A ecologia hoje tem dimensão em escala, associada à preservação do meio ambiente; à falta de consciência ao consumo desenfreado; à educação de não jogar lixo no meio da rua; a não jogar papel na calçada; a fazer seleção do lixo caseiro. A ecologia, hoje em dia, é a linguagem predominante de que até o palito do picolé que chupamos deve ter destino certo para não acelerar a destruição do planeta. Muitas escolas hoje têm aulas de consciência ecológica. O alvo dessa consciência para preservação do planeta, principalmente, são as crianças, futuros cidadãos que conviverão com esse xis da questão. O lixo recolhido das cidades, hoje, é um problema tão sério quanto o de segurança pública.
Fiz essa pequena introdução para lembrar-me de como era a questão do lixo de quando eu era guri em Cajazeiras, aí pela década de sessenta/setenta. O lixo é decorrente do consumo. Se consumirmos muito, o lixo será muito. E da qualidade desse lixo. Digo isso porque o consumo desenfreado de plástico é altíssimo. Pra tudo que consumismo hoje em dia o plástico praticamente está envolvido, e dizem que ele demora quinhentos anos pra ser destruído. Quer dizer, praticamente um período de descobrimento do Brasil.
Naquele tempo em Cajazeiras não havia essa derrama de plástico. Se a gente ia na bodega (a pronúncia bonita mesmo é ‘budega’. Já repararam que a gente enche a boca pra falar BUDEGA!) ou padaria comprar pão, era o papel usado para embrulhá-lo, e não sacola plástica. Existia sacolas, sim, de papel. Ou melhor, a gente não falava ‘sacola’, falava-se saco, saco de papel. E a carne? Lá no açougue público era comum embalar a carne em papel jornal. Quando essa carne chegava em casa tinha-se que despregar o jornal da carne. Era comum embrulhar as compras pequenas em bodegas com o papel de jornal. Bem, pelo menos dá-se a idéia de que a leitura de jornal era assídua.
O refrigerante era em garrafa de vidro. Muitos produtos eram acondicionados em lata, e não em plástico. Nem supermercado existia! Existia o armazém de ‘seu’ Arcanjo pra se comprar à grosso e as bodegas muito surtidas pra se comprar no varejo. Comprava-se na caderneta, fiado, pra pagar no final do mês. Existia a bodega de Quinco, na Rua Pedro Américo, a bodega de Zecão na Rua das Tamarindas, a bodega de ‘seu’ Vicente em frente ao Cine Pax, e mais um monte de bodegas espalhadas pela Camilo de Holanda e outras ruas. Mais alguns anos a frente veio a surgir os templos de consumo, os shopping centers, onde as cadernetas foram substituídas por pedaços de plásticos onde se anota eletronicamente pra se pagar no final do mês.
Os automóveis eram fabricados tudo em ferro. Do pára-choque ao painel, praticamente não existia plástico. Não dá nem para imaginar uma barruada – é o novo! – entre um jeep, ou uma rural, daquela época, com um carro de passeio qualquer de hoje em dia. Seria humilhação. Só pra se ter idéia da resistência dos pára-choques, o jeep de ‘seu’ Antonio Guedes, agente fiscal da Coletoria de Cajazeiras, que morava na Rua Pedro Américo (para quem não sabe, a Pedro Américo é aquela rua que fica ao lado do Cine Pax, onde está o Círculo Operário) onde eu morava, tinha como freio, quando ele chegava em sua casa, um pé de figo. Chegava ele e encostava o pára-choque do jeep nele. Chega dava aquela tremedeira rápida na árvore. E o bicho nem moigava.
Às quinta feiras o lixo era recolhido. As pessoas botavam nas calçadas, como lixeiras, latas, lixeiras feitas de pneu de caminhão, e até aquelas malas – já velhas - de madeira, que eram uns caixotes. Aquelas malas revestidas de papéis coloridos, que eram vendidas na feira da rua pros beradeiros viajarem pra São Paulo. Vinha o caminhão, um caminhão comum mesmo, e os lixeiros, sem luvas, sem máscaras, sem proteção alguma, pegavam as lixeiras e derramavam o lixo na carroceria. Jogavam as lixeiras no meio da calçada, ou no meio fio. Antes deles passarem, os cachorros já tinham passado para darem umas fuçadas básicas. Era o momento em que a gurizada praticava tiro ao alvo com pedras na cachorrada. Não tínhamos também consciência com os animais.
Muitas lixeiras largadas ficavam com resquícios de chorume onde se via muitos tapurus. Para quem não sabe, tapurus são larvas que depositam ovos nas carnes em putrefação. Lembram-se daquele bichinho que fica na goiaba podre? Isso mesmo, o bicho de fruta. Se não for da mesma família, são os próprios. É lógico que tinha gente que acomodava o lixo de forma correta, em latões de alumínio, com tampa. Quem tinha mais poderes financeiros, tinha melhores lixeiras.
Como o lixo passava só na quinta feira, quem se atrasava saía correndo chamando pelo lixeiro: “êi, seu Zé (quando não se conhecia o nome de uma pessoa do sexo masculino, falava-se “seu Zé”, e do sexo feminino, “dona Maria”) peraí, peraí, pelo amor de deus, rebole esse aqui também!”
Tenho pra mim que o lixo de Cajazeiras era jogado lá pras bandas da estrada de Jatobá, também conhecido como São José de Piranhas. Acho que era lá o lixão.
Apesar de não haver tratamento adequado com o lixo, naquela época, que eu lembre, nunca houve peste, doenças em série, ou algo parecido. Não havia dengue em massa, não havia medo de gripe coletiva, não havia nada disso.
Eduardo Pereira
E-mail: dudaleu1@gmail.com
Êi, fale de seu tempo lá em Cajazeiras. Envie suas lembranças, histórias/estórias.
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