Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 2 de abril de 2017

um Estado que via no índio mero empecilho ao "progresso".

Livro narra tragédias e resistência indígenas na ditadura militar

Fabiano Maisonnave


Se houve um ano que não terminou no Brasil, foi 1500.


Imagem retrata força nacional indigena.


Talvez seja essa a grande conclusão ao final da leitura do livro "Os Fuzis e as Flechas: História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura", minuciosa e abrangente investigação do jornalista da Folha Rubens Valente sobre as barbaridades cometidas contra os índios na ditadura militar.
Aliando a sensibilidade adquirida na adolescência entre os guarani-kaiowás em Dourados (MS) com faro de repórter que lhe rendeu dois Prêmios Esso, Valente recupera, detalha e conecta tragédias esquecidas embasado por dezenas de entrevistas e pela consulta a milhares de páginas de documentos e jornais da época.

Do Rio Grande do Sul ao Amapá, epidemias devastadoras de gripe e sarampo, realocações forçadas, invasões de terras, tortura, trabalho escravo, pedofilia, assassinatos, prisões arbitrárias e censura desenham um Estado que via no índio mero empecilho ao "progresso".

"Havia uma ideia geral menos imediata, 'integrar' os índios à sociedade dita 'civilizada', e havia um objetivo de curto prazo, ir ao encontro dos povos indígenas classificados como 'arredios' para retirá-los do caminho e convencê-los a cooperar com grandes projetos de integração da região amazônica, como as obras de construção de rodovias e hidrelétricas", diz Valente, por e-mail.

"A iniciativa expansionista pode não ter tido o genocídio indígena como uma meta clara e aberta, mas, na prática, foi o que ocorreu com muitas etnias. Como os kararaôs, os assurinis, os tapayunas, os arauetés, os panarás, só para citar alguns, que sofreram uma enorme taxa de mortalidade e quase foram virtualmente varridos do mapa", completa.

Um dos relatos mais dramáticos do livro narra a marcha dos arauetés, contatados no Pará em meio à construção da rodovia Transamazônica. Em 1976, a Funai obrigou um grupo a uma caminhada de cerca de 100 km para levá-los de volta à sua área original.

Mal planejada, a marcha viajou com pouco alimento e não tinha medicamentos suficientes para doenças como conjuntivite e gripe, arrasadoras em índios recém-contatados. O resultado foi trágico.

Logo nos primeiros dias, já foram registradas as primeiras mortes. Ao final, ao menos 73 morreram, o equivalente a 36,5% da população da etnia daquela época.

Valente revela também aspectos nada lisonjeiros de alguns indigenistas famosos, subordinados a uma Funai militarizada e instrumentalizada para tirar os índios do caminho de grandes obras e da fronteira agrícola.

Orlando Villas Bôas (1914-2002), um dos idealizadores do Parque do Xingu, teria barrado um relatório sobre a morte por sarampo ou gripe de ao menos 40 de 47 kararaôs recém-contatados, no Pará, para proteger o colega Francisco Meireles, supervisor da expedição.

Parte do livro de 480 páginas é dedicada à resistência, personificada em figuras como a do guarani-nhandeva Marçal de Souza, um dos porta-vozes da causa indígena da época –chegou a discursar para o papa João Paulo 2°. Ele foi constantemente perseguido pela ditadura. Em 1976, a Funai o exilou de Dourados para outra terra indígena. Acabou assassinado com três tiros em 1983, em crime nunca esclarecido.

Lançado na semana passada, o livro é resultado de um grande esforço pessoal de Valente, que custeou com recursos próprios mais de 90% da pesquisa –o restante foi bancado pela editora Companhia das Letras. Apenas de carro, ele rodou 14 mil km.

Com informações inéditas, a obra tem potencial para reabrir a discussão sobre reparações aos índios, até agora pontuais, e deve subsidiar debates recentes, como decisões do STF de anular demarcações de áreas indígenas que não estavam ocupadas ou sob disputa em 1988, quando a nova Constituição foi promulgada.

Em 20 de abril, Valente falará sobre o livro na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Um dia antes, participará de mesa na Procuradoria da República em São Paulo.

OS FUZIS E AS FLECHAS: HISTÓRIA DE SANGUE E RESISTÊNCIA INDÍGENA NA DITADURA
AUTOR Rubens Valente
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 69,90 (520 págs.)
LANÇAMENTO
Quinta-feira (6), na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, 915, em SP, às 19h30

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