Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 9 de abril de 2017

"A gravidade da situação, em muitos aspectos, lembra 64".

Sociedade não está desmobilizada, mas pautas migraram do macro ao micro 

Angela Alonso 



Nesta virada de mês, um galã pediu desculpas, o aniversário de um golpe de Estado passou quase em branco e protestos dos dois lados do espectro ideológico malograram em lotar as ruas. A segunda constatação tem a ver com a terceira, e ambas esclarecem o sentido da primeira.

Comecemos pelo meio. A Revolução Democrática de 31 de março de 1964, na nomeação do blog Verdade Sufocada, foi golpe de verdade, principiado no Dia da Mentira. A orquestra das redes sociais, embalada por batuque de panelas, prometia vistoso festejo para seus 53 anos, em memória do finado regime militar ou por sua ressurreição. A esperança vinha da juventude de muitos convidados, nem nascidos quando da "revolução", e do retorno de seu ideário –tradição, pátria, família– aos cartazes das manifestações de rua.

O bolo ficou por conta do general Clovis Purper Bandeira, editor de opinião da página do Clube Militar, que escreveu: "A gravidade da situação, em muitos aspectos, lembra 64". Lembrança ambicionando reencarnação, dadas "as pressões" de grupos "expressivos e atuantes clamando pela intervenção militar". O Exército aguarda nos quartéis, fiel aos "princípios institucionais e constitucionais. E eles ainda vigem no país". Mesmo porque, se o governo quebrar a Constituição, justificará a insubordinação militar. Assim o esclarece citação de Rui Barbosa, aquele que mandou escrúpulos liberais às favas ao sustentar o golpe de 1889.

Uma "revolução", no entanto, precisa de mais que armas e ideólogos. Precisa de povo. Faltou combinar com ele a festa. O aniversário passou meio despercebido, sem movimentação de rua ou tropas, sem pronunciamentos ou conclamações na imprensa. Quando mencionada, a data atendeu pelo substantivo "golpe".

Até a GloboNews fechou seu "Jornal das Dez" com imagens da resistência, ao som de Geraldo Vandré. A opção autoritária povoa uns tantos corações e mentes, não traz a multidão para a rua.

Isso leva ao terceiro assunto, a força decrescente dos protestos. Os movimentos #ForaDilma e #NãoVaiTerGolpe dividiram o país entre os pró e os anti-impeachment. Mas o golpe de 2016 já reside lá onde habita o de 1964, no passado. A crise, é seu costume, acelera o tempo.

Desde a saída de Dilma, o mundo já virou várias vezes de ponta-cabeça, passando da ameaça de enjaular seu padrinho à prisão de seu algoz-mor, da ascensão de um juiz à morte de outro. No meio do caminho, o processo político deslocou seu centro nervoso das ruas para as instituições.

Grupos na linha de frente do Fora Dilma, a exemplo do MBL e do Vem Pra Rua, ganharam endosso. Mas o campo inteiro perdeu perímetro e, como em casa que falta pão, todos brigam entre si ao vivo e também na internet. O ato na avenida Paulista, em 26 de março, atesta: cada grupo dirigiu seu carro de som, levou ídolos próprios e balançou bandeiras distintas. Ainda vão juntos, mas já não ficam misturados. Parte deles cobiça ingresso para o circo que antes insultava, o do sistema político.

Se esse lado se dividiu, o outro sofre deserção de grupos autonomistas, enquanto sindicatos e movimentos socialistas recobraram o controle perdido no longínquo 2013. O que mais se avista nos eventos Fora Temer são os balões da CUT e as faixas de Boulos.

Também aí a sangria desatou. A agenda em reação às reformas trabalhista e da Previdência não inflou manifestações. Neste campo, igualmente, o olho se encomprida para a cena eleitoral. Candidato ou não, Lula está de volta ao ofício em que é "hors concours": articular movimentos e partido.

Nos dois campos, a mobilização amainou. As ruas voltaram à ocupação usual nas democracias, com protestos pequenos e médios, temáticas distintas e baixo impacto nas instituições políticas.

Isso significa desmobilização da sociedade? Longe disso. O foco é que trafegou do macro para o micro. Proliferam nichos miúdos de contestação. Quando está em jogo a saída de um presidente, pautas específicas ficam abafadas.

Nem por isso são menos importantes. A mobilização se volta para elas agora. Um exemplo foi a revolta de funcionárias da TV Globo contra o ator José Mayer, que se esquivou, para depois admitir o papel de machão assediador. Outro foi a manifestação de rechaço ao porta-voz da família e das armas, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), não por acaso filhote de 64.

Protestos são da natureza da democracia. O que não cabe nela são barbaridades como as que este deputado proferiu quando a Hebraica carioca franqueou-lhe seu microfone.

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