Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

a maior superlua, o maior avião do mundo... que nada! vamos desvendar as propriedades do gim. o feriado exige.

O gim deveria estar nos livros de história
Um novo ensaio descreve como o destilado influenciou na medicina moderna, nas guerras religiosas ou no primeiro feminismo.

MAR CALPENA


Não se costuma dar muita atenção à história da alimentação nas aulas de história universal, além da menção da rota das especiarias ou dos novos cultivos vindos da América, mas na verdade ela desempenha um papel central na compreensão de migrações, guerras e movimentos sociais. Gin, A Global Story (Reaktion Books, 2012) (História Universal do Gim) é um livro rigoroso, mas muito divertido, escrito pela jornalista norte-americana Lesley Jacobs Solmonson, que conta como o destilado de zimbro mereceria, pelo menos, algumas notas de rodapé nos livros de história.

Jacobs Solmonson, que também é coautora de um blog cultuado por bartenders amadores, o 12 Bottle Bar, conta que durante a fase em que levantava a documentação para o livro foi surpreendida pelo fato de que “nenhuma outra bebida foi tão difamada como o gim”. Escolhemos seis pontos em que essa bebida alcoólica desempenhou um papel determinante ou foi um reflexo fiel de um momento histórico.

1. A medicina moderna

Sim, o gim –e o resto dos destilados– têm origens medicinais, embora hoje isso nos pareça estranho. O álcool fermentado era conhecido desde a Antiguidade e a maceração de ervas e vegetais para melhorar o seu sabor também (parece que o gim-tônica com pepino tem seu pedigree), mas só foi na Idade Média que os árabes sistematizaram o estudo de destilação e aperfeiçoaram alambiques rudimentares. “Quando a peste negra devastou a Europa, acreditava-se que o zimbro poderia ser a cura milagrosa”, diz Jacobs Solmonson. Embora na verdade não servisse para curar grande coisa, a bebida de zimbro –ainda não era o gim– já era conhecida por metade da população europeia que havia sobrevivido à peste, que migrou para as cidades sedenta de álcool.

2. As guerras de religião

Antes do gim, havia o jenever holandês, que ainda é produzido. Porque talvez o gim nos pareça mais britânico que Jeremy Irons fazendo o papel de um aristocrata sexualmente reprimido, mas sua origem é, na verdade, a Holanda. Foi lá onde rapidamente surgiu uma tradição destiladora que nos deu primeiramente o brandewijn (ou seja, o brandy!), ou vinho queimado e, mais tarde, por causa dos bloqueios comerciais da Espanha ou da Itália, o aguardente de cereais aromatizado com zimbro que começou a ser consumido para fins recreativos. Os ingleses ajudaram muitas vezes os holandeses em suas guerras contra a Espanha católica, e quando suas tropas estavam estacionadas na Holanda, entraram em contato com o jenever. “Quando o rei Guilherme III, de origem holandesa, subiu ao trono britânico em 1688, o jenever se tornou o destilado premium daquela época”, diz a autora.

3. A formação do proletariado urbano

Você se lembra daqueles sobreviventes da peste negra que mencionamos anteriormente? Eles e seus descendentes abandonaram gradualmente a vida rural para se estabelecer nas cidades. Em cidades, isso sim, sujas, caóticas e sem serviços básicos, onde a expectativa de vida era curta e os salários eram baixos o suficiente para levar uma vida miserável, mas suficientemente altos para gastar alguns tostões com algo que aturdisse os sentidos. E onde os ricos bebiam o fino jenever e o povaréu emborcava quase meio litro de gim da pior qualidade por dia.

Doses que terminam mal. WILLIAM HOGWART



Desencadeou-se o que foi chamado de “a loucura do gim”, uma época de alcoolismo coletivo e violência de rua que foi comparada com a epidemia de crack da década de oitenta e criou o primeiro grande pânico social sobre as drogas, imortalizado na gravura O Beco do Gim, de William Hogarth. A gravura, por sinal, é a peça central da exposição Art and Alcohol, aberta nesta semana na Tate Gallery, em Londres. “Durante a loucura do gim a bebida foi demonizada, mas, na verdade, as razões pelas quais as pessoas bebiam não foram atacadas”, observa a jornalista.

4. A expansão dos impérios coloniais

A loucura do gim foi declinando pouco a pouco por várias razões, como o surgimento do rum e de certos tipos de cerveja, uma regulação mais estrita da qualidade –que também permitia cobrar mais impostos pelo álcool– ou as melhorias técnicas nos alambiques que vieram com a Revolução Industrial. Mas a bebida se lançou à conquista do mundo. A Companhia das Índias Holandesas primeiro, e a marinha britânica depois, levavam a bordo dos seus navios o destilado de zimbro como medicamento.

“De fato”, lembra Jacobs Samolson, “em Plymouth foi criado um gim especial de 57º para a marinha que, por sua alta graduação, não inutilizava a pólvora se esta fosse molhada”. O gim serviu como base para os bitters, também considerados medicamentos, e ao suco de lima e limão com o qual se prevenia o escorbuto. Além disso, descobriu-se que a amarga casca do quinino era boa para combater a malária, e logo era comercializada sob a forma de água tônica, criando assim a base do fármaco mais consumido nas noites de sexta-feira.

5. O primeiro feminismo

Durante o século XIX, apesar de o gim ter se tornado um pouco mais respeitável, seu uso como ópio do povo continuava a causar problemas, especialmente nos Estados Unidos. Muitas mulheres, frequentemente vítimas de maus-tratos por parte de maridos alcoólatras, se reuniam em ligas em favor da temperança, que muitas vezes também lutavam pelo voto feminino.



A lei seca e o direito ao voto chegaram quase ao mesmo tempo e, como o consumo de álcool estava proibido para todo mundo, pela primeira vez homens e mulheres tempo dividiam o espaço onde beber: os speakeasy (bares discretos). “E o marketing percebeu o mercado que as mulheres representavam”, diz Jacobs Salmonson, que comenta com humor que “havia tipos de gins que eram vendidos como tônicos para problemas ginecológicos”.

6. A pós-modernidade

O livro de Lesley Jacobs Solmonson foi escrito em 2012 e, como ela mesma diz “em apenas três anos o gim experimentou um boom global, com novas marcas com todas as nuances de sabor e a recuperação de variedades antigas praticamente desaparecidas”. Jacobs Solmonson é crítica em relação a esse fenômeno: “Se o gim não tiver cheiro principalmente de zimbro, o que estamos bebendo é vodca aromatizada”, afirma.

Ela também observa que “muitos destiladores começam pelo gim porque não é preciso envelhecê-lo e ele oferece mais possibilidades para experimentar do que a vodca. E isso nem sempre é bom”. A especialista espera que “pelo menos sirva para despertar a curiosidade dos consumidores a respeito de sua história e suas peculiaridades. E o gim já não é percebido como algo antiquado”. E com o que podemos brindar por isso? Jacobs Solmonson recomenda um coquetel de Dale DeGroff, o Fitzgerald, uma variante do gim sour criada como alternativa ao gim-tônica e sobre a qual comenta brincando que “é o coquetel ideal para inocular a loucura do gim em alguém que não conhece o destilado”.

RECEITA: FITZGERALD

Dificuldade: pequena

Ingredientes

Para um coquetel

• 45 ml de gim

• 22 ml de xarope simples

• 22 ml de suco de limão

• algumas gotas de angostura

• 1 fatia de limão

Preparação

1. Encha uma coqueteleira com gelo e adicione os quatro primeiros ingredientes. Agite.

2. Sirva colocando num copo com cubos de gelo (não os mesmos da coqueteleira) e decore com a fatia de limão.


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