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sábado, 3 de junho de 2017

"O fato que um homem sem fortuna, mas com energia, seriedade, capacidade e conhecimento dos negócios, possa tornar-se um capitalista é bastante admirado pelos economistas apologéticos".

Retorno ao Livro 3 

Mario Sergio Conti 


Não é de hoje que o empreendedorismo chama atenção. Num livro publicado há 123 anos, são feitas três afirmações sobre pessoas que tomam dinheiro emprestado para montar seus negócios.

Ele diz de início: "O fato que um homem sem fortuna, mas com energia, seriedade, capacidade e conhecimento dos negócios, possa tornar-se um capitalista é bastante admirado pelos economistas apologéticos".

Mas logo na sequência ele nega os economistas, constatando que o incremento do empreendedorismo "produz um número indesejado de novos cavaleiros da fortuna, que entram em competição com os diversos capitalistas individuais já existentes".

A sentença é encerrada com a negação da negativa anterior: o acréscimo de empreendedores "reforça a dominação do próprio capital, ampliando a sua base e permitindo-o recrutar sem interrupção forças novas no substrato da sociedade".

Está-se, como se vê, no âmbito da dialética, com tese, antítese e síntese concentradas numa frase. Está-se na página 660 da nova tradução do Livro 3 d'"O Capital", recém-lançada pela Boitempo. Marx não para aí, e faz um paralelo entre catolicismo e capitalismo:

"Do mesmo modo, o fato que na Idade Média a Igreja Católica formasse sua hierarquia com os melhores cérebros do povo, sem levar em conta estamento, nascimento ou patrimônio, foi um dos principais meios de consolidação do domínio eclesiástico."

Chega assim a uma generalização: "O domínio de uma classe é tanto mais sólido e perigoso quanto maior é a capacidade de essa classe dominante assimilar os homens mais importantes das classes dominadas".

Passe-se esse pensamento para a América Latina do século 21. Chega-se à conclusão –contraintuitiva– que Chávez, Morales e Lula, catapultados do substrato do povo para o topo do Estado, atestam a vitalidade do capitalismo. Mostram sua capacidade em cooptar os melhores entre os dominados, para por seu intermédio manter a dominação.

O Livro 3, contudo, não trata de política. Depois de estudar a produção e a circulação do capital nos volumes anteriores, Marx investiga a economia como um todo. O tema do Livro 3, pois, é o processo global de transformação do trabalho vivo no seu fantasma –o capital financeiro.

É um tema atual. Na crise de 2008, por exemplo, estourou uma bolha imobiliária nos EUA. Ela fora inflada por um sistema de crédito que, de um lado, financiava a construção civil, e, de outro, emprestava a empreendedores e pequenos poupadores.

Com a insolvência geral, aqueles que pegaram empréstimo para comprar casas e abrir negócios perderam os imóveis e o que investiram. Esse mecanismo de prejuízo total foi antevisto no Livro 3:

"A expropriação completa do trabalhador não é um resultado que o modo de produção capitalista procura alcançar, mas uma premissa da qual parte".

"O Capital" não é para ser lido na praia. Ele demanda empenho e paciência (sobretudo nos volumes 2 e 3, aos quais Marx não deu forma final), de tão intricada que é a economia capitalista.

Ele por certo pode ser estudado como outros clássicos da ciência do século 19, caso de "A Origem das Espécies" e "A Interpretação dos Sonhos", livros que qualquer pessoa razoavelmente educada leu. Mas é uma abordagem menos proveitosa porque tende a tratar "O Capital" como um mausoléu.

Foi o que fez o stalinismo. Já a derrocada da URSS, contraditoriamente, tanto marginalizou Marx como o livrou das amarras doutrinárias. O que o colapso da perspectiva socialista não conseguiu foi humanizar o capitalismo, estancar suas crises, impedir que devaste.

Melhor então voltar a "O Capital" pelo o que ele foi e ainda é: crítica do modo de produção que explora, corrompe e empesteia, transformado o planeta num mercado no qual somos todos mercadorias. Para mudar este mundo é preciso antes entendê-lo. 

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