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quinta-feira, 4 de maio de 2017

coisas da língua

Fraude histórica minimizou herança árabe no português, diz estudioso

Sergio Rodriques 


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O verbo "chupar" tem origem provável numa onomatopeia de sucção, chup-chup. A etimologia obscura de "tomar" levou alguns estudiosos a lançar mão de uma remota matriz saxônica.

O substantivo "gaita", também de origem incerta, pode ter vindo ou não do distante gótico, parente do alemão –ou seja, também tem origem nebulosa. O mesmo caso do molusco chamado "lula", em cujo nome certos filólogos vislumbraram um improvável diminutivo latino de "lua".

Além de deixarem gerações de etimologistas cheios de dedos para explicar a insuficiência de seu saber, o que essas palavras têm em comum é um segredo bem guardado da língua portuguesa: sua origem árabe.

É isso, pelo menos, o que afirma o jurista, poeta e arabista português Adalberto Alves em seu "Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa" (Imprensa Nacional Casa da Moeda, Portugal).

Alves é um intelectual sério e o livro, lançado em 2013, teve o patrocínio do Instituto Camões. Não fossem essas credenciais, seu dicionário correria o risco de ser tomado por obra de um maluco ou, no mínimo, de alguém que deixou a paixão por seu tema lhe comprometer a sensatez.

Já na introdução, o autor joga uma bomba na ideia consagradíssima de que o português recebeu algo entre 700 e mil palavras (arroz, alambique, alfazema e mais umas tantas, a maioria iniciada por esse "al" ou "a" que é artigo na língua de origem) como herança de cinco séculos de domínio político muçulmano.

O número real de palavras portuguesas de origem árabe seria, digamos, ligeiramente superior: 18.073! A precisão soa curiosa, mas só até nos darmos conta de que este é o numero de verbetes reunidos nas quase mil páginas do livro.
Se Alves tem razão, como explicar um erro de cálculo tão grosseiro? Simples: abandonando a ideia de erro e ficando só com a de cálculo, sob a forma de um deliberado e meticuloso trabalho de "apagamento da 'mácula' árabe da língua dos vencedores cristãos".

Para isso, além do recurso a teses rebuscadas e ao curinga da "origem obscura", houve o que o estudioso português chama de contrafação etimológica: "Foram criados ("¦) milhares de termos, quer no âmbito do léxico comum quer no da linguagem científica e filosófica, disfarçados de grego ou baixo-latim, mas que, afinal, não passavam de cultismos românicos artificialmente concebidos."

Analisar o "Dicionário de Arabismos" em sua substância etimológica, verbete após verbete, é tarefa cascuda de erudição. Está tão acima da minha capacidade que a mera menção desse fato pode soar presunçosa: quem imaginaria o contrário?

Aqui e ali, o faro de velho fuçador de etimologia me deixa de pé atrás, suspeitando de excesso de empolgação: o árabe "fânar" não parece uma origem mais provável de "farol" do que o grego "pháro", parece? O próprio autor assume que está sempre "no domínio da conjetura razoável". Etimologia nunca foi ciência exata.

O que o tijolo de Alves tem de mais instigante é soar plausível, expondo, em tempos de acirramento da islamofobia europeia, a inverossimilhança da "história oficial" –a de que tantos séculos de hegemonia árabe numa fase de formação do português teriam deixado como saldo linguístico nada além de umas poucas páginas com perfume de alfazema.

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