Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 9 de abril de 2017

“Um chopinho pra acompanhar?”.

MERCURY CARAGUÁ, R$ 79,99

Antonio Prata 




A tecnologia avança tão rápido, que não está longe o dia – opa, olha o dia vindo aí, é hoje o dia, passou o dia – em que os algoritmos te conhecerão mais do que você mesmo.

Sábado, você vai almoçar num restaurante. A ideia é correr no fim da tarde. Você já deu um Google nos horários em que o Minhocão abre pra pedestres. Seu celular sabe pelo GPS e pela lista “Corrida 1” do Spotify que você gosta de correr no Minhocão aos sábados e por isso, quando você dá o Google “Minhocão+horário +pedestres”, ele começa a te oferecer propagandas de tênis e shorts e isotônicos. Você pede um peito de frango com batata doce e salada verde (seu celular te anuncia promoção de chia, óleo de coco, “whey protein”).

O garçom pergunta: “Um chopinho pra acompanhar?”. Você hesita. O algoritmo também. Você pensa, poxa, um chopinho só, que mal tem? Seu algoritmo, porém, te conhece melhor do que você e sabe que mal tem. Ele sabe que depois do primeiro chope você vai tomar o segundo e os dois chopes te levarão a desistir da corrida.

Ele te lembrará que vai passar Linense x São Paulo às 15h, indicará que a cerveja Júpiter 10 Lúpulos tá em promoção no bar Lira, sugerirá uma linguiça curada de Catanduva pra acompanhar. Bastará você se aproximar do Lira, uma hora mais tarde, pra que o celular dispare “Xanadu Sauna Mista”, “Marguerita’s Massagem Tailandesa”, depois “Engov” e, na manhã seguinte, “Gatorade” e “Rivotril”. Você, no entanto, responde ao garçom “Um guaraná zero, amigo” e o seu celular sugere Eye of the Tiger, a música do Rocky, pra download.

Você ficou de encontrar o Douglas, mas o seu celular ouviu a sua conversa com a sua mulher, ele sabe que você não quer encontrar o Douglas e sabe que você vai dizer que terá que levar os filhos numa festa infantil. (O seu celular sabia que essa seria a sua desculpa antes que você confessasse a desculpa à sua mulher, porque essa é a desculpa canalha que você sempre dá, não só se desvencilhando de um compromisso como ainda pagando de bom pai). Quando toca o telefone e é o Douglas, portanto, seu celular põe pra tocar Dente Mole, do Tiquequê e solta uma gravação antiga da sua filha falando “Papai! Papai! O Enzo fez cocô no pula-pula!”.

Você, sua mulher e seus filhos estão descendo a Tamoios, o carro cheio pra passar 30 dias na praia. Essas são as primeiras férias em família. A preparação levou meses. Rasparam as contas bancárias. A sua mulher diz que a casa alugada no Airbnb é incrível, é enorme, o quarto de vocês é bem longe do quarto das crianças, ainda bem que a irmã dela trouxe a babá eletrônica dos EUA. Se não fosse essa babá eletrônica supersônica, não ia rolar.

Valeu gastar tanto na casa. Valeu gastar tanto na babá eletrônica. Um segundo de silêncio e ela pergunta, aterrorizada: “Você não esqueceu a babá eletrônica, né?”. Seu celular te sugere o Ibis Taubaté, R$ 89,99, o Mercury Caraguá, R$ 79,99, doutora Rose Boucinhas, advocacia familiar, e já compra, na Amazon, o guia “Fim de semana com as crianças: 100 programas pro pai divorciado e feliz”.

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