Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Antes de ser uma esbórnia alienante, a festa foi espaço de subversão da cidadania roubada.

Tirando a máscara


Tirando a máscara
LUIZ ANTONIO SIMAS
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A visão do carnaval como festa alienante, de simples inversão social, de escapismo, de fuga, despolitizada, continua entranhada em parte das análises e opiniões sobre o tema. Sinto informar aos inimigos de Momo, mas o Carnaval é a mais politizada das festas brasileiras.

É só conhecer um pouquinho o carnaval para entender que ele não é apenas um fuzuê determinado pelo calendário. Ao contrário, talvez seja a festa em que de forma mais evidente as relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam as cidades e criam formas de vida. O espaço do carnaval é um território de afeições e ódios, entre batuques, floreios de corpo, beijos, furtos, comidas e cantos.
Estudo o carnaval porque me interesso pela História do Rio de Janeiro e acho que entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos, suvacos e simpatias, clóvis e bate-bolas, dão pistas para se entender como as tensões sociais – disfarçadas ou exacerbadas em festas – bordam as histórias da cidade plural.
Antes de ser uma esbórnia alienante, a festa foi espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se muitas vezes na rua a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras – e o jogo está longe de terminar – o bumbo bate enquanto o coro come.
Agora mesmo, por exemplo, estamos acompanhando uma tendência absolutamente curiosa no carnaval de rua do Rio de Janeiro. O controle da festa na rua – um objetivo do poder público ao longo dos tempos – não é exercido apenas pela repressão, mas também pela elitização do fuzuê e por tentativas de se estabelecer a ideia de uma disciplina pelo consumo. O carnaval de rua, tratado como grande empreendimento turístico, foi vendido. Está acontecendo com ele processo similar ao que aconteceu com as escolas de samba e o futebol.
As escolas de samba, por sua vez, parecem ensaiar a recuperação de um fôlego, inclusive do ponto de vista da inserção comunitária, que pareciam ter perdido definitivamente. Particularmente, acho que isso só está ocorrendo porque elas perderam o protagonismo da festa.
Em uma conversa que tive com o professor Joel Rufino dos Santos, pouco antes do falecimento do mestre, ele me disse (estávamos conversando sobre funk e carnaval, pensando num projeto sobre a história da abolição da escravatura através do samba-enredo) perceber uma tendência curiosa na festa carioca: os blocos de carnaval, especialmente aqueles de maior destaque, estão cada vez mais brancos; os pretos são vistos nos blocos, sobretudo, tentando trabalhar como camelôs pra ganhar uns merréis. Para isso, ainda precisam driblar os agentes da ordem pública ou tentar um cadastramento como ambulantes oficiais.
Por outro lado, as escolas de samba apresentam – a despeito delas mesmas – uma tendência inversa. As baterias continuam majoritariamente formadas por negros, o fortalecimento de alas de comunidade (com a diminuição significativa das alas comerciais) parece ser cada vez mais forte, os ensaios técnicos viraram uma febre, os desfiles da Intendente Magalhães movimentam o subúrbio carioca, e por aí vai.
Esse diagnóstico sugere dois problemas. Um deles é constatar que as escolas de samba e seus dirigentes ainda parecem não perceber que a sobrevivência das agremiações passa por um possível reencontro com a população da cidade, que anda se insinuando, e correm o risco de perder o bonde.
Perceber o desfile como um empreendimento prioritariamente cultural – e que só por isso pode ter um excepcional potencial turístico – ainda é uma ideia que não entra na cabeça dos donos do negócio como deveria. Os ingressos para os melhores lugares do sambódromo continuam caros, a disparidade entre o Grupo Especial e os demais grupos é gritante, a Cidade do Samba é mal aproveitada na maior parte do ano, as quadras são equipamentos culturais que precisam funcionar o ano inteiro. As agremiações e as entidades que comandam o babado precisam entender que investir na popularização, no perfil cultural e no público local é a melhor estratégia, inclusive de marketing (já que a turma adora isso), que pode ser elaborada.
A turma do carnaval de rua tem uma bela encrenca para resolver. O modelo dos grandes blocos parece ter sido definitivamente capturado pela lógica do evento turístico de grandes proporções e ditado por interesses de corporações e marcas que, a rigor, compraram a rua. A festa, por outro lado, é propiciadora de frestas e bordas diversas. Como reinventar a rua comendo a cidade pelas bordas parece ser o desafio que se anuncia.
O carnaval, que de alienante não tem coisa nenhuma, desvela a cidade. É um período em que, ao contrário do que se supõe, as máscaras costumam ser arrancadas do rosto de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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