Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

domingo, 18 de junho de 2017

num universo em desencanto onde a poesia é abafada pelo medo da morte.

O cordel do Moreno 

Arnaldo Bloch




A verdade, quando doía, era tão saborosa que o atingido não tinha como protestar: restava aplaudir, como o povo aplaude os graciosos refrães de rua.

Parece difícil acrescentar algo a tudo que se disse sobre o jornalista Jorge Bastos Moreno nos últimos dias: a resposta à sua partida foi generosa e exata na proporção da generosidade que marcou sua passagem por nossas vidas e pela vida do país. Mas é só uma impressão: Moreno era incessante, e assim será, sempre, a memória que dele se tem. Como num cordel, as histórias sobre Moreno e as que ele contou serão propagadas em praças, bares, esquinas e salões.

“Cordel” é, aliás, a palavra que me veio à mente assim que comecei a matutar sobre sua herança. Apesar de admirar, como todos, sua perícia em apurar os fatos e os bastidores, o que mais me atraía era a forma que ele dava a esse conteúdo. Claro que não era uma forma rimada, como, por definição, é a da literatura de cordel. Era, porém, dotada de um ritmo e de uma cadência que faziam de cada nota, artigo, entrevista, notícia, uma peça dentro de um grande realejo verbal sobre os costumes do seu tempo.

Moreno era talvez o último dos jornalistas em atividade na imprensa tradicional a tratar a notícia como um verdadeiro cronista, no sentido de um Suetônio (Caio Suetônio Tranquilo, 69-141 d.C.), contemporâneo dos poderosos de Roma, autor de “As vidas dos doze césares”. Moreno costurou, através de seus registros, um folclore colossal das vidas de nossos mil e um césares, uns grandes, outros nanicos, levando ao público seus segredos, suas tramoias, sua fragilidade e sua eventual glória. Para privar desse arsenal, fazia-se amigo do poder, mas jamais submisso a ele. Do poder, Moreno gostava de “poder dizer”. E gostava do que o poder dizia sobre a condição humana.

No seu cordel de rimas subtextuais, Moreno perseguia uma verdade que não se contentava com os fatos. Uma verdade maior, que só se alcança tendo a subjetividade em conta, e trabalhando-a com estilo. Assim, a verdade, mesmo quando doía, era tão necessária, eloquente e saborosa que o atingido não tinha mais como protestar: restava-lhe aplaudir, conformado, como o povo aplaude os inquietantes, mas graciosos, refrães de rua dos cordelistas.

Falei em sabor? Pois o sabor era a chave. Amante da boa comida (sempre num mix entre o popular e alta cozinha), tratava seus parágrafos como quitutes, e os detalhes como sequências de degustação: mesmo a má notícia, se recheada de miúdos temperados, é gostosa. Para Moreno, um texto deveria ser, sempre, a resultante de uma irresistível conversa num café desses onde se reuniam, antigamente, políticos, a nata cultural, professores, boêmios e andarilhos. A tais elementos Moreno unia seu gosto pela cultura, pelos artistas, pelos músicos, e pelo que estes produziam. Além de amigos sinceros, eles o inspiravam não só quando os entrevistava, revelava uma nova composição ainda inédita ou falava da beleza de uma atriz. Mas como fontes para o embelezamento da escrita.

Moreno chutava, com classe, às favas a tese de que jornalismo não é uma forma de arte. Sabia, no próprio exercício e na experiência, que, das artes gráficas que deram origem à imprensa, passando pelos estudos de costumes de Balzac; pelo New Journalism; pelo crossover de um Drummond; pelo entrelaçamento entre letras de música e cotidiano; pelo ofício dos grandes cronistas sociais como Zózimo; e pela própria tradição da crônica brasileira — sabia, portanto, que, sem melodia, e preso à objetividade radical, o texto, mesmo o mais factual, tende a ser chato. Isso, num universo informacional em que a importância do caráter estético do texto vem minguando, é de um valor difícil de se estimar.

Moreno era um dos seguidores, voluntários ou não, do “saber com sabor” reivindicado por Roland Barthes. Em seu clássico “Aula”, transcrição de uma sessão inaugural na Sorbonne, Barthes declarava que a língua, por obrigar a dizer as coisas deste ou daquele modo, é, essencialmente, fascista, sendo que só a literatura e a poesia são capazes de salvar a expressão verbal das trevas, criando combinações surpreendentes, formalmente subversivas.

Caso alguém se dedicasse a reunir a obra de Moreno em jornal numa antologia, estudando as correlações entre os fatos, as expressões reincidentes, os “mitos”, os neologismos, é possível que este cordel vanguardista se manifestasse. Ou é possível que não, que o Cordel do Moreno esteja num espaço intangível, matricial, polifônico, cruzamento de seus textos com seus encontros, sua fala, sua presença física, seus olhos docemente inquisitoriais emoldurados pelo sorriso maroto, cheio de manha.

Um cordel que não dispensasse jamais a presença de seu declamador, o imenso e generoso Moreno, homem que não cabia em si de tanto desejo de contar, cantar, bailar nos salões luminosos ou miseráveis do mundo. E neles viver e ser feliz o tanto quanto possível, entre os lamentos e suspiros que são o fardo de todos os que buscam alguma forma de verdade, num universo em desencanto onde a poesia é abafada pelo medo da morte.

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