Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

a vida cobra a conta e quer troco.

Cabral roubou do Rio orgulho de ser 1 dos mais belos cenários do planeta
Ex-governador é a caricatura de um modelo de poder que apodreceu

Alzheimer protege o pai de testemunhar a decadência moral do filho

Luís Costa Pinto


Era incensado da direita à esquerda. Pela direita, diziam ser o personagem nascido com a vocação para o protagonismo: devolveria à elite o direito à ribalta que dela fora tirado nas urnas em 2002, quando um operário pernambucano emigrado para São Paulo se elegera presidente. Na esteira dessa perspectiva, cobriram-no de honra e glória pela década seguinte.

Pela esquerda, não era difícil encontrar quem defendesse a aliança pontual e ocasional com ele como algo natural a quem jogava um jogo de adultos na política: a “realpolitik”. Aliados para construir uma nova e eterna aliança que resgataria dos desvãos da história os menos favorecidos na carona de um projeto pragmático de poder que um dia faria a cidade partida de Zuenir Ventura virar, enfim, o paraíso na Terra.

Falo de Sérgio Cabral Filho, o homem que roubou da humanidade o prazer que o carioca tem de olhar para a paisagem de sua cidade e suspirar: “Que maravilha! Só uma obra divina é capaz de desenhar o encontro harmônico de baía, serra, lagoa, restinga e praias contidos numa fotografia do Rio de Janeiro tirada do alto do Corcovado”.

Preso em Bangu, com a mulher Adriana Ancelmo recolhida a outra cela do Complexo Penal de Gericinó e sem tomar banho com regularidade, além de ter sido informado que ontem a ex-mulher fora conduzida coercitivamente a depor porque também se beneficiava do esquema de corrupção que engendrara dentro da máquina administrativa fluminense, Cabral Filho é um canalha sem perdão.

Ele sequestrou de sua cidade a esperança de se ver reunida e redimida num futuro melhor que o presente de abissais diferenças sociais e o passado de apartheids não declarados e de preconceitos explícitos.

O ex-governador peemedebista do Rio de Janeiro foi por muito tempo uma espécie de salvação a quem desdenhava do poder conquistado nas urnas pelo ex-presidente Lula. Era ao mesmo tempo o escudo e a esperança de muitos quatrocentões cariocas –aquela turma que almoça às sextas-feiras nos restaurantes prediletos da orla ou do centro trajando calças verdes de brim, calçam mocassins marrons e envergam cardigãs em tons pastéis ao menor sinal, se a temperatura está abaixo dos 23ºC.

Apostaram nele para vice ou mesmo para presidente da República. Festejaram-no como exemplo pronto e acabado de sucesso político de toda uma geração, a turma que ouviu os bons papos do início dos anos 1970 aos pés do emissário submarino de Ipanema, surfou no início dos anos 1980 da Praia do Pepê e namorou caçando submarinos na Praia da Reserva nas franjas dos anos 1990. Cabral Filho era o príncipe daquela juventude dourada louca, aceleradamente louca, para mostrar seu valor.

Hoje a larica geracional é consumida nos quadriláteros infernais do ex-aprazível bairro de Bangu. As celas do Complexo de Gericinó já são o que há de mais similar ao inferno na terra, em que pese ainda aguardarem a chegada de Eike Batista, o outrora “homem mais rico do Brasil”, capa de revista, dono de uma fortuna de 20 bilhões de dólares fugaz como uma carreira de pó aspirada nos banheiros do Hippopotamus dos anos 1980 ou nas escadas do Dama de Ferro, dos anos 1990. O ex-governador trancafiado na cela do presídio estadual é a caricatura de um modelo de poder que apodreceu.

Inocente, o jornalista Sérgio Cabral, um dos melhores cronistas que o Rio já teve, observa a vertiginosa derrocada do filho com o olhar plácido e translúcido dos enfermos. Diagnosticado com o Mal de Alzheimer, castigo que aprisiona corpos sãos em mentes que morrem aceleradamente sem deixar para trás a memória do que se viveu, o Cabral pai não suspeita da dimensão da tragédia que o filho urdiu para si. Mais que isso, Sérgio Cabral, pai, em seus delírios de paciente definitivamente enredado nos labirintos da memória, jamais tomará conhecimento do desprezo que o Rio nutre por seu rebento que um dia foi tão incensado, tão festejado. Sérgio Cabral Filho foi capaz de revogar de toda uma geração, de toda uma cidade, de todo um estado, o orgulho de nascer e viver na paisagem mais abençoada por Deus em todo o universo. Uma lástima; mas a vida cobra a conta e quer troco.

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