Alamanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Problematizo. Mas não paro de dançar".

Lá vem textão

Gregorio Duvivier 

Viviane Araújo


Tem países que parecem ter a problematização como lema. "Liberté, egalité, problematisez". Não discordar de um francês equivale a não pechinchar no mercado árabe: um acinte. Discorda-se primeiro, por hábito. Depois é que se ouve o que o outro tem a dizer.

O hábito da problematização, assim como o café gelado e a cerveja quente, não vingou na América subequatorial. Já dizia aquele que foi talvez nosso maior filósofo: "Não me venha com problemática que eu tenho a solucionática" (MARAVILHA, Dadá; 2001). Nos últimos anos a fórmula Dadaísta caiu em desuso. A filosofia solucionática tornou-se obsoleta.

O funk. As marchinhas de Carnaval. Monteiro Lobato. José de Alencar. O futebol. A purpurina. A língua portuguesa (denegrir, mercado negro, boçal, mulato, o lado negro da força). "Está vendo, Simba? Tudo o que o sol toca. Tudo o que os seus olhos podem ver. Tudo isso é passível de problematização."

"A Bela e A Fera" conta a história de uma vítima que se apaixona pelo sequestrador. Hamlet é a história de um namorado abusivo que mata Ofélia praticando "gaslighting" (ser ou não ser está longe de ser a grande questão ali). As marchinhas de Carnaval e seus alvos sempre minoritários: índios, gays, lésbicas, negras, martiniquenses. Problemático? Certamente. Mas você quer viver num mundo sem Shakespeare, marchinha de Carnaval ou a Bela e A Fera? Não, imagino. Mas e você quer viver num mundo em que o machismo é celebrado diariamente nos museus, teatros e blocos de Carnaval? Também não, obrigado.

Ao invés de banir Hamlet, a diretora Katie Mitchell escreveu a premiada "Ophelia's Zimmer" -a versão nunca ouvida da namorada de Hamlet. Banir uma obra de arte problemática é a melhor maneira de silenciar uma tensão, ao invés de abrir os olhos do mundo pra ela, disse Katie.

Lembro que a primeira vez que ouvi "Baile de Favela" estava com minha amiga Mariana Bittencourt, feminista e carnavalesca, que abriu um sorriso e disse: "essa letra é muito problemática" -enquanto rebolava até o chão. "Ué" retruquei. "Mas você tá dançando." E ela: "Ah, eu problematizo mas não paro de dançar". Não sei se Mariana tinha noção disso, mas acabou cunhando um lema pros novos tempos (além de um bloco de carnaval com esse nome): "Problematizo. Mas não paro de dançar".

Viva a problematização -e viva também a inconsequência. Hay que problematizar pero sin perder la marchinha jamais.

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