Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 18 de junho de 2017

não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas é seu ser social que determina suas consciências.

Quando comecei a escrever 


Marcelo Rubens Paiva



Foi no jornal da escola, na qual filosofia era matéria obrigatória, que aprendi a refletir




Ou Batman versus marxismo. Batman, como eu, viu seus pais na mira de armas. Que foram mortos. Ficou órfão, como eu. Batman quis vingar essa grande violência cometida diante uma criança inocente. Batman nunca usou armas, como eu. Não as mesmas dos criminosos.

Encontrou formas de voar sobre a cidade. Como eu, não acreditava no sistema que a organizava, não acreditava na polícia da sua cidade, não acreditava que justiça prevaleceria através da História, sem a ação dos seus punhos.

Batman se tornou um justiceiro solitário que sabia que, para consertar o mundo, ele precisava agir e combater o crime. Com sua capa e força física. E tecnologia, um supercomputador, um supercarro, um baita mordomo e um cinto de mil e uma utilidades.

Foi meu grande ídolo por anos. Existe uma sordidez em Batman que existiu em toda minha infância, que só percebi e a assumi quando cheguei à maturidade. A adolescência de um adolescente é a época em que a ingenuidade, a inocência e o desconhecimento resultam num ser perdido no espanto e passividade. Ou, quando rebelde, inconsequente.

Minha escola indiretamente só “piorava” na adoção de livros existenciais, como Carta ao Meu Pai e O Processo (Kafka), Os Irmãos Karamazov (Dostoievski), e de existencialistas, Sartre e Camus. Mais velho, percebi quem era meu inimigo, o que estava errado na minha vida, o porquê me transformei num prisioneiro de uma existência sem nenhum sentido.

O Batman da TV era divertido, irônico, psicodélico. Explica-se: houve uma onda conservadora no macarthismo contra as HQs de super-heróis nos EUA, que acreditavam agentes públicos causavam má influência nas crianças.

A TV não só tornou o depressivo personagem num cômico como lhe deu um assistente adolescente, Robin. Nos anos 1980, Batman voltou a ser o que era: o Cavaleiro das Trevas. Voltou à sua luta individual.

A história não é estática, ela se transforma, ela vem a ser. A realidade é criada pela consciência dos homens, portanto, se a realidade surgiu das ideias dos homens, novas ideias podem fazer com que a realidade se transforme.

Marx, Hegel, Kant deram uma teoria em que a história estava determinada a mudar. Seus pensamentos se tornaram a ideologia de uma sociedade, se tornaram palavra de ordem, luta.

Poucos ou quase nenhum filósofo conseguiram tamanha façanha de mobilizar a humanidade em torno de um manifesto e mudar o mundo.

Hegel viu através da dialética que as ideias se movem, mudam, se negam, se contradizem, e que o presente se faz com a síntese das contradições passadas, portanto a história pode ser previsível, Weltgeist, seguir um caminho, uma direção.

A liberdade humana fez com que Marx criasse a teoria do materialismo dialético, que afirma que não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas é seu ser social que determina suas consciências. Quando se toma consciência da dialética de forças conflitantes, a luta pelo poder surge, e os indivíduos podem se libertar e mudar a ordem social que os oprime.

Marx defendia que filósofos não devem apenas interpretar o mundo, mas mudá-lo. A única função da filosofia seria transformá-la em ação revolucionária. Mas a realidade não reside nas ideias, nem na consciência dos homens, e sim na ação concreta.

Surgiu o conceito de utopia, um tempo em que haveria uma completa harmonia social. Se Hegel dizia que da realidade se faz filosofia, Marx dizia que a filosofia precisa intervir na realidade.

Toda revolução é necessariamente violenta, já que o Estado faz de tudo para preservar a ordem que oprime o homem. A luta de Batman é violenta, porém não muda o sistema por dentro, não acaba com o crime e injustiças, é apenas uma luta de vingança.

Para Batman, a luta não era de uma classe, era exclusiva, egoísta, desagregadora, cada vez mais estava identificada com apenas um sentimento: vingança! Seus vilões não queriam manter privilégios. Queriam ser mais ricos que o próprio Batman. Batman era o capitalismo tentando organizar o capitalismo.

Batman sofria por ser só ele a pessoa que conseguia entender a sociedade, por ser só ele o rebelde que arregaçou as mãos e foi à luta, como diz o clichê, fazer justiça com as próprias mãos.

Seguia um princípio bíblico: olho por olho, dente por dente. Sabia também que não adiantava nada existir apenas um Batman contra uma sociedade corrompida e injusta. No entanto, ele não parava.

De esquina em esquina, do topo dos prédios, nos becos escuros, nos imóveis abandonados, nas fábricas abandonadas em que gotejava água de encanamentos enferrujados ou em que sempre havia um galão com ácido para destruir seu inimigo, Batman exercia o seu desejo e a sua missão de eliminar o mal, de um em um, sem eliminar o mal por completo.

Passei a adolescência como ele dividido entre dois ideais, o da luta por vingança e o da luta por transformação. Uma ação revolucionária definiria qual verdade prevaleceria. Uma ação qualquer.

Foi quando comecei a escrever. No jornal da escola que me ensinou a refletir, em que filosofia era matéria obrigatória.

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