Alamanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Suspende a maldição!"

Pobre do homem que cuida das cuecas da sorte

Gregorio Duvivier 

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De todas as salas do céu, a mais caótica e barulhenta é a sala das superstições. Milhares de funcionários tentam apurar se tudo está sendo cumprido nos conformes, assistindo a um emaranhado de telas de todos os tamanhos.
"Opa!" diz Carlos, o fiscal de escadas, "um tal Jorge Pereira acaba de passar debaixo de uma escada em Copacabana. Desculpa, Jorge, mas eu vou ter que acabar com a sua vida."

Pra sorte de Jorge, Marisa, fiscal de madeiras, percebeu que, arrependido, Jorge tinha batido três vezes seguidas na madeira da própria escada. "Carlos!" gritou Marisa, "Suspende a maldição!". Carlos ainda tentou argumentar: "Na escada não vale! Tem que ser na mesa!". Mas a regra é clara, lembrou Marisa: "Vale qualquer madeira, inclusive MDF".

Chegando em casa, Jorge botou sua cueca da sorte e foi pro estádio ver seu Botafogo, levando à loucura o pessoal que cuida das superstições esportivas. Tudo indicava, até então, que ia dar Corinthians, desde que Marcelo tinha pendurado na janela sua camisa assinada pelo Sócrates. Mas a cueca de Jorge era mais poderosa: nunca tinha visto o Botafogo perder. Na verdade, nunca tinha visto nada, pois tava sempre embaixo da bermuda. Mas lá de dentro era infalível. Tinha feito mais pelo Botafogo do que qualquer centroavante.

Paulão, responsável pelas cuecas da sorte, tentou contundir o goleiro do Corinthians, mas não conseguiu: Cleiton, responsável pelas camisas da sorte, evocou a camisa de Marcelo e bloqueou a contusão. Foi num cruzamento do Botafogo, aos 45 do segundo tempo, que Paulão, num impulso, mandou um vento norte que empurrou a bola pra dentro do gol, contrariando todas as leis da física. Jorge berrava no estádio: "Foi a cueca! Eu tenho certeza!". A torcida jogava Jorge pro ar, cantando: "Jorge Pereira/ sua cueca é artilheira".

Lá em cima, o departamento inteiro olhava pra Paulão. Tinha passado de todos os limites. "Paulão, o chefe quer falar com você."

Paulão tinha o pior de todos os chefes: Deus era onisciente, onipresente e sádico. Deu-lhe um pito. "Vou ter que te dispensar." "Mas quem vai cuidar das cuecas da sorte?", perguntou Paulão, desesperado. "Vão perder o efeito por algum tempo", disse Deus. "Até o pessoal se esquecer dessa história."

Em sua cama, Jorge dormia abraçado à cueca artilheira, sonhando com o mundial interclubes. Pobre Jorge.

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