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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

isso é que é uma análise de qualidade, o resto é propaganda política.

Brasil vive pior momento em termos de lideranças políticas, analisa Carlos Melo

Paula Almeida

Carlos Melo, cientista político, professor do Insper e blogueiro do UOL
Carlos Melo, cientista político, professor do Insper e blogueiro do UOL

A falta de lideranças de qualidade nos grandes partidos brasileiros tem dificultado ao país sair das crises política, econômica e institucional. Essa é a análise de Carlos Melo, cientista político, professor do Insper e novo blogueiro do UOL.

"Você junta o colapso do presidencialismo de coalizão, da composição de maioria, com a pouca qualidade das lideranças, soma a isso uma crise econômica, você vai ter os elementos dados para o impeachment", analisa Melo. "Essas questões não foram superadas ainda. A governabilidade do presidente Temer é feita nos mesmos moldes. Com isso tudo colocado ainda veio a Lava Jato. Se o Temer vai ter mais habilidade do que a Dilma para navegar nesse ambiente ainda tortuoso, a gente vai ter que ver".

Em entrevista à reportagem, ele fala sobre a pressa do PT em oficializar Lula como candidato à Presidência em 2018, a rivalidade interna no PSDB entre Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra e a instabilidade política do Brasil que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e que mantém o governo do presidente Michel Temer sob a mesma vulnerabilidade.

LULA CANDIDATO E FALTA DE LIDERANÇAS NO PT


"O PT parte do princípio de que o Lula, em sendo um candidato, é um presidente eleito. Eu não vejo assim. O presidente Lula é talvez a maior liderança do Brasil isoladamente, mas parece que a situação dele volta àquele patamar anterior a 2002. O Lula tinha um piso muito elevado, em torno de 20%, mais do que qualquer outro candidato isoladamente, mas tinha um teto muito baixo. Então, é capaz de ir para o segundo turno, mas com muita dificuldade de ganhar a eleição no segundo turno. Aparte disso, o PT pode também estar fazendo o raciocínio que é o seguinte: a sua sobrevivência própria. Que outro candidato conseguiria votos nesse patamar e puxaria esses votos para as bancadas? Então, quando o PT pensa no Lula, ou ele faz uma avaliação errada, que é a avaliação de que o Lula é um candidato muito competitivo, e eu não acredito que o PT pense assim, ou na verdade ele joga o Lula no processo tanto para defendê-lo quanto para garantir, em 2018, uma bancada relevante, porque o PT tem medo que com outro candidato ou sem candidato, simplesmente a legenda desapareça.

O PT lá na década de 80 trouxe uma outra mensagem, ele trouxe uma outra esperança. E o PT também, de alguma forma, sinalizava que era possível aos de baixo, para usar a expressão do próprio PT, governar e fazer isso de um modo decente, eficaz, justo. Então, essa decepção que ao final das contas é a experiência do PT, ela é muito traumática para a história do Brasil.

Agora, com relação a lideranças, o caso do PT também é mais sério, porque houve o mensalão que de certa forma decepou lideranças em potencial muito importantes. Palocci, Dirceu, Genoino. Então, o presidente Lula foi candidato em 1982 ao governo do estado de São Paulo. Nós estamos falando de 35 anos. Em 35 anos, você não consegue gerar alternativas? O PT está abrindo mão de algo fundamental para o seu futuro que é a renovação."

PSDB RACHADO E SEM LÍDERES DE QUALIDADE

"Em 1994, a principal figura do PSDB era o Mario Covas, que havia perdido a eleição em 1989. Então, se imaginava que o candidato do PSDB em 94 seria o Tasso Jereissati, que era o presidente do partido. No final das contas, o candidato foi o Fernando Henrique Cardoso. Mario Covas e Fernando Henrique nunca se entenderam às mil maravilhas, mas quando o Mario Covas e o Tasso Jereissati viram que o Fernando Henrique estava mais bem colocado, na hora abriram mão. Havia ali a questão do Plano Real, a busca de reorganizar a economia do Brasil, e foi um processo com relativo sucesso. Por que isso não se dá hoje, com Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra? Porque, ao meu ver, não têm a dimensão de Mario Covas, a dimensão de Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati, não têm o desprendimento. Então, não é a quantidade dos candidatos, é a natureza dos candidatos que você se tem, essa é a diferença.

[Será que] Geraldo Alckmin foi eleito e reeleito para quatro mandatos pelas suas qualidades ou pela grande resistência que sempre houve aqui em São Paulo ao PT e ele com méritos soube capitalizar melhor esse antipetismo? Então, não dá para comparar exatamente com o Aécio nesse aspecto, porque o antipetismo em Minas parece ser muito menos resistente do que o de SP. O que a gente precisa ver é como o Geraldo Alckmin vai se haver agora quando não tem mais esse biombo do PT de certa forma para escurecer, diminuir, dar menos visibilidade aos problemas do Estado. Se você for olhar sob vários aspectos, SP está longe, muito longe de mostrar um grande desempenho em termos políticos. No processo de disputa dentro do PSDB, essas questões tendem a aparecer. Eu não vejo nem o senador Serra nem o senador Aécio dando muito espaço para Geraldo Alckmin."

IMPEACHMENT DE DILMA E INSTABILIDADE DE TEMER


"O presidencialismo de coalizão é uma coisa simples. Em qualquer lugar do mundo, o executivo se elege com 50% dos votos, mas o seu partido acaba tendo muito menos votos. Então, para você ter maioria, você precisa compor. O problema é que em qualquer lugar do mundo, isso se dá em bases mais saudáveis, você negocia projetos, programas. No Brasil, se acostumou a não negociar projetos e programas. O pessoal foi direto na veia, começou a negociar cargos e recursos. Bom, quando você tem um presidente em primeiro ano de mandato, é uma maravilha, porque o antecessor saiu, deixou ali 30 mil cargos, mais ou menos, livres pra você negociar com o Congresso. Você dá 10 ministérios pra um, 10 pra outro, 5 pra outro, 15 pra outro, e você forma maioria. Com a Dilma, a gente não viveu um primeiro ano de um primeiro mandato, nós vivemos o primeiro ano de um terceiro mandato de um mesmo grupo, então já havia sido dado cargos, recursos e esquemas. O primeiro ano do segundo mandato foi o ano do grande conflito que levou ao impeachment em meados de 2016. O governo já tinha dado tudo, não tinha mais nada a dar, era um governo que não sabia negociar mais nessas bases. O resto da história nós sabemos, nós chegamos ao impeachment. Isso é agravado também por uma grande crise de liderança política. Então você junta o colapso do presidencialismo de coalizão, da composição de maioria, com a pouca qualidade das lideranças, soma a isso uma crise econômica, você vai ter os elementos dados para o impeachment.

Essas questões não foram superadas ainda. A governabilidade do presidente Temer é feita nos mesmos moldes. O problema da crise de liderança sob o presidente Temer continua sendo exatamente o mesmo. E também a crise econômica vai se agravando. Com isso tudo colocado ainda veio a Lava Jato, que abraçou diversos membros do partido da presidente Dilma e hoje igualmente abraça diversos membros do partido do governo Temer. Então, essas questões que levaram à vulnerabilidade do governo Dilma, elas continuam colocadas. Se o Temer vai ter mais habilidade do que a Dilma para navegar nesse ambiente ainda tortuoso, a gente vai ter que ver."

INSTITUIÇÕES EM CRISE

"É preocupante que as instituições não estejam funcionando como instituições, mas que estejam funcionando a base de figuras. Isso é um problema. Eu compreendo a aflição e a importância, a aflição do cidadão comum, e também sei compreender historicamente a importância dos indivíduos, mas os indivíduos surgem, são o motor da mudança, da reforma, mas depois você tem que institucionalizar. Isso mais ou menos implica em você abrir mão de um demiurgo, de um salvador da pátria do Executivo, para colocar agora em outro poder.

Uma vez que a sociedade não vê mais o Congresso Nacional com credibilidade, não vê ele como crível para esse desafio, você fica dependendo de personagens, que são importantes, mas não podem substituir as instituições."

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