Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.

Playlist Almanaqueiras

quinta-feira, 23 de março de 2017

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”

Você é vaidoso? 

Leandro Karnal



Você é vaidoso? Talvez o primeiro indicativo da vaidade seja a tendência a negar, rapidamente, a pergunta-título da crônica. Saiba, distinto leitor e estimadíssima leitora, sua tentativa de ser humilde contraria até a Bíblia: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). Se tudo é vaidade, garante o já idoso Salomão, nossa humildade é falsa.

Vaidade tem relação com vazio, sentimento falso de firmar-se sobre algo sem base. Esse foi o pecado de Lúcifer: sendo o mais belo dos anjos, sendo o portador da luz, sentiu-se superior e liderou uma rebelião contra o Criador. Achar-se muito e formar quadrilha foram os primeiros crimes do universo até então um coro uníssono de louvor a Deus.

Como o pai da mentira, desejamos ser o que não somos. Soberba levou o anjo a cair do céu e nossos pais perderem vaga no Éden. Aqui estamos, os degredados filhos de Eva, e, passados sete mil anos (ou quatro milhões) do episódio, continuamos inchados de orgulho. O Eclesiastes tinha razão. A vaidade é um vazio que temos tentado preencher desde a origem.

Querem mais um exemplo de como a vaidade é universal? O profeta Eliseu era o talentoso discípulo de Elias. Viu o mestre subir ao céu de forma espetacular e fez milagres como abrir o Rio Jordão com a capa do antecessor, ressuscitar uma criança ou, em uma tocante passagem, multiplicar o óleo de uma viúva aflita com dívidas (II Reis, 4). Em resumo, Eliseu era um homem de Deus e devotado ao Onipotente, como significa seu nome: meu Deus é salvação. Bem, esse santo homem foi zombado por sua pronunciada calvície por um grupo de jovens. Naquela época terrível, jovens eram irônicos. Eliseu se sentiu atingido e rogou uma maldição. Duas ursas enormes surgiram e despedaçaram 42 zombadores. Nunca uma careca foi causa mortis de tanta gente. Jamais a vaidade de um homem santo eliminou tantos. Salomão era um homem sábio: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Mas vamos a um campo mais delicado do tema. Vaidade é vazio porque eu pretendo algo falso. Exemplo: o arcanjo achou que poderia vencer Deus. Outra vez impossível. O demônio disse a Adão e Eva que eles seriam como deuses se experimentassem do fruto. Isso é impossível. Logo, estamos lidando com vaidade, vacuidade, o nada tornado orgulho. Mas e quando a imodéstia de alguém é baseada em fatos concretos? Quando o vaidoso ou a vaidosa possuem base para se sentirem acima da reles humanidade? Uma mulher belíssima, um homem bonito; poderiam essas Helenas de Troia e esses Adônis terem direito à soberba? Se fossem humildes, seriam falsos? Um homem genial, um criador brilhante, uma mulher cultíssima, um jovem com habilidades físicas muito acima do comum: teriam de substituir o erro da vaidade pelo erro da mentira?

Suponha que eu encontre Gisele Bündchen e ela tenha o improvável impulso de conversar comigo e, em meio a essa ficção quase delirante, eu consiga soltar a tautologia: “Você é linda!”. O que a esposa de Tom Brady (que na minha imaginação estaria em um jogo na Sibéria) poderia me responder? Resposta um: “Verdade, sou considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo, a Übermodel perfeita. Sou linda mesmo”. O efeito seria considerá-la vaidosa. Resposta possível dois: “Você está enganado, não sou linda”. Ela deixaria de ser vaidosa para se tornar mentirosa. Situação possível três: ela nada responde verbalmente, apenas baixa os olhos e enrubesce. Ora, já foi dito centenas de vezes que ruborizar é a homenagem que a vaidade presta à modéstia. Quem fica vermelho com um elogio concorda com ele, todavia finge discordar baixando os olhos e deixando o sangue da satisfação preencher o silêncio. A modéstia, diz Mario Quintana, é a vaidade escondida atrás da porta. Afinal, o que poderia responder Gisele?

A humildade é mais fácil quando temos pouco a ostentar. É fácil para um homem feio afirmar que a aparência não é tudo. Uma pessoa burra pode desdenhar da inteligência. Aquilo que não temos, alegamos desnecessário. Mas aquilo que não temos, refletido em outros, desperta duas coisas distintas. Primeiro, surge a inveja, a dor sobre a felicidade alheia. A segunda é que a vaidade dos outros é insuportável quando ilumina a nossa. Machado indicou que suportamos com paciência a cólica alheia. Somos solidários quando não desejamos o que o outro tem.

Somos todos vaidosos, com ou sem razão. Há tanta vaidade em demorar horas para sair à rua aprimorando a aparência quanto em sair despojado afirmando estar acima de modismos e da opinião alheia. Ambos desejam holofotes: um pela pompa e outro pela indiferença à circunstância. A questão não é quem é, de fato, humilde. Talvez exista o ser humilde. O ponto nevrálgico é o que fazemos com nossa vaidade, como lidamos com ela.

O primeiro passo parece ser o de tentar ter consciência de onde ela me pega, qual sua dimensão, como lido com o orgulho. Gisele poderia pensar: sim sou linda, mas minha inegável beleza não me torna o primo móbile do universo. Em resumo, a consciência ajuda a domesticar sua vaidade.

Talvez o único antídoto para a vaidade seja a própria vaidade: saber onde sou bom ou ruim é uma maneira de eu não precisar invocar ursas famintas sobre pessoas que me dizem a verdade. Há predadores que punem nossa vaidade por perturbar a deles. Eles estão nas nossas redes sociais e têm mais fome do que as ursas do profeta. Boa semana, meus humílimos leitores.

Nenhum comentário:

Postar um comentário