Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ter consciência tranquila da morte dá à vida um sabor menos azedo e nos faz valorizar cada pequeno milagre diário, em vez de esperar por uma guinada gigantesca que quase nunca acontece.

Só temos esta

Martha Medeiros 


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Lido razoavelmente bem com a ideia da morte. Considero-a uma balizadora – diria até que uma aliada. Ter consciência tranquila da morte dá à vida um sabor menos azedo e nos faz valorizar cada pequeno milagre diário, em vez de esperar por uma guinada gigantesca que quase nunca acontece.

Confúcio, filósofo chinês, tem uma frase diabólica sobre esse assunto: “Nós temos duas vidas e a segunda começa no dia em que nos damos conta de que temos apenas uma”.

Cerca de 11 anos atrás, recebi uma notícia que poderia ter sido desestabilizadora: havia grande chance de eu estar com câncer. A certeza só viria depois de ter feito um exame minucioso cujo resultado sairia em três dias. Durante três dias, convivi com essa espada sobre a cabeça. Muitos talvez pensem que foi então que descobri que só possuía uma vida, mas não. Bem antes disso, eu já a desfrutava como sendo única. Por isso, quando surgiu aquela notícia que poderia ter sido desestabilizadora, não me desestabilizei.

Já vivia como se fosse uma sobrevivente muito antes de esse diagnóstico chegar às minhas mãos. Estava satisfeita com o meu histórico até ali, e se tudo acabasse mais cedo do que o desejado, não seria perda total. Então, durante esses três dias, afora a preocupação com as minhas filhas, nada mudou. Não senti que estava passando por um divisor de águas. Quando o resultado do exame acusou nada de grave, suspirei de alívio e continuei a fazer o que estava fazendo. Não virei outra pessoa. Não nasci de novo.

A frase de Confúcio sugere que o momento de dar-se conta de que a vida é única pode também margear alguma data redonda da maturidade. Aos 40? 50? 60? São idades emblemáticas, em que a perspectiva do fim realmente assusta e tomamos decisões radicais que antes não tínhamos coragem: separar, tirar um ano sabático, fazer uma viagem ritualística, colocar em prática um projeto, casar de novo, enfim, o famoso “correr atrás” com o fôlego que resta. Mas a iluminação pode acontecer aos 18. Aos 21. Aos 26. Agora, por exemplo.

Não, não me venha falar em vida eterna. Deus me livre da vida eterna. Sinto calafrios só de imaginar que é possível que nada acabe, nem eu. Caso eu lhe pareça uma herege, seja misericordioso, me ofereça seu perdão e toque em frente. Nem perca seu tempo me enviando mensagens desaforadas ou tentando fazer com que eu mude de ideia. Sou um caso perdido. Dedique-se a quem ainda tem salvação.

Mas se você, como eu, acredita que um dia tudo terminará, não espere por um diagnóstico, não espere uma data redonda, não espere que algo grandioso aconteça para começar a fazer o que tem vontade. Ter nascido já foi grandioso o suficiente.

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