Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

LEMBRANÇAS DE CAJAZEIRAS

(Pedro Neto Cavalcante)
Eduardo e Ériston,
Gostei muito do texto OS BEATLES DE CAJAZEIRAS - A FOTO,(de Eduardo Pereira),  postado no AC2B (em 30.12.10) e me deu vontade de escrever alguma coisa sobre o que veio na lembrança. Eis:

 Embora tenha sido pouco o tempo que morei em Cajazeiras (1969 a 1973) mas foi um período que marcou muito a minha vida pois foi a partir daí que despertei para o mundo. Vivi minha pós adolescência lá e, mesmo por pouco tempo, me orgulho de ter conhecido e até participado neste período, do quadro cultural de Cajazeiras.

Vindo de uma cidade bem menor, que era Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, onde fiz o curso ginasial e para dar continuidade nos estudos, fazer o curso científico no Colégio Estadual de Cajazeiras. Recebi grande ajuda e apoio de uma família com a qual morei todo esse período, pois não tenho família lá. Tive muitos amigos e boas amizades.

Pedro Neto deixou registrado sua marcante passagem em Cajazeiras


Mas o que quero dizer é que foi em Cajazeiras que comecei a ver o mundo e aprender com ele. Primeiro que a cidade aos meus olhos era uma metrópole. Cheguei lá de ônibus, (Viação Andorinha - voa andorinha vai ligeiro diz ao meu bem que voltarei, lembra?) transporte que ainda não tinha andado, Rodoviária Antonio Ferreira um prédio imenso de três andares, energia elétrica dia e noite, loja de departamentos, conheci a grande e famosa Rádio Alto Piranhas e seus locutores como o saudoso J. Gomes do Balancê a Paraíba, cinema todos os dias, o Cine Apolo que eu achava que não podia ter outro maior, a televisão que vi pela primeira vez na vitrine da loja Carvalho Dutra e fiquei de queixo caído. Aluno do curso científico, que era um privilégio na época para um rapaz pobre que insistia em estudar, o colégio e novos colegas, o movimento da cidade, as pessoas. As luzes e o brilho da praça João Pessoa me pareciam a Las Vegas que eu via nos filmes. Muita música, Jovem Guarda, Roberto Carlos e também Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Angela Maria e que até hoje quando escuto, ainda me vem a lembrança dos locais e parece que sinto o gosto de uma dose de pitú com tira-gosto de limão.

Foi lá também que conheci pela primeira vez um cabaré de verdade freqüentando a boate Verdes Mares e que diziam ter sido a primeira em Cajazeiras a ter a novidade da luz-negra. Essa boate era de uma “senhora” respeitada no cabaré e também na cidade e comparado com o comportamento nas casas noturnas de hoje lá era uma igreja.
E veio também o envolvimento com aqueles garotos/rapazes que queriam mudar senão o mundo, mas aquela situação em que se encontrava o país. Protestos, muita discussão em conversas a meia-boca nos bares e bodegas da cidade, onde iniciei com a turma boa de lá o costume gostoso que era tomar cachaça. Saíamos do colégio estadual e subíamos por um caminho que dava no cabaré, acho que ficava perto, pra tomar meiotas ou quando a grana dava, ron montilla com coca-cola, falar de política e olhar pras putas. Fiz distribuição em feiras e ônibus para as cidades da região, de material político contra a ditadura, apologia a Che Guevara e a Ilha de Cuba, reuniões escondidas para fazer panfletos, ler livros e textos proibidos pelo sistema, inclusive muita pornografia. Ainda lembro-me dos discursos em voz baixa: “Os estudantes norte-americanos estão protestando contra a guerra do Vietnã, os estudantes alemães contra as mentiras do pós-guerra, os franceses contra a estagnação da 5ª República e os tchecos contra o regime Bolchevique e nós estudantes brasileiros e de Cajazeiras também temos que ir às ruas contra esse regime militar, convencer os militares a devolverem o poder aos civis“. Foram sementes plantadas.

Entrei para um grupo de teatro e acho que chamava-se GRUTAC - Grupo de Teatro Amador de Cajazeiras, mas foi por pouco tempo e atuei apenas em uma peça que se chamava É O FIM, escrita por uma pessoa do grupo e é uma pena não lembrar do seu nome. Era um reunião de textos de grandes personagens da nossa história, escritores, poetas, compositores que ia de D. Pedro I a Chico Buarque entre outros e no contexto era também uma forma discreta de protestar. Foi encenada algumas vezes no Clube 1º de Maio. Depois, com o mesmo grupo, fiz alguns ensaios pra montagem da peça Vida e Morte Severina, mas não fui até o fim, surgiram umas dificuldades e como eu sabia que nunca iria fazer parte das peças dirigidas por Dona Ica, acho que o teatro de Cajazeiras agradece por eu não ter continuado.

Antes de Cajazeiras conhecia pouco da beatlemania e as músicas. Ouvia Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Marinês e Sua Gente e outros cantores populares. Isso nas casas dos outros, pois na dos meus país não tinha rádio e muito menos radiola. Mas foi lá, com os rapazes de Cajazeiras, que passei a também idolatrar The Beatles. Ouvia-se nas rádios, nos bares, no Jovem Club na Praça João Pessoa e também cantadas pelos conjuntos musicais nos bailes 
dos clubes 1º de Maio e Cajazeiras Tênis Clube.

Pedro Neto e amigos, que são coisas pra se guardar no lado esquerdo do peito


Tinha um amigo e ele gostava de sair tarde da noite pra fazer serenata lá para os lados do bairro Capoeiras com uma radiola Philips portátil, aquela com o alto-falante na tampa, e todos os discos que ele possuía dos Beatles e um que era proibido sua execução em qualquer lugar, por ser considerado imoral e que se chama Super Erótica!. Esse a gente tocava sempre no final e foi motivo de algumas corridas antes que a polícia chegasse ao local chamada por alguém. Hoje essas músicas até fazem parte de trilha sonora de novela. Como a grana mal dava pra comprar a meiota de cachaça o que muitas vezes ficava mesmo na pindura em alguma bodega e não tinha pra comprar seis pilhas grandes, esse meu amigo subia nos postes da rede elétrica e fazia uma gambiarra pra obter energia e fazer a radiola funcionar. Até que uma noite um curto-circuito na gambiarra transformou a radiola em um plástico derretido junto com ferragens retorcidas e voltamos pra casa só com os discos.

Mas chegou o tempo em que foi necessário deixar Cajazeiras. Em 1973, científico concluído, sem condições de estudar na FAFIC, sem dinheiro e achando que com aquele nível de escolaridade já estava preparado para o mercado de trabalho, tinha que ganhar dinheiro, inclusive pra ajudar meus pais e recompensar o sacrifício que eles fizeram até então. Mas não tinha perspectiva de emprego. Bateu uma desilusão e pus o pé na estrada, literalmente, virei hippie andando pelas cidades e vilas, enrolando arame pra fazer pulseiras, brincos e outros adereços. Larguei a militância política e passei a viver em grupos com o ideal do socialismo anarquista, os dedos fazendo um “V” gritando paz e amor.

Esse movimento de contracultura já estava em queda de popularidade nos EUA e no Brasil começava a acontecer o mesmo. A verdade é que aquilo não era o meu ideal, não era o que eu queria e por isso fui largando a comunidade ao longo das estradas e cidades.
Como cantou Belchior, “

jovem que desce do norte pra cidade grande / Os pés cansados e feridos de andar légua tirana ...“ e assim e de muitas caronas andei pela Paraíba, Pernambuco, Bahia, Minas Gerias e depois de uns oito meses cheguei em Brasília, apenas para conhecer, mas estou até hoje. Tem muita história desse período.

Só voltei à Cajazeiras em 1981 e a cidade tinha crescido e progredido. Mas o Colégio Estadual, o cinema Apolo XI, a praça João Pessoa, as ruas não eram tão grandes como na minha imaginação. O que continuava e continua grande é o calor humano que faz a gente amar tanto a cidade. Grande também é a satisfação que sinto quando volto lá. É o mesmo de quando cheguei pela primeira vez.

Se esse texto pudesse ter fundo musical seria esta música:
Oh!, Darling / Please believe me / I'll never do you no harm. / Believe me when I tell you, / I'll never do you no harm ... (The Beatles). 


Faça como nosso cajazeirado da gema, Pedro Neto, escreva suas memórias de Cajazeiras e divulgue aqui.
Eduardo Pereira: dudaleu1@gmail.com

4 comentários:

  1. tem um blog de cajazeiras muito bom
    http://oultimodosmoicanos-claudiomar.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Esse é o meu pai!!! Cheio de histórias da juventude dele. Gostei do texto, paizinho, parabéns!! Me leve pra conhecer essa sua cidade querida qualquer dia. Bjo! Andréa Cavalcante.

    ResponderExcluir