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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"A gente não pode dizer que o conservadorismo nunca existiu no Brasil, ele andou sumido. De tal maneira que a gente conhece muito pouco dele"

Encontro de cientistas políticos demoniza a 'nova direita' 

Thais Bilenky 
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A "nova direita" é "velha", revestida de uma "disposição renovada" de combater a quebra da hierarquia social, segundo o cientista político Cicero Araujo (USP).

Para o seu colega Christian Lynch (Universidade Estadual do Rio), o conservadorismo na boca das "elites dirigentes" sugere uma "saciedade de modernização", o que seria "dramático".

Jorge Chaloub (Ibmec-Rio) acusou a "nova direita" de aderir ao "velho argumento conservador de [ter uma] percepção privilegiada do real", de que a "esquerda é a culpada" pelos males do país.

Daniel de Mendonça (Universidade Federal de Pelotas) pediu "cuidado" com o discurso supostamente articulado pelo empresariado e a imprensa, Folha inclusive, que reforça "excessos estereotipados" como que para disfarçar "tentáculos muito mais robustos" do que os evidenciados por grupos que organizaram manifestações pró-impeachment.

Em debate realizado nesta quinta (27) no congresso da Anpocs (associação de cientistas sociais), em Caxambu (MG), cientistas políticos de esquerda expressaram uma visão demonizadora da crescente identificação de setores da sociedade brasileira com ideias conservadoras e liberais.

Embora chamem de velha a corrente antipetista organizada após 2013, favorável a um enxugamento do Estado brasileiro, eles próprios atentam para suas características inéditas.

Por exemplo, a reverberação entre classes menos favorecidas.

"Eis aí uma novidade da nova direita conservadora", disse Araujo, professor titular da USP. "No terreno cultural, os conservadores falam menos para as classes altas do que para as populares. Falam e ecoam anseios e angústias das classes populares."

Também a inserção no atual contexto mundial de fortalecimento da direita foi mencionada como um diferencial. "A gente tem de estudar a teoria conservadora norte-americana, porque [a nova direita brasileira] parece defender argumentos como esses do [candidato republicano à Presidência dos EUA, Donald] Trump", justificou Lynch.

Outra novidade, a falta de vergonha em se dizer de direita, tampouco foi celebrada, apesar de resultar da saudável distinção entre conservadorismo, liberalismo (com o prefixo neo muitas vezes acrescentado em ambos os casos) e ditadura, 31 anos após o fim do regime militar.

"Parece que boa parte da sociedade brasileira já está saciada do seu desejo de modernidade", interpretou Lynch sobre o sossego da direita em se admitir como tal.

"Isso tem consequências dramáticas, porque a saciedade coincide com a região mais abastada do país. Tem toda uma região que certamente não está saciada da modernidade", disse.

Chaloub acrescentou outro distintivo, o "novo tipo de ator político, diverso à nossa tradição, do polemista liberal ou conservador".

Mas apontou suposta inconsistência nos agentes como o professor de filosofia Denis Lerrer Rosenfield, que "se colocam como teóricos", mas "atuam politicamente como militantes".

O desprezo por acadêmicos de direita e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da própria ignorância sobre o conservadorismo no Brasil evidenciou mais essa contradição dos debatedores.

"A gente não pode dizer que o conservadorismo nunca existiu no Brasil, ele andou sumido. De tal maneira que a gente conhece muito pouco dele", admitiu Lynch. "Talvez fosse o caso de resgatar que conservadorismo era esse." Talvez.

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