Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sábado, 24 de junho de 2017

o Lima Barreto que surge é o dos direitos civis –o escritor brilhante, mas que não conseguiu ascender por causa de sua cor.

Um passeio pelo subúrbio de Lima Barreto, que ganha nova biografia

MAURÍCIO MEIRELES

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O vento frio vem da Serra dos Órgãos, bagunça os cabelos, apaga a chama dos isqueiros, levanta a poeira das esquinas. No século passado, acreditava-se que essa mesma brisa podia curar os tuberculosos.

"Estamos aqui na Suíça brasileira! Espera aí que eu vou pegar meu xale!", ri a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz.

A piada dela faz sentido. Estamos em Todos os Santos, no subúrbio do Rio de Janeiro, onde Lima Barreto (1881-1922) viveu. O escritor, homenageado da Flip - Festa Literária Internacional de Paraty (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, é tema de uma biografia escrita pela autora, que chega às livrarias.

É o primeiro retrato de fôlego do autor desde a pesquisa de Francisco de Assis Barbosa, nos anos 1950, que volta às prateleiras, pela Autêntica.

Mesmo que, em dezembro, o subúrbio seja associado a um terrível calor, chalés em estilo suíço multiplicam-se pelas ruas –aqui era lugar de tempo frio e ar puro. "Lima dizia que o verdadeiro suburbano é o da linha do trem", diz Schwarcz, que usa no livro o conceito de "literatura em trânsito" como uma das definições da obra do autor.

A linha férrea que corta o bairro, fundada em 1855, une e separa a província carioca –por ela, as massas de funcionários públicos que serviam à monarquia e, depois, à República iam trabalhar no centro da cidade. Lima, um deles, pegava um trem de segunda classe para ir a seu emprego de amanuense.

Voltava para cá observando os tipos: trabalhadores, moças soltando suspiros para ver se um cavalheiro cedia o lugar. Observava a paisagem pela janela e achava que no subúrbio nada combinava, mas sentia afeto pelo lugar.

"Lima Barreto é sempre um deslocado. Está no subúrbio, mas se sente diferente dos suburbanos. No centro, porém, se sente mais suburbano", afirma a historiadora.

A diferença da nova biografia em relação à anterior é tratar amplamente da questão racial. Lima era negro, descendente de escravos. E dedicou-se a retratar os tipos marginais da sociedade, além de denunciar com sua língua ferina os vícios da Primeira República e da vida literária.

Assim, o Lima Barreto que surge é o dos direitos civis –o escritor brilhante, mas que não conseguiu ascender por causa de sua cor.

Fizemos um recorte na sua biografia para conhecer um Lima específico: o cronista dos subúrbios cariocas. Partimos em uma expedição com a historiadora pela região, para ver as ruas que tomam caminhos inesperados, as calçadas esburacadas, os ladrilhos do casario e as pessoas descritas por Lima.

O caminho do autor para casa era longo, não só por causa das ladeiras, mas pelos bares, tomando parati, a cachaça da época. O primeiro que encontramos é o Bar da Loura.

BAR DA LOURA

"Iaraaaaaaaaaaaaaaaa!"
Um homem chama e lá vem a Loura desfilando sua paleta vibrante de cores -cabelo amarelo, avental, brincos e sandália rosas. A Loura é mística e mostra aos visitantes do bar seu altar cheio de ciganos, entidades da umbanda.

"Aqui é a parte esotérica. [Em cima], fica Nossa Senhora porque acima de Deus ninguém. Abaixo, estão todas as energias", afirma.

Como Lima Barreto, ela se indigna com os vícios da república. Está muito irritada que uma escola em frente ao bar foi fechada sem protestos. Fosse mais jovem e passasse por isso, a Loura seria radical:

"Eu subia lá em cima [do estádio de futebol do Engenhão] e dizia que ia me matar! Chamava a Globo, chamava todo mundo!"

Ainda bem que ela não fez isso, talvez nem adiantasse. Lima descreveu os cortejos do subúrbio: com as ruas caóticas e com buracos, o defunto vinha sacolejando tanto que só faltava ressuscitar.

TENDA AFRICANA

É possível conversar com os mortos em Todos os Santos. A religiosidade sincrética dos habitantes do lugar foi descrita por Lima -e permanece tal e qual.

Se é para afastar os atrasos da vida, escreve ele, apela-se à "feitiçaria"; para curar doença que não passa, ao espiritismo. Só não diga para ninguém no bairro deixar de batizar as crianças -aqui o filho de ninguém vai morrer pagão.

Para ver, basta andar pelas mesmas ruas que Clara dos Anjos, protagonista do romance que leva seu nome, e passar na Tenda Africana.

Se o visitante chegar em uma manhã de verão, vai ver a luz do sol entrar pela porta do terreiro de umbanda até iluminar São Sebastião no altar.

Com 78 anos, a casa foi fundada pelos caboclos Ventania e Rompe-Mato -entidades que, no corpo dos médiuns, falam pouco e se comportam de forma circunspecta.

Para saudar seu Ventania, canta-se assim: "Na raiz da arucáia/ Sua cobra é um segredo/ Ele mora no lajedo/ Sentado na beira-mar".

A CASA DO LOUCO

Já não se ouvem uivos na rua Elisa de Albuquerque como antigamente. Haja ladeira para chegar a ela. Aqui, Lima viveu com a família depois que o pai passou a sofrer de um transtorno psiquiátrico. Como a numeração da antiga rua Boa Vista mudou, não se sabe mais onde ficava a "casa do louco", onde João Henriques, seu pai, uivava. O que terá acontecido?

Ainda bem que todas as portas -todas mesmo- se abrem aos visitantes em Todos os Santos. É assim que encontramos uma pista.

"Lima Barreto? Esse era bom de copo!", diz Oswaldo Clapp, 85, depois de mandar os estranhos entrarem em seu casarão na mesma rua. "É tanta história que ouço dele que só consigo pensar: esse Lima Barreto estava era de porre."
A surpresa? São duas. Os Clapp vivem na casa há 140 anos e Oswaldo diz que seu pai foi amigo do escritor. A casa dos Lima Barreto, no topo da ladeira, foi destruída por cupins há muito tempo.

Ficaríamos céticos não fosse o sobrenome do anfitrião: ele é bisneto de João Clapp, um famoso abolicionista, amigo de Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Era uma família de traficantes negreiros que libertaram seus escravos e aderiram à causa.

No fim do século 19, diz Oswaldo, os Clapp tinham um sítio na Gávea, próximo ao lendário quilombo do Leblon, onde se plantavam as camélias que viraram símbolo do abolicionismo. Dizia-se, à época, que a flor era "frágil como a liberdade".

"Ele [João Clapp] é um dos que estão próximos da princesa Isabel na foto da Abolição. É uma família muito importante, dá para entender porque os Lima Barreto podiam ser amigos deles", diz a historiadora Lilia Schwarcz.

Perto dali, na rua Major Mascarenhas, onde o escritor viveu em duas casas, não damos a mesma sorte: se a numeração estiver correta, a casa de Lima virou um condomínio envidraçado.

NA MINHA ILHA

Todos os Santos também foi um lugar difícil para Lima Barreto. Com o pai aposentado, o escritor trabalhava para sustentar a família. Foi ali que guardou sua famosa coleção de livros, hoje armazenada na Biblioteca Nacional, e escreveu a maior parte de suas obras. Mas também onde afundou no alcoolismo.

Antes disso, porém, Lima foi feliz bem longe dali, na Ilha do Governador. Depois de perder o emprego com a proclamação da República -a família era protegida de um nobre da monarquia-, o pai do autor foi designado para dirigir uma "colônia de alienados" no local.

Era um lugar para onde se mandavam os loucos -embora o conceito de loucura, à época, fosse mais elástico do que nos dias de hoje.

É lá que fica o sítio de Policarpo Quaresma, personagem do livro que leva seu nome. "Se der zebra aqui, a gente vai voar com asinhas", diz um militar que nos guia pelo local.

Lá, funciona o Parque de Material Bélico da Aeronáutica, onde ficam guardados mísseis, minas, bombas (Lima, que era contra o serviço militar, daria uma risadinha de escárnio). A casa da família hoje é um alojamento.

Foi ali que o amanuense conheceu uma das figuras mais importantes de sua vida -e para sua formação como escritor preocupado com a condição dos negros.

Manuel Cabinda era um escravo que comprou a própria liberdade. Apaixonado por uma escrava, trabalhou duro para pagar também a alforria dela -quando conseguiu, viu a moça ir embora com outro.

"O fato abalou o pobre preto em todo o seu ser. Ficou meio pateta", escreveu Lima.

Manuel foi parar na colônia e era ele que contava ao menino histórias da Costa da África, de onde viera. Quando os Lima Barreto passaram sufoco,o ex-escravo ainda emprestou cem mil réis ao amigo.

O coração de Lima também partiu-se naquela ilha. Durante a Revolta da Armada (1893), que ocupou a região, ele viu seu pai levar o Estrela, boi da colônia, para os rebeldes. Depois, escreveu: "Quando vi que o iam matar [...], corri para casa, sem olhar para trás."

DOIS MUNDOS

Se a linha de trem, que Lima tanto retratou, dividia o escritor em dois -o dos subúrbios e o crítico da sociedade do centro, a ironia vem no final da vida. Quando morreu, lendo a "Revista dos Dois Mundos", no começo poucos apareceram para seu cortejo.

Depois, surgiu uma pequena multidão anônima. Crianças, carregadores, comerciantes -e os bêbados que choravam. O caixão de Lima pegou o trem e foi enterrado em Botafogo, num cemitério de elite, longe dos seus subúrbios. 

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