Alamanaqueiras: ou não queiras.

Alamanaqueiras: ou não queiras.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.

Muitos acham que esse poema é de Maiakovski, outros acham que é de alguma vítima do nazismo. Não é, o poema é de um brasileiro e peço a todos os que me acompanham que reflitam muito sobre ele
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No Caminho com Maiakóvski
de Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
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e roubam uma flor
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do nosso jardim.
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E não dizemos nada.
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Na segunda noite, já não se escondem:
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pisam as flores,
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matam nosso cão,
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e não dizemos nada.
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Até que um dia,
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o mais frágil deles
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entra sozinho em nossa casa,
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rouba-nos a luz, e,
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conhecendo nosso medo,
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arranca-nos a voz da garganta.
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E já não podemos dizer nada.
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Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

(Eduardo Alves da Costa) – Não é de Maiakóvski como se espalha por aí como falsa autoria - principalmente um trecho da segunda estrofe.
(Eduardo Alves da Costa, em “No Caminho com Maiakóvski” [poesia reunida]. São Paulo: Geração editorial, 1ª ed., 2003. págs. 47,48 e 49.)
Fontes: Antônio Miranda, Jornal de Poesia e referência bibliográfica do livro do autor, graças à colaboração de Elfi Kurten Fenske, criadora do Templo Cultural Delfos.

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