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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

o humano cria quando ele aprende a não mais temer seus abismos.

Há coisas que não conseguiremos falar sem mudarmos a maneira de dizê-las

Vladimir Safatle 

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Há exatos 50 anos, aparecia nas livrarias um dos livros mais influentes das ciências humanas da segunda metade do século 20, a saber, os "Escritos", de Jacques Lacan.

Livro de escrita singular e ritmo vertiginoso, o primeiro trabalho publicado por Lacan em mais de 30 anos de atividade não se contentava em ser uma reflexão avançada sobre questões ligadas à clínica do sofrimento psíquico e sobre o campo de atuação da psicanálise.

Na verdade, tratava-se de um livro que expressava, de forma exemplar, como a reflexão sobre o sofrimento psíquico exigia a mobilização de um campo comum entre antropologia, linguística, filosofia, psicanálise e teoria literária.

Este verdadeiro programa interdisciplinar, animado pela visão de articulação conjunta produzida pelo estruturalismo, era resultado de um princípio fundamental que, infelizmente, foi esquecido por muitos.

Trata-se da compreensão de que o patológico não é um mero desvio em relação a estruturas normativas previamente asseguradas e definidas. Pois isto nos levaria a agir como se o patológico fosse a simples expressão da vida em erro, da vida incapaz de compreender o normal. Algo que deve ser extirpado o mais rápido possível, como retiramos um corpo estranho de um organismo adoecido.

Na verdade, se Lacan não cansava de lembrar que "não há sujeito sem sintoma", que há sintomas que não se curam, era porque o patológico aparecia como resposta às insuficiências daquilo que socialmente define-se como "normal". Mas em uma sociedade que gostaria de limitar a experiência humana ao campo do administrável, do controlável, do seguro, que ensina seus sujeitos a desejarem o que lhes confirma em suas narrativas de sempre, falar que o patológico é um campo de invenção de singularidades pode parecer algo de profundamente incompreensível. Mas Lacan sempre soube que a definição de saúde e doença no campo da vida psíquica, longe de ser algo assentado em meros critérios de déficits e excesso de variáveis orgânicas, mobiliza continuamente valores sociais exteriores à reflexão eminentemente clínicas.

Neste sentido, sua radicalidade merecia ser, mais uma vez, relembrada. Por exemplo, ao insistir que não deveríamos confundir sujeito e Eu, que só há sujeito lá onde não há mais consciência, Lacan não ia na contramão de séculos de filosofia ocidental moderna, para a qual sujeito, reflexividade da consciência e unidade do Eu são indissociáveis.

Ele abria um caminho inovador à clínica, ao afirmar que não há cura do sofrimento psíquico por meio do fortalecimento do Eu e de sua capacidade de adaptação social. Podemos sofrer por não sermos um indivíduo, ou seja, por não conseguirmos nos fazer reconhecer enquanto uma individualidade almejada. Mas podemos sofrer também por sermos apenas um indivíduo, ou seja, por não sabermos o que fazer com experiências que nos despersonalizam, que nos indeterminam, que aparecem de forma eminentemente negativa.

Mas ao separar sujeito e consciência, criando por exemplo, inversões do famoso cogito de Descartes ("Penso, logo sou") do tipo "Penso onde não sou, sou onde não penso", Lacan lembrava que a consciência é, entre outras coisas, uma forma de linguagem que define uma estrutura possível de experiências e um campo determinável de representações.

Esta forma de linguagem própria à consciência é continuamente atravessada por outras linguagens. Outras linguagens que procuram nos lembrar como há coisas que nunca conseguiremos falar enquanto não mudarmos nossa maneira de dizê-las.

O que explica porque um psicanalista como Lacan fosse levado a pensar principalmente por experiências literárias como Beckett, Joyce e Mallarmé.

Desta forma, os "Escritos" puderam aparecer como uma das mais impressionantes operações do pensamento crítico do século 20 e uma forma inusitada de lembrar que o humano cria quando ele aprende a não mais temer seus abismos.

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