Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Me desagrada o viés fundamentalista, em especial, a demonização que promove das religiões africanas que aqui prosperaram.

O que desola numa vitória de Crivella é a sombra da perseguição religiosa 

Fernanda Torres 

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Foi Caetano Veloso quem me apresentou à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador. Erguido no século 18, no Pelourinho, por irmandades de escravos e alforriados, o santuário é prova viva da fusão religiosa que ocorreu no Brasil.

A missa da Nossa Senhora dos Pretos mistura santos e orixás. Diferentemente do gospel, que só herdou da África a elevação do canto, na capela baiana os atabaques comem soltos, marcando o ritmo para o gingado dos fiéis encarnados. Oxossis, Nanás e Oxuns adentram a nave para reverenciar as imagens de Nossa Senhora, são Benedito, santa Bárbara e Cristo na cruz. Oferendas são depositadas no altar, num rito que poderia ser considerado profano, não fosse a aprovação do episcopado local.

E foi o mesmo Caetano quem me contou que Mangabeira Unger vê benefícios no avanço da Igreja Evangélica no país. Ao contrário do catolicismo romano, que prega o conformismo em vida, para alcançar a plenitude no pós-morte, o culto evangélico abençoa a prosperidade.

O caso de Ney, um mestre de obras que costumava fazer reparos na minha casa, corrobora a opinião de Unger. A mulher de Ney caiu numa depressão tão profunda que não havia doutor, padre ou remédio que desse jeito na pobre. Salva pela comunidade evangélica do bairro em que vivia, ela convenceu o marido a acompanhá-la no culto, a fim de agradecer a paz. Ele não só se converteu como abandonou o antigo emprego para abraçar uma outra carreira. Ney virou pastor.

Casos assim me fazem frear o engulho que tenho do argentarismo que obriga desvalidos a doarem o que não possuem, alegando que Deus exige deles uma prova. O progresso preconizado nos templos tanto pode gerar ministros que fazem fortuna com o dízimo quanto oferecer uma saída concreta para a angústia e o abandono social.

Não acho certo julgar a crença alheia; a pedofilia na Igreja Católica não é menos condenável, assim como o charlatanismo praticado em muitos terreiros. Mas detecto, em mim, uma mistura de medo e preconceito com relação à ascensão evangélica. Me desagrada o viés fundamentalista, em especial, a demonização que promove das religiões africanas que aqui prosperaram.

Levamos séculos para fundir Nosso Senhor com Oxalá. O sincretismo evidencia a resistência da cultura negra à escravidão, e a permeabilidade da colonização portuguesa é algo inseparável da nossa história.

Se a condenação se restringisse aos cultos, eu nada teria a dizer, mas a objetividade prática dos evangélicos ganha poder no Congresso, em meios de comunicação e cargos executivos.

No Rio, Marcelo Crivella se apresenta como um homem cordial e tem grandes chances de se tornar prefeito. Talvez por eu ser sobrinha de uma mãe de santo, mais do que o horror da homofobia, do conservadorismo ou do retorno ao populismo tacanho de Anthony Garotinho, o que desola numa possível vitória de Crivella é a sombra da perseguição religiosa.

Trata-se de uma ameaça que fere, em cheio, o significado histórico, social, humano, pio e cultural da liturgia da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

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