dilma fosse outro esquerdista, a esquerda não petista teria abandonado Dilma sem maiores remorsos.

E todos sabem que Temer está prestes a ser atingido pelo tsunami das delações de Cunha e Funaro. Vai ficar mais difícil conceder benefício da dúvida ao presidente da República nos próximos meses. Faz tempo que já não é fácil.

A favor de Maia estão parte do PSDB e, o que é muito mais importante, do mercado. Ninguém imagina que o sujeito que só teve 3% para prefeito do Rio de Janeiro porque sua vice era Clarissa Garotinho seja um grande líder. Mas Maia tem um convívio razoável com a base de Temer e defende as reformas. As acusações contra Maia não devem chegar no ponto de lhe colocar na cadeia tão rápido quanto as que atingem Temer. E os investidores não se importam se as reformas tiverem que ser feitas trocando o corrupto conservador na Presidência anualmente.

Se não tem muita consequência para o cotidiano dos brasileiros, uma eventual substituição de presidente da República neste momento mudaria a relação de forças dentro da centro-direita para a eleição do ano que vem.

Com o impeachment, o PMDB passou a liderar o campo liberal-conservador. Se Maia vencer a disputa em curso, o equilíbrio anterior, em que essa turma era liderada pela aliança PSDB/DEM, começaria a ser restaurado (talvez como DEM/PSDB). Em especial, se o PMDB trair Temer, seus parlamentares reafirmarão a vocação do partido de ser o aliado de todos os governos, sem nunca ocupar a Presidência.

Você sorriu imaginando o PMDB traindo Temer, eu vi daqui.
Encerro a coluna com um exercício para o leitor: se você quisesse ganhar (ou manter) o apoio do empresariado para se tornar (ou se manter) presidente da República, o que você faria na disputa atual no BNDES? Eu sei, o certo seria decidir isso por outros critérios.

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