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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Ser Botafogo

A BIBLIA E O BOTAFOGO

Luiz Antonio Simas

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Diz a Bíblia que os filhos de Herodes, o Grande, foram elementos da pior espécie, que arrumaram as maiores confusões durante o império de Augusto, no início da era cristã. Um deles, Herodes Antipas, tetrarca (um dos quatro reis) da província romana da Galiléia, foi a Roma e sequestrou Herodíades, a mulher do próprio irmão, Herodes Felipe. Esse Herodes Felipe, por sua vez, também não era boa bisca. A tal Herodíades era filha de Herodes Aristóbulo, irmão do Felipe e do Antipas - sobrinha, portanto, de ambos. Herodíades tinha uma filha; a jovem Salomé.

Quando Herodes Felipe retornou à Galiléia com a nova esposa e Salomé, o povo rebelou-se contra o irmão que roubou a mulher do outro. Para piorar a situação, era um romance entre tio e sobrinha. Um escândalo. O mais indignado com a sacanagem foi João Batista, o homem que batizou Jesus Cristo no Jordão.

Pregador furioso, moralista e incorruptível (entre nós, devia ser um patrulhador chatissimo), João Batista não deu trégua ao trio Antipas, Herodíades e Salomé. Urrava aos ventos contra a união incestuosa, que desmoralizava a lei de Moisés e envergonhava a Galiléia. Conclamava o povo de Jerusalém a apedrejar o casal que aviltava as escrituras.

De saco cheio das imprecações do profeta galileu, Herodes Antipas encarcerou João Batista na Fortaleza de Maquerunte, às margens do Mar Morto. Mesmo no cárcere, solitário, o pregador continuou gritando impropérios contra a união que chocou a Galiléia.

Um dia, durante a festa de aniversário do padrasto, Salomé protagonizou um espetáculo de dança que incluiu um striptease. Deixou os convivas embasbacados e o tetrarca, que tinha planos secretos de comer e ser comido pela enteada, enlouquecido. No final da performance, Antípas disse que Salomé poderia fazer qualquer exigência, que prontamente seria atendida. Salomé virou-se para Herodíades e disse, com ar inocente de normalista do Nelson Rodrigues:

- Mamãe, o que queres que eu exija?
Herodíades não perdeu tempo:
- A cabeça de João Batista numa bandeja de prata, com alfinetes cravados na língua!

E assim morreu João Batista, que tempos depois foi canonizado pela Igreja Católica. O final dos outros personagens dessa história também foi trágico. Consta que Herodes Antipas e Herodíades morreram num terremoto e Salomé, após casar-se com o tio-avô, Herodes Felipe II, morreu ao tentar atravessar , pelada e perseguida por capangas do marido, o rio Sikoris. Pragas do Batista e moralismo bíblico, é claro.

Quinze séculos depois dessa sacanagem toda, os portugueses, tremendamente católicos, construíram (1519) um monumental barco de guerra denominado, em louvor ao profeta decapitado, Galeão São João Batista. Pesando mais de mil toneladas e dotado de 800 peças de artilharia, esse fenômeno dos mares, que parecia cuspir fogo pelas ventas, ficou conhecido pelo apelido de O Botafogo. Portugal chegou a emprestar o Botafogo à Espanha, para auxiliar Carlos V na guerra contra o famoso pirata otomano Barba Roxa - o terror dos sete mares, amante de cinco mil mulheres e pai de cerca de quatrocentos filhos.

O Botafogo fez tanto sucesso que um fidalgo português resolveu colocar o apelido do barco de guerra no sobrenome do filho. Em 1540 nasceu, em Elvas, o menino João de Souza Pereira Botafogo.

Esse João de Souza Pereira Botafogo acabou parando no Brasil. Chegou como lugar-tenente do governador-geral Antônio de Salema, nomeado em 1573 para defender a recém-fundada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Por desempenhar com sucesso sua função, João Botafogo ganhou do rei uma sesmaria na Enseada de Francisco Velho, que passou a ser conhecida como Praia do Botafogo. A praia ganhou fama internacional após a chegada ao Brasil da família real portuguesa, quando ali foi morar a mulher de D. João, Carlota Joaquina.

Além dela, a moradora mais ilustre da história de Botafogo, outro personagem interessante que passou por ali foi o padre Clemente Martins de Matos. Dizem sobre ele que, sem qualquer vocação sacerdotal, abraçou a função religiosa e chegou ao Brasil fugido, com uma considerável soma em dinheiro, após envolver-se em escândalos amorosos em Lisboa, receber ameaças de morte e ser esfaqueado por uma cigana numa taberna da baixa pombalina. O padre Clemente amasiou-se com uma mulata carioca e teve vários filhos, que receberam, numa prova de dignidade do reverendo, o sobrenome paterno. A rua São Clemente homenageia o curioso personagem.

E como termina essa história de crimes, paixões, azares, sortes e putarias; que começou na Galiléia e culminou no bairro de Botafogo?

Termina com a fundação do Botafogo de Futebol e Regatas, clube que condensa a ira santa de João Batista, a certeza supersticiosa do infortúnio de Herodes, a audácia de Salomé, a resistência guerreira de um galeão, o espírito aventureiro de um fidalgo, a beleza de uma enseada, a paixão de uma cigana disposta a matar e morrer por amor e a maluquice de um padre cheio de filhos.

Ser Botafogo - e trazer na alma a herança de tempos e sentimentos imemoriais - não é para principiantes.

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