Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

domingo, 30 de outubro de 2016

Bali: a Ilha das prazeres, das orgias e das drogas sob o comando de brasileiros descolados. até que dois foram fuzilados.

FALSO PARAÍSO

Paulo Lima


Kathryn Bonella é uma australiana alta, esguia e bonita. A estes atributos devemos acrescentar que é uma jornalista corajosa que dedicou alguns anos de sua vida a perseguir um assunto árduo, o tráfico de drogas na paradisíaca ilha de Bali, na Indonésia.

O resultado dessa imersão é o livro "Nevando em Bali", recém-lançado pela Geração Editorial. Kathryn esteve ontem na III Bienal do Livro de Brasília para falar da obra e de seu périplo naquele país da Ásia.

O livro, cujo título se refere à chegada de cocaína na Ilha, evoca de imediato a lembrança do nome de Marco Acher, brasileiro executado em 2015 na Indonésia por tráfico de drogas, apesar dos esforços do governo brasileiro para impedir a consumação da pena.

Marco é um dos personagens brasileiros do livro, mas não o único, conforme explicou Kathryn em sua conversa.

Eu jamais ouvira falar da jornalista, e um detalhe no anúncio de sua participação na Bienal chamou minha atenção. Ela estaria acompanhada de Luiz Fernando Emediato, seu editor.

Conhecendo a tradição da Geração em publicar livros jornalísticos de grande impacto, pensei: aí tem coisa. Um Google rápido, e eu já sabia do que tratava o livro. Ganhei meu dia.

"Nevando em Bali" completa uma trilogia da autora. Seu primeiro livro, "No more tomorrows", inaugura o interesse de Kathryn pelo tema do tráfico milionário de drogas naquela localidade. Ela abandonou seu trabalho de produtora na TV australiana para investigar o rumoroso caso da estudante Schapelle Corby, presa por porte de drogas.

Em Bali, Kathryn ficou conhecendo os meandros das prisões da ilha. Dessa investida surgiu o livro "Hotel Kerobokan". Hotel é como os indonésios se referem ironicamente àquela penitenciária. Se você pode pagar, viverá com todas as mordomias lá dentro.

O contato com os prisioneiros em Kerobokan revelou à jornalista uma espécie de casta, os barões do tráfico, prisioneiros que levam uma vida cheia de regalias, graças à prática disseminada do suborno.

É aí que surgem personagens como Marco Archer. O caso do brasileiro era apenas um entre muitos traficantes que curtem um estilo de vida regado a festas, muita droga e orgias, um paraíso que pode durar interminavelmente, desde que o bon-vivant não seja preso. Ainda assim, terá a chance de escapar da pena de morte, se puder pagar por sua liberdade.

Animadíssima e muito atenciosa, Kathryn se dispôs a conversar por um bom tempo sobre seu incrível trabalho, depois de concluída sua apresentação na Bienal.

"Marco estava convencido de que era invencível", ela falou. Mesmo sabendo que ele não escaparia da morte, ficou em choque quando soube do fuzilamento. Para mostrar como se sentiu, abriu os braços em cruz e jogou a cabeça para trás.

Apesar de tratar de um tema potencionalmente perigoso, Kathryn disse que não recebeu ameaças ou correu riscos.

A partir de ontem, a Austrália deixou de ser para mim apenas a terra dos cangurus e dos "outbacks" (as extensas paisagens cinematográficas daquele continente). Passou a ser também o país de uma grande jornalista - Kathryn Bonella.

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