Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Melhor do que exterminar grafites seria dar um jeito nas calçadas de São Paulo, essas assassinas. Ou proibir os carros de usar buzina.

O TOC e a eugenia visual

Miguel de Almeida 

Resultado de imagem para o Beco do Batman na paulista Vila Madalena



Vizinho ao meu cenáculo, o Beco do Batman na paulistana Vila Madalena é uma referência na arte urbana mundial. Diariamente vans trazem turistas de várias partes do planeta: com bocas abertas ("ahhh; ohh; uau"), cidadãos de diversos continentes fotografam grafites figurativos, geométricos, o escambau.

Até anos atrás, era um beco sujo, fedido, escuro. Os artistas de rua o ocuparam (sem lei de incentivo, sem edital, sem patrocínio), o transformaram num espaço contemporâneo, charmoso e seguro.

Ron Wood, guitarrista do Rolling Stones, esteve ali ano passado e saiu de riso na cara diante daquela beleza urbana. Ele é um cidadão do mundo e não se impressiona com qualquer tolice, vamos anotar.

Mas meu amigo João Doria, ora alcaide paulistano, sempre uma pessoa bem-intencionada, formado nas fileiras do estadista humanista Franco Montoro, vestiu a camisa da eugenia visual. Em poucos dias de mandato mandou apagar grafites, cobrindo-os de cinza.

Parece trabalhar para se tornar o melhor vendedor da Suvinil: ele apaga, ele pinta de cinza, os grafiteiros pintam de novo, e lá vai nosso dinheiro em tinta cinza. Pressionado, acenou com a criação do Museu de Arte de Rua. Só que ele já existe: está em diversos bairros, sob viadutos, nas empenas dos prédios, em ociosos muros mal construídos etc.

Também pretende, agora, financiar os artistas de rua e criar espaços específicos. Besteira, prefeito: esse sintoma de TOC serve para cidades mornas, como Estocolmo, não a metrópoles como São Paulo, Nova York e Berlim, nas quais a vibração de sotaques, de diversas etnias, fomenta o diverso, o contraditório.

É preciso perceber que o espontâneo, o que vem da ruas (das periferias surge a linguagem criativa, dizia o poeta Pier Paolo Pasolini), aquilo que escapa ao institucional -enfim, o que não tem o dedo do Estado ou do mercado é o que traz a renovação.

Em meio à batalha eugênica, Doria e seu vice, Bruno Covas, deveriam ser avisados de que Jean-Michel Basquiat surgiu no mundo ao grafitar trens e estações de Nova York.

Como a burocracia anunciada para financiar novas imagens deve ser incapaz de distinguir um Schiele de um Serra (o Richard), o apagamento de grafites privará o desenvolvimento da arte urbana e ainda irá tirar de São Paulo a condição de um dos maiores centros de street art do planeta.

Basta uma visita ao bairro do Grajaú, por exemplo, para ver como a própria comunidade se organizou e conduz os turistas pelos incríveis espaços grafitados por artistas anônimos. Lindo. Com o TOC visual, teremos agora um almoxarifado.

A ideia de repaginar a paisagem urbana não é errada. O problema são os alvos. São Paulo nos últimos anos presenciou a explosão de uma cultura urbana em todos os seus quadrantes. Não existe arte apenas mais na zona sul. Tem espetáculo de dança no terminal Capelinha e tem música (boa) em Guaianases. E tem teatro (gratuito) no Minhocão.

E o que une, costura e arremata essa paisagem metropolitana é a arte urbana, a tal street art que atrai olhares da mídia mundial. Artistas como osgemeos e Zezão expõem em importantes galerias americanas e europeias. E surgiram nas ruas de São Paulo, olha só que orgulho, Doria.
Quanto de turismo (portanto, receitas) gera a arte urbana paulistana? Quanto São Paulo arrecada por meio da divulgação dos grafites em reportagens da imprensa mundial?

Melhor do que exterminar grafites seria dar um jeito nas calçadas de São Paulo, essas assassinas. Ou proibir os carros de usar buzina.

MIGUEL DE ALMEIDA é é editor e escritor. Dirigiu, com Luiz R. Cabral, o documentário "Não Estávamos Ali para Fazer Amigos", sobre a atuação do caderno "Ilustrada" nos anos 1980

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